Há uma tendência em Portugal para se considerar que a existência de procedimentos de contratação pública é garantia suficiente da imparcialidade das entidades adjudicantes. No fundo, e como sempre entre nós, o que importa é a forma e o parecer ser.
Acontece, porém, que a existência de um qualquer procedimento, seja ele o ajuste directo ou o concurso público, pouco nos diz quanto à transparência da contratação. Para que esta seja assegurada, é importante atentar, isso sim, nas regras do procedimento, nos critérios de adjudicação definidos e na actuação do Júri do procedimento. Por outro lado, e como a Jurisprudência Comunitária tantas vezes faz referência, grande parte das maiores violações ao direito comunitário está precisamente na camuflada fuga aos procedimentos, muitas vezes ao abrigo da aplicação formal, mas não material, das normas em vigor.
É por isso que tenho alguma dificuldade em entender este post do João Magalhães na Câmara Corporativa como sendo uma resposta definitiva ao problema levantado pelo Rui Tabosa (a polémica que o enforma ultrapassa-me): é que não só não é verdade que todos os contratos celebrados pelas entidades adjudicantes estão devidamente publicitados, mas tão só aqueles que aparentemente seguiram um procedimento de contratação, como tal publicitação, nos termos em que é feita, apenas garante que existiu um procedimento de contratação mas não que esse procedimento era objectivo e imparcial e que cumpriu integralmente a sua função de escolher a melhor proposta.
É evidente que a publicitação da contratação pública, imposta comunitariamente, ajuda a fiscalização da actividade contratual em causa, permite a existência de sites como este e deve ser aplaudida. Mas a verdade é que o actual regime contencioso contribui para que as ilegalidades praticadas ao longo do procedimento se cristalizem sem especial tutela dos interessados. Ou seja, não existem mecanismos adequados a atacar as violações da legislação da contratação pública de forma atempada e satisfatória. De tal forma que, olhando para sites como este, as empresas do sector pouco ou nada possam fazer para impedir a consumação das ilegalidades. E aí sim se encontra a resposta definitiva a dar ao problema da transparência na contratação pública.