Se há pessoa em Portugal que não precisa que eu o defenda é Pedro Arroja, mas depois de ler a acutilante provocação que o Miguel Morgado lhe dirigiu, não resisto a fazer um breve comentário.
O Miguel tem razão quando critica Pedro Arroja por falta de rigor no uso do conceito de “dogma”, ainda que se deva ter em conta que trata apenas de um post e que Pedro Arroja (tanto quanto sei) não é sequer católico. Acresce – a título de evidência das dificuldades associadas aos dogmas no contexto da Igreja – que a própria afirmação do Miguel Morgado relativa ao estatuto não dogmático da não ordenação de mulheres é, no mínimo, muito discutível (recomendo a leitura atenta da Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis e do subsequente esclarecimento do na altura Cardeal Ratzinger). Mas a meu ver o aspecto menos feliz na post que o Miguel Morgado dirigiu a Pedro Arroja é que se refugia numa crítica relativamente lateral para evitar o principal problema que Pedro Arroja – no seu estilo inconfundivelmente provocatório – levanta (e que destaquei aqui): as posições infelizes que Paulo Rangel defendeu publicamente relativamente a questões muito importantes para a Igreja.
Aceito perfeitamente que o Miguel Morgado e outros apoiantes de Rangel considerem que esse é um aspecto menor (ou até, para alguns, compatível com as suas próprias visões progressistas sobre a Igreja) e que – porventura em nome de uma convenientemente polissémica concepção política da política – deve ser desvalorizado face a considerações de táctica política de curto prazo ou até da virtù que o Rui Albuquerque eloquentemente salientou no avanço de Rangel. Eu próprio, apesar de considerar relevante o problema levantado por Pedro Arroja, inclino-me a achar que ele não deverá, em princípio, inviabilizar a possibilidade de os católicos poderem apoiar em consciência a candidatura de Rangel. O que já me parece menos razoável é a invocação das imprecisões conceptuais no post de Pedro Arroja para evitar discutir a questão principal por ele levantada.
Uma nota final sobre a referência do Miguel Morgado a Joseph de Maistre: além de ter sido maçon e de ter inicialmente dado o seu apoio a algumas das ideias que acabaram por abrir caminho à Revolução Francesa, o tipo de contra-revolucionário no qual de Maistre se veio mais tarde a converter pode facilmente ser considerado como uma decorrência lógica da sua rejeição da tradição jusnaturalista do pensamento católico. Por outras palavras, se estivesse ao meu alcance imitar o estilo polemizador do Pedro Arroja e do Miguel Morgado, poderia sugerir que não faltam razões para classificar Joseph de Maistre, pelo menos em alguns aspectos cruciais do seu pensamento, como, também ele, um homem de esquerda.
Terreno movediço usar esquerda e direita, já que essa distinção é ela mesma também fruto de revolução francesa. Seja como for Maistre é de ler com prazer independentemente do que Isaiah Berlin disse dele (ou será por causa disso?). Quanto a Miguel Morgado, existem coisas que ele e outros provavelmente nunca compreenderão (será o excesso de anglo-saxonismo da ala liberal, que os leva a ignorar a própria tradição continental e católica na evolução do seu sempre muito evocado “Ocidente”).
Comentário por CN — Fevereiro 15, 2010 @ 17:05
“Terreno movediço usar esquerda e direita”
Sem dúvida.
Comentário por André Azevedo Alves — Fevereiro 15, 2010 @ 17:11
“Seja como for Maistre é de ler com prazer independentemente do que Isaiah Berlin disse dele (ou será por causa disso?).”
Ler de Maistre por causa de Berlin é dar demasiada importância a Berlin…
Comentário por André Azevedo Alves — Fevereiro 15, 2010 @ 17:12
“Quanto a Miguel Morgado, existem coisas que ele e outros provavelmente nunca compreenderão”
Independentemente das coisas que ele (ou eu ou tu ou outros) possa nunca vir a compreender, não creio que o Miguel Morgado seja o alvo mais justo para ser atacado por excesso de “anglo-saxonismo”. Mas eu também não serei propriamente imparcial a esse respeito já que faço a maior parte das leituras em inglês e fiz o doutoramento em Londres.
Comentário por André Azevedo Alves — Fevereiro 15, 2010 @ 17:15
O meu problema com este texto e o do Pedro Arroja é que não percebo a que é que se referem quando falam de posições de Rangel relativamente aos costumes. Pelo que sei, Rangel falou apenas do casamento homossexual, defendendo a união civil registada como, aliás, proposto pelo PSD.
É isso uma posição pouco consentânea com a direita? Que direita?
Do que conheço de Rangel em termos de convicções sei que ele é católico e pouco mais. Não sei o que pensa sobre o aborto ou outras questões fracturantes. É por isso que pergunto o que é que ele terá dito para fazer surgir estas reacções.
Comentário por José Barros — Fevereiro 15, 2010 @ 17:35
Paulo Rangel é o melhor candidato para o PSD.
No entanto essa entrevista no i foi um autêntico desastre.
Em primeiro lugar a sua declaração de que não se lembra de foi militante do CDS é hilariante.
Não é por ser o CDS mas não compreendo como é que uma pessoa responsável não sabe de foi militante de um partido. O acto de filiação é um acto de responsabilidade que não se esquece.
Depois aquela de s econsiderar um católico progressista foi outra. Católico progressista é aliás uma expressão bastante datada que se progressista nada tem. Nos anos 60 e 70 percebia-se o que era isso dos católicos progressistas. Hoje já não faz sentido.
É-se católico ponto.
PPB
Comentário por PPB — Fevereiro 15, 2010 @ 18:14
[...] religiosas de Paulo Rangel para o qualificar politicamente, tenho que dizer que discordo desta tua argumentação. Aliás o facto de, como reconheces, ser discutível se é dogma ou não a [...]
Pingback por Ser ou não ser herege « O Insurgente — Fevereiro 15, 2010 @ 19:38
Ok, já li a entrevista ao “I” que é antiga.
Antes de mais, o Pedro Arroja torna-se um pouco ridículo quando sustenta que, para se ser de direita, se tem de ser católico. Por essa ordem de ideias, eu não sou de direita, apesar de ser liberal e, em algumas coisas, cada vez mais conservador.
Em segundo lugar, Rangel tem argumentos que o Arroja ignora. Quanto à ordenação das mulheres, o argumento histórico do tempo de Paulo. Convinha rebater, coisa que Arroja não faz.
Em terceiro lugar, como supunha, Rangel é contra o aborto e a favor da união civil registada. Ou seja, defende as posições do PSD nesta matéria. Em que é que isso faz dele um tipo de esquerda?
Quanto à critica à Igreja em matéria de moral sexual, deixo isso para os católicos.
Comentário por José Barros — Fevereiro 15, 2010 @ 19:46
[...] escrever sobre o tema religião, abro aqui uma excepção para responder de forma breve ao texto do André e da Maria João [...]
Pingback por Dogma e Tradição « O Insurgente — Fevereiro 15, 2010 @ 20:37
[...] Arquivado em: Política, Portugal, Religião, Teoria — André Azevedo Alves @ 19:02 Este meu post suscitou reacções da Maria João Marques e do Bruno Gonçalves. Discordo de parte significativa [...]
Pingback por A Tradição e a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis « O Insurgente — Fevereiro 21, 2010 @ 19:02
[...] de facilitalismo e cedência à demagogia dados na campanha para as eleições europeias e das infelizes declarações públicas de Paulo Rangel sobre a Igreja, as suas recentes entrevistas ao i e ao DN acrescentam novos motivos de [...]
Pingback por Os deslizes de Paulo Rangel « O Insurgente — Fevereiro 21, 2010 @ 23:02