O Insurgente

Fevereiro 28, 2010

[Fernando C. Gabriel]

Filed under: Blogosfera,Convidados — Miguel Noronha @ 16:54

Quase por inadvertência, comecei a escrever num blogue em Novembro de 2004. Em Dezembro o presidente dissolveu a Assembleia. A 20 de Fevereiro de 2005 as eleições legislativas produziram uma maioria absoluta socialista. Ao sétimo dia nascia o Insurgente, um blogue que assumiu a defesa do individualismo, num país que acabava de dar mais uma demonstração do seu carácter político gregário, identificável nas diferentes mutações históricas do corporativismo. Contra um adversário cuja força assenta no número, no colectivismo e na capacidade de organizar politicamente a propensão tribal para a pilhagem, o Insurgente propôs-se defender um projecto político de liberdade. Não a “liberdade” dos philosophes –outro nome para a igualdade de resultados, imposta politicamente e que acaba por se reduzir à liberdade de pedir, de defender o que se recebe e de exigir mais. A liberdade reconhecida pelos fundadores do Insurgente é a liberdade de prosseguir os diferentes projectos individuais de auto-realização sem a necessidade de autorização política prévia, algo que pressupõe a existência de um Estado de direito governado por leis e não por um processo permanente de legislação arbitrária —a versão jurídica do tumulto revolucionário. Porque esta liberdade não é dissociável da tradição política ocidental, aqui nunca houve condescendência para o terrorismo, para os despotismos orientais, para os populismos latino-americanos, ou para a corrupção de instituições internacionais sem escrutínio nem legitimidade política.

Por tudo isto, o Insurgente atraiu muito naturalmente a fúria de críticos, com graus variáveis de sanidade e despudor. Não sendo um liberal, pelo menos no sentido ideológico do termo –e duvido que exista outro– não farei a apologia do liberalismo: basta recordar que, ao contrário das ideologias propugnadas por muitos desses críticos, o liberalismo nunca gerou regimes criminosos, tanto piores quanto maior a nobreza proclamada dos fins. Como recordou Allan Bloom, “if the infinite longing for justice on earth is merely a dream or a prayer, the shedding of blood in its name turns from idealism into criminality”.

Os últimos cinco anos desta década baixa e desonesta afastaram o país e a União Europeia (ainda mais) da forma de associação política aqui defendida e a decadência parece ser o derradeiro acquis comunitário. O governo concentrou poderes, concentrou informação, concentrou mais e mais recursos; sempre insuficientes para satisfazer as necessidades. Quando a conjuntura económica mundial se tornou adversa, inventou inimigos externos e o colectivismo da colmeia passou ao colectivismo do vespeiro, onde poucos se atrevem a criticar e ninguém se propõe seriamente a modificar seja o que for. Dentro do espartilho legal e institucional definido pelo regime, não é possível reformar nem inflectir esta trajectória; apenas escolher a velocidade de empobrecimento material e cultural. De tudo isto o Insurgente deu conta ao longo destes cinco anos e se o pessimismo não for exagerado, permanecerá como exemplo de dignidade e de respeito pelos seus princípios.

Fernando C Gabriel foi um “founding fathers” do Insurgente, investigador universitário e cronista no Diário Económico.

2 Comentários »

  1. Acompanhei boa parte desses cinco anos. Muitas consultas, compras e leituras tiveram origem no insurgente: só por isso merecem mais quinhentos anos.

    Obrigado e felicidades

    Comentário por Vasco Silveira — Fevereiro 28, 2010 @ 20:02

  2. FG é o melhor cronista da imprensa nacional. Imperdível.

    Comentário por Luís Oliveira — Fevereiro 28, 2010 @ 21:02


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