Na Atenas democrática da Antiguidade a cidadania activa não era apenas isonomia, nem isegoria. A plena cidadania tinha outro requisito de ordem moral, o de que cada cidadão fosse um parrhésiastés. Parrhesia significava literalmente “dizer tudo”, “falar com franqueza”, “dizer a verdade” como quando alguém nos desafia a não esconder nada – “diz-me a verdade!”. Na prática discursiva da parrhésia integrava-se a franqueza, porém não num sentido equivalente à sinceridade ou à transparência dos sentimentos de quem fala – não se tratava de “abrir o coração”. Integrava-se a coragem, já que o parrhésiastés corria o risco de punição ou, pelo menos, de incorrer no desagrado do interlocutor por lhe dizer a verdade inconveniente. E implicava, evidentemente, a crítica, que adquiria um sentido até mesmo de admoestação (merecida), e que se radicava na consciência patriótica de que o melhor amigo da cidade é o que lhe diz a verdade para melhor aconselhá-la a abandonar os maus modos e arrepiar caminhos. Indicava que a prática mais contraditória com a lisonja e com a submissão era precisamente este exercício particular de autonomia crítica intelectual.
Esta prática discursiva sustentava-se numa ética, na medida em que evidenciava a força do carácter do parrhésiastés, disciplinava os poderes políticos (denunciando as suas faltas) e o discurso público (contrastando com as hipocrisias, e sobretudo as adulações e as estratégias retóricas dos demagogos). Era parte integrante da vivência mais plena da liberdade e da vida cívica democrática, pois decorria da abertura tipicamente democrática ao confronto de opiniões e à disponibilidade comunicacional para ouvir o que, por vezes, é doloroso. Era uma certa forma de desconformidade ao poder instalado, o desafio à falsa autoridade. Era um atrevimento.
Parabéns, Insurgente. Muitos anos de vida.
Miguel Morgado é co-autor do blog O Cachimbo de Magritte
parrésia em relação aos actuais dirigentes politicos e magitrados
VÃO BARDA MERDA E PARA A RAÍZ DAS PUTA QUE OS PARIU
Comentário por balde-de-cal — Fevereiro 27, 2010 @ 14:31