Altamente recomendável a entrevista de Vítor Bento no Público
Não é um exagero dos mercados o que tem estado a acontecer com a dívida pública portuguesa? De repente parece que todos começaram a acreditar que um default da República Portuguesa é um cenário provável?
É normal que o ajustamento dos mercados, em períodos de turbulência e incerteza, envolva fenómenos de sobre-reacção face ao que acabará por se revelar a tendência desse processo de ajustamento. E, depois, o que os mercados estão a incorporar não é a possibilidade de default; é um aumento, por enquanto marginal, da probabilidade desse evento. Ora, quando uma probabilidade passa de 5 para 10 por cento, ela duplica, mas não deixa de continuar relativamente baixa. Estes valores são apenas um exemplo teórico, mas julgo que é isso, basicamente, o que se tem estado a passar.(…)Já foi presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público. No curto prazo, o que é que Portugal precisa de fazer para acalmar os mercados?
A minha experiência relevante para este caso é, mais do que a que tive à frente da gestão da dívida pública, a que tive na gestão das crises cambiais do Sistema Monetério Europeu, no Banco de Portugal, e na vivência de outras crises semelhantes, noutras posições. E o que essa experiência me ensinou é que a única forma de acalmar os mercados é apresentando-lhes factos. As reacções discursivas só tendem a ser eficazes se forem suportadas em factos que as validem e credibilizem. De outro modo, podem tornar-se contraproducentes, porque podem ser vistas como sinais de fraqueza.Na actual situação, o que é que isso significa?
No caso concreto, julgo que o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) poderá ser, pelo menos, um instrumento fundamental para serenar a ansiedade dos mercados.(…)Que outro tipo de acção pode ser benéfica?
Também ganharíamos pontos importantes se mostrássemos um reforço das nossas instituições na área das finanças públicas. Refiro-me concretamente à criação de uma entidade autónoma e independente do Governo para monitorar as contas de todo o sector público, incluindo empresas públicas e PPP, fazer projecções macroeconómicas e avaliar os grandes projectos de investimento. Como, aliás, aconselhou recentemente o FMI.(…)A política de austeridade que defende não corre o risco de baixar cada vez mais as expectativas e deprimir a procura, colocando Portugal sob a ameaça de uma espiral deflacionista?
Uma política de austeridade será não só indispensável como incontornável, pois não é possível continuar a gastar dez por cento mais do que produzimos. E será feita, seja por escolha nossa, seja por força das circunstâncias que acabarão por se nos impor, de uma forma a que poderíamos chamar “à bruta”.(…)O euro não deveria proteger-nos dos mercados?
O euro é obviamente uma protecção. Mas o euro também nos traz um perigoso elemento de complacência, permitindo que acumulemos desequilíbrios mais volumosos e durante mais tempo. Fomenta o adiamento de soluções, deixando que o problema se avolume, e assim aumenta os custos do ajustamento.Acha que a Alemanha deixaria cair países como Portugal ou a Grécia?
É certo que tanto a Alemanha como outros países mais ricos e mais estáveis não deixarão de manifestar a sua solidariedade para minorar as consequências dos problemas dos países mais frágeis. Mas é preciso ter consciência de que essa ajuda não é ilimitada e que servirá sobretudo para dar mais tempo aos países com problemas para que os resolvam. Mas se estes não o conseguirem, não haverá nada que lhes possa valer.Estamos perante uma ameaça para a integridade da zona euro?
Seria ilusório pensar que as fragilidades que estes países apresentam não constituem um problema para a coesão necessária ao funcionamento de uma união monetária.Não vê os últimos acontecimentos como um sinal de fracasso do PEC?
O PEC e as autoridades europeias fracassaram quando foram complacentes com o seu não-cumprimento. Não agora, mas durante o “bom tempo” económico. Nessa altura, permitiram que países arrastassem défices nas suas contas e os mantivessem perto do limite máximo, coarctando, dessa forma, a sua margem de manobra para reagir a crises como a que temos estado a atravessar.
(via A Destreza das Dúvidas)