O Insurgente

Janeiro 20, 2010

Sobre o acordo PS-CDS

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:54

O CDS prepara-se para viabilizar o orçamento de estado, com pequenas alterações que o PS se propõe acatar em nome de uma maioria parlamentar e uma paz de espírito que já não sente desde o Verão. O fenómeno não é novo e surge quando o CDS cresce eleitoralmente. A história demonstra-o. A memória lembra-nos.

Antes das últimas eleições legislativas, sugeri a possibilidade de os centristas se coligarem com o partido socialista e formarem juntos um governo para quatro anos. Tal não aconteceu porque o CDS conseguiu um resultado acima dos 10%, o que não acontecia desde 1983. Com um resultado tão bom, e sabendo que se tratava de um voto de protesto, o CDS não podia ir para o governo. A estratégia transformou-se em render os votos recebidos. Para tal, nunca os democrata-cristãos não se furtaram às negociações com o PS, que não se preocupa em fazer cedências sectoriais ao agrado do eleitorado do CDS. Uns dinheiros para as polícias; umas ajudas para as famílias numerosas; algo mais para os agricultores e daí em diante. Dir-me-ão que é política. Pois é. Mas uma política que se paga caro.

O país atravessa uma grave crise em nada semelhante com os tempos vividos nos anos do guterrismo, quando o CDS, então PP, aprovou orçamentos socialistas. O momento é demasiado grave e o país está atrofiado à custa de pequenos arranjos e ligeiros acertos feitos com um ar de imensa responsabilidade e uma seriedade cega. O desemprego, que se aproxima dos 11% da população activa (uma percentagem muito maior se nos cingirmos ao sector privado), atinge já perto de 600 mil pessoas. Não é pêra doce. Precisamos urgentemente de outro modelo de desenvolvimento, não assente no endividamento do estado em troca de benesses ao agrado de sectores da sociedade que mantêm o status-quo. É preciso pôr o dedo na ferida e reduzir o peso do estado na economia e na sociedade. Centrá-lo no que é o seu papel, naquelas que devem ser as suas funções primordiais. Arrumá-lo e impedir que estrague mais vidas. Ver o país como um todo, sem preferências de uns sectores sobre os outros. Os Portugueses não são peças que se descartam na mesa das negociações. São homens e mulheres que votaram e escolheram quem governasse em seu nome. Fizeram-no confiando, uns mais, outros menos, mas fizeram-no. O mínimo que pedem é um retorno digno.

5 Comentários »

  1. Palavras sensatas

    Comentário por Lusitânea — Janeiro 20, 2010 @ 12:35

  2. Qual seria a tua sugestão? Vender mais caro o voto? Exigir mudanças políticas reais em vez de um suborno? Concordo mas tens alguma dúvida que o PS mandaria o CDS passear?

    O PS escolheu o caminho mais barato para chegar a uma maioria parlamentar, se esse caminho se tornasse demasiado caro é provável que se virasse para outro lado, outro lado bastante pior, já que o voto favorável do PSD, estando o PSD na confortável posição de não ter grande coisa a perder com um voto contra, também seria demasiado caro.

    Lamentavelmente compor uma maioria ainda não é o equivalente a ser uma maioria.

    Comentário por Tomás Belchior — Janeiro 20, 2010 @ 18:23

  3. Tomás, o problema não é o CDS. É o CDS servir para pouco mais do que aquilo que faz.

    Comentário por André Abrantes Amaral — Janeiro 21, 2010 @ 18:14

  4. [...] Política, Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:00 O Adolfo Mesquita Nunes criticou a minha análise às negociações orçamentais que juntaram PS e CDS à mesma mesa. Se concordo com o essencial do que o Adolfo escreveu, já [...]

    Pingback por Acordo PS-CDS e breves notas sobre o PSD « O Insurgente — Janeiro 22, 2010 @ 11:01

  5. [...] Amaral @ 12:35 Esta notícia no jornal ‘i’ explica em parte o porquê destes meus dois textos críticos à posição do CDS, e também  do PSD, quanto ao orçamento de estado para este ano. A situação é demasiado grave [...]

    Pingback por Últimas linhas acerca das negociações do orçamento de estado « O Insurgente — Janeiro 25, 2010 @ 12:36


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