O caso (nos dois sentidos) da sra. Robinson. Por Alberto Gonçalves.
Há uma quantidade notável de políticos infiéis que se safaram sem mácula, ainda que as consequências da infidelidade fossem ligeiramente mais graves que a abertura de um bar. Um exemplo moderado é o de Bill Clinton. Um exemplo extremo é o de Edward Kennedy, que, em Julho de 1969, conduziu não demasiado sóbrio o seu carro para o fundo de um lago. No carro seguia, e lá ficou até morrer, uma “amiga” do senador. O senador fugiu. O escândalo não impediu que Kennedy sobrevivesse biológica e politicamente ao acidente e que, 40 anos decorridos, as elegias fúnebres de Agosto passado o pintassem como um santo. Já a carreira da sra. Robinson (e, talvez, a do marido) terminou dias após a divulgação do seu pecado. O que explica a diferença de tratamento?
O problema, se bem percebo, passa pelas convicções, sinceras ou simuladas, da sra. Robinson. Antes do deslize amoroso, ela cometeu o deslize de confessar fé cristã e simpatia pelos “valores familiares”. Pior ainda, em 2008 produzira umas afirmações desagradáveis acerca da homossexualidade. Isto, somado ao affaire, chega e sobra para transformar a senhora numa “hipócrita”. Na América, embora obviamente não só na América, a detecção da “hipocrisia” em políticos conservadores é um dos desportos preferidos da esquerda, sob o argumento de que a vida privada deve corresponder escrupulosamente aos ideais professados na vida pública. Podia-se inferir daqui que, em nome da coerência, os ideais públicos de Clinton incluíam o abuso de funcionárias e os de “Ted” Kennedy a embriaguez, o homicídio e a fuga. Mas é melhor dar um desconto, e apenas notar que atrás de imensos progressistas se esconde um inquisidor e uma fogueira acesa.
Alberto Gonçalves como sempre gosta de contornar o assunto da forma que mais lhe agrada, neste caso esquerda versus direita em que os priemiros são os maus da fita. “…ela cometeu o deslize de confessar fé cristã e simpatia pelos “valores familiares”. Pior ainda, em 2008 produzira umas afirmações desagradáveis acerca da homossexualidade”, como se estas afirmações constituissem um problema na hiper-cristã Iralanda do Norte fosse um problema.
Claro que violar a lei para beneficiar o seu jovem amante ao manipular um concurso público terá pouco a ver com o caso.
Comentário por Joaquim Nunes — Janeiro 18, 2010 @ 00:52
“Claro que violar a lei para beneficiar o seu jovem amante ao manipular um concurso público terá pouco a ver com o caso.”
Esclareça-me. Onde é que o AG diz que ela não é culpada de tráfico de influências?
Comentário por Miguel — Janeiro 18, 2010 @ 09:16
Caro Alberto, concerteza que do lado dos republicanos vai encontrar exemplos bem mais elucidativos. Não se coíba, não somos pessoas sensíveis.
Eu acho esta passagem deliciosa:
“Na América, embora obviamente não só na América, a detecção da “hipocrisia” em políticos conservadores é um dos desportos preferidos da esquerda, sob o argumento de que a vida privada deve corresponder escrupulosamente aos ideais professados na vida pública”
Vamos a desresponsabilizar a hipocrisia dos conservadores com base num pressuposto atentado à privacidade (quando linhas antes se fazia o contrário para democratas). Só uma pequena achega. Que eu me lembre não tem de haver caça ao homem; a imprensa normalmente dá conta do recado (a não ser que consideremos os jornalistas como perigosos marxistas parte de uma perigosa conspiração internacional socialista).
Comentário por Nuno Vieira Matos — Janeiro 18, 2010 @ 09:31
Sim, ao lado da hipocrisia de Ted Kennedy que deixou morrer a amante para tentar evitar o escândalo ou de Clinton que mentiu em tribunal o que interessa é a hipocrisia da Sra Robinson.
Comentário por Miguel — Janeiro 18, 2010 @ 09:46
Recordo que o Clinton nunca foi dado como culpado de “abuso de funcionárias” (imagino que AG esteja-se a referir ao caso Paula Jones).
Quanto ao Edward Kennedy, é mais ou menos dado como certo que foi com a acidente que acabaram as hipoteses de ele vir a ser Presidente.
De qualquer forma, penso que, nem Bill Clinton fez campanhas politicas em nome dos “valores familiares” nem Edward Kenneddy em nome da “segurança rodoviária” ou “combate ao alcoolismo” (o que nem seria muito popular na sua comunidade de origem…).
Comentário por Miguel Madeira — Janeiro 18, 2010 @ 09:52
“Hipocrisia” é exibir uma fachada pública contraditória com a vida privada – penso que nem Clinton nem os irmãos Kenneddy no seu conjunto alguma vez cultivaram a imagem de “maridos fiéis”.
Poderá é considerar-se que há coisas piores na vida do que ser hipócrita…
Comentário por Miguel Madeira — Janeiro 18, 2010 @ 09:55
“Recordo que o Clinton nunca foi dado como culpado de “abuso de funcionárias””
Provou-se as relações extra-conjugais. Mas o cerne do caso que levou à tentativa de impeachment não foi a infidelidade mas o facto de ter ficado provado que mentiu em tribunal. Sobreviveu ao processo político mas no judicial teve de fazer um acordo para evitar a condenação.
“Quanto ao Edward Kennedy, é mais ou menos dado como certo que foi com a acidente que acabaram as hipoteses de ele vir a ser Presidente”
Mas não o impediu de ser Senador o que náo é propriamente um cargo menor.
Comentário por Miguel — Janeiro 18, 2010 @ 10:01
“Poderá é considerar-se que há coisas piores na vida do que ser hipócrita…”
Sim. Perjúrio ou homicido involuntário.
Comentário por Miguel — Janeiro 18, 2010 @ 10:02