O Insurgente

Fevereiro 15, 2010

Dogma e Tradição

Filed under: Religião — Bruno Gonçalves @ 20:37

Embora não seja hábito escrever sobre o tema religião, abro aqui uma excepção para responder de forma breve ao texto do André e da Maria João Marques.

Não vou aqui falar dos erros e da confusão de doutrina católica que Pedro Arroja apresentou, mas importa compreender que tanto o Dogma como a Tradição na Igreja representam dois pilares na doutrina católica, embora apenas um deles tenha um valor absoluto e imutável. É por esta razão que os dogmas não são muito abundantes e apenas podem ser pronunciados pelo papa, invocando para tal o seu poder Ex Cathedra. A infalibilidade papal apenas existe no exercício deste poder, e como tal, apenas no momento em que se pronuncia um novo Dogma para a Igreja Católica.

Assim sendo, compreende-se que apesar da importância que a Tradição da Igreja possui, várias mudanças tenham ocorrido ao longo dos séculos, até em sentidos divergentes, dando lugar por exemplo a dois ritos na Igreja Católica – o Rito Ocidental e o Rito Oriental. Tal não afecta a doutrina na Igreja, muito menos, a discussão que obviamente muitos dos rituais dessa Tradição coloca no contexto dos dias de hoje.

A Maria João Marques fala em defender uma “heresia” no que respeita à alteração da Tradição da Igreja, de modo a possibilitar o acesso ao sacerdócio das mulheres. Eu discordo da conotação de heresia, dado que não considero que uma discordância da Tradição, ou mesmo de um texto doutrinário como uma Encíclica, constitua uma heresia. Uma interpretação da doutrina católica com base no Evangelho contrária a um documento oficial do Vaticano não perfaz uma heresia per se. Basta lembrar a evolução que muitas das ideias contidas em Encíclicas tiveram ao longo dos tempos. Deste modo, a discussão e reflexão em matéria de Tradição e de interpretação de doutrina merecem incentivo. Um dos argumentos que reveste a interdição das mulheres ao sacerdócio é o facto da Igreja ter dúvidas se possui a autoridade para tal, dado que Cristo nunca a realizou, apesar de ter tido essa possibilidade. Parece uma coisa menor. Não é. É nesta linha que o argumento é mais de Tradição que propriamente teológico, mas longe, na minha opinião, de ser matéria de Dogma.

Embora faça esta distinção, julgo importante realçar que estes dois pilares são ambos estruturantes na organização da Igreja Católica. O ponto onde não concordo com a Maria João é a forma como secundariza a Tradição, esvaziando-a de toda a sua essência e importância no seio da Igreja. Não é apenas pelo facto que nos dias de hoje o papel da mulher na Igreja pareça ser inferior ao do homem que se deva aprovar automaticamente uma alteração ao direito canónico. É necessário compreender que a Tradição não conserva apenas ritos por conservar, mas que mantém os limites daquilo que pode ou não ser realizado dentro da Igreja.

16 Comentários »

  1. Bruno, a referência à heresia era jocosa. Se não há dogma, claro não pode haver heresia pela não aceitação.

    Já na questão da Tradição (que eu também penso que é onde se enquandra a fundamentação da impossibilidade de ordenação das mulheres) tens toda a razão e cautelas e caldos de galinha recomendam-se. Agora há variações nas alterações que pensamos já serem possíveis e/ou desejáveis.

    Comentário por Maria João Marques — Fevereiro 15, 2010 @ 20:59

  2. O Orçamento do Estado a ser discutido na Assembleia, e nada se diz na blogosfera! deve ser por causa da asfixia !

    Comentário por Manolo Heredia — Fevereiro 15, 2010 @ 21:59

  3. É heresia tentar definir ou limitar o que é ou não heresia para a Igreja. :)

    Comentário por CN — Fevereiro 15, 2010 @ 23:27

  4. Menina Maria João Marques,

    Na tradição católica as discussões teológicas são reservadas aos homens.

    “In its further evolution, «dogma» came to refer to those statements explicitly set forth by the magisterium pertaining to divine, public and official revelation, that is, Scripture and tradition”
    (The Modern Catholic Encyclopedia, Collegeville, Minn.: Order of Saint Benedict, p. 240)

    Comentário por Pedro Arroja — Fevereiro 15, 2010 @ 23:53

  5. Os problemas do Rangel não são dar o dito pelo não dito ou a orientação religiosa.
    Mais gravoso é recomendar a leitura de Platão e de Aristóteles sem os ter compreendido.

    http://intransmissivel.wordpress.com/2009/08/27/platao-aristoteles-e-os-politicos-portugueses/

    http://intransmissivel.wordpress.com/2009/09/12/sobre-as-liberdades/

    Quanto a dita “questão” da escolha religiosa, talvez este texto possa ser interessante:

    http://revista.triplov.com/numero_03/Ferreira-da-Silva/index.html

    Comentário por VFS — Fevereiro 16, 2010 @ 00:14

  6. um bom texto do Bruno.
    Só uma precisão: os dogmas podem ser pronunciados pelo papa, mas também por concílio.

    Maria João, dizes que “Se não há dogma, claro não pode haver heresia pela não aceitação.” Mas não é assim. a heresia é a defesa de um posição contrária
    á fé. Ora, muitas matérias de fé não são objecto de dogma. E ainda assim, a heresia existe.
    E sucede o inverso: dogmas que versam sobre assuntos que não serão necessáriamente centrais à fé.
    É certo que históricamente, quase todos os dogmas foram proclamados por motivo de heresia, isto é, eram uma afirmação face a uma disputa no seio da igreja, resolvendo-a definitivamente. Mas nem toda a fé foi definida dogmaticamente e portanto a heresia pode surgir ainda que de matérias formalmente não dogmáticas.

    Comentário por Gabriel Silva — Fevereiro 16, 2010 @ 00:14

  7. “Na tradição católica as discussões teológicas são reservadas aos homens”

    pretender defender a tradição, desconhecendo-a, dá asneira.

    Comentário por Gabriel Silva — Fevereiro 16, 2010 @ 00:22

  8. Concordo com quase tudo, mas no “quase” há um ou dois aspectos importantes. :)

    Estou com pouco tempo, mas vou tentar postar alguma coisa amanhã.

    Comentário por André Azevedo Alves — Fevereiro 16, 2010 @ 00:30

  9. Caro Pedro Arroja, há quem perca tempo a escrutinar os seus objectivos, mas parecem-me muito transparentes. Pretende expôr ‘teses’ absurdas para depois se divertir vendo os outros a comentá-las e a esgrimir argumentos e, até, esforçando-se por defender as tais posições absurdas pensando que o Pedro Arroja lhes deu credibilidade. E, sendo como é uma pessoa inteligente, também se diverte afirmando a sua inteligência por ganhar (na sua opinião) as discussões mesmo quando defende posições absurdas.
    Assim, lê-lo é na maior parte das vezes divertido, tal como é divertido ver todo o nonsense de um episódio do Fawlty Towers (ainda que não tão divertido, claro).
    Se pensa que vou perder o meu tempo discutindo o que escreve, desengane-se. Esta discussão tão interessante é com o André e com o Bruno – e também com o Gabriel.
    Cumprimentos

    Gabriel, tens razão no sentido de que a fé não está toda condensada nos dogmas. Mas eu acrescentaria aos dogmas apenas o que está contido no Credo, que tem o sumo do que é ser católico. Certamente não se pode falar em heresia fora disso. Exemplo: a pena de morte parece-me absolutamente fora da fé católica, mas não é heresia ser defensor da pena de morte.

    Comentário por Maria João Marques — Fevereiro 16, 2010 @ 13:52

  10. fazendo de conta, que não existem partidos, para si, quem seria a personalidade da sociedade portuguesa, que tem o perfil ideal para Governar Portugal nos tempos de grande instabilidade politico-economica-social que correm?

    Comentário por tric — Fevereiro 16, 2010 @ 15:26

  11. “Exemplo: a pena de morte parece-me absolutamente fora da fé católica, mas não é heresia ser defensor da pena de morte.”

    Não me parece, como diz, que a pena de morte “esteja fora da fé católica” nesses termos, mas deixo isso para os especialistas. Embora seja de todo cristão, digamos, ser contra a pena de morte.

    Comentário por CN — Fevereiro 16, 2010 @ 16:55

  12. Mas por exemplo, no caso da “guerra justa” que é uma doutrina eminentemente católica, poder-se-à dizer que as guerras que não observam esse princípios, estão sim “fora da fé católica”. Mas não constituirão em si heresia.

    E acrescentando o óbvio, não sendo um pecador um herege apenas por ser pecador, a heresia tem outras propriedades para o ser. A heresia como conceito genérico será algo que oferece perigo e quer oferecer perigo de forma consciente e continuada, à própria doutrina e estrutura humana estabelecida.

    Comentário por CN — Fevereiro 16, 2010 @ 17:04

  13. CN, eu sou contra a pena de morte. A Igreja, de forma algo distinta, aceita a pena de morte em casos muito graves e quando há poupança de outras vidas devido a essa pena. Mas, regra geral, é contra a pena de morte precisamente por considerar que vida é um dom sagrado de Deus onde a humanidade não tem de se meter a encurtar.

    Comentário por Maria João Marques — Fevereiro 17, 2010 @ 00:11

  14. Muita boa esta discussão!

    E concordo com quase tudo o que foi escrito pelo Bruno e pela Maria João.

    Já agora, quando o Pedro Arroja escreve “Na tradição católica as discussões teológicas são reservadas aos homens”, está obviamente a ser irónico. E teve a sua piada, confesso :)

    convém também ler a sua resposta; tem um pouco de razão quando diz que :

    “Em Portugal, as discussões intelectuais, quando não terminam em insulto, terminam invariavelmente com cada um dos participantes de dicionário na mão a discutir o significado das palavras, e omitindo por completo a substância da questão”

    http://portugalcontemporaneo.blogspot.com/2010/02/o-esqueita.html

    Comentário por João Neto — Fevereiro 19, 2010 @ 11:44

  15. [...] André Azevedo Alves @ 19:02 Este meu post suscitou reacções da Maria João Marques e do Bruno Gonçalves. Discordo de parte significativa do post da Maria João e concordo com parte (mas não com a [...]

    Pingback por A Tradição e a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis « O Insurgente — Fevereiro 21, 2010 @ 19:02

  16. “Se pensa que vou perder o meu tempo discutindo o que escreve, desengane-se.” Ahahahahahahaha! :D

    Comentário por lpedromachado — Fevereiro 23, 2010 @ 16:20


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