O Insurgente

Janeiro 13, 2010

À falta de coisas importantes para discutir, o país político dedica-se às presidenciais

Filed under: Colunas,Comentário,Media,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 19:17

Manuel Alegre deu, este fim-de-semana, uma entrevista ao Expresso, mais uma oportunidade para falar longamente sobre o assunto que mais gosta, ele próprio (entre a entrevista e as fotos de Clara Pinto Correira em “êxtase sexual”, que fizeram as delícias de metade do país, e encheram de pesadelos o sono da outra metade, na qual me incluo, não houve grande diferença). A dada altura, o ex-deputado dizia que Cavaco Silva “sabe gerir os silêncios, mas não sabe gerir a palavra”, o que mostra que, se é verdade que o júri ainda está à procura de um veredicto acerca de se Alegre sabe gerir a palavra ou não, pelo menos fica claro que não sabe dar grande sentido às ditas.

Mas deixemos as graças de lado, até porque Alegre não merece ser gozado, pois cumpre um papel importantíssimo na manutenção da paz e tranquilidade na sociedade portuguesa. Se não fosse ele, e o seu gosto em mostrar que nada tem para dizer, o que teria sido dos jornalistas esta semana? Findo (por agora) o festival do casamento gay, centenas de jornalistas e comentadores entraram em pânico, sofrendo profundos e severos ataques de ansiedade por terem ficado sem assunto sobre o qual terem milhares de opiniões, nenhuma dela fundamentada. Teriam que se preocupar com o défice? Fazer reportagens sobre a sustentabilidade (ou falta dela) da Segurança Social? Limitar-se-iam a entrevistas a Pedro Passos Coelho, outro homem visivelmente apaixonado por si próprio? Esta última hipótese não preocupava especialmente a redacção do Diário de Notícias, que não tem feito outra coisa nos últimos tempos, mas certamente não fazia as delícias dos restantes. Felizmente, Alegre resolveu falar, e daquele conjunto de sons mal articulados, logo os jornalistas fizeram brotar um assunto de “debate”: as presidenciais de 2011.

Diga-se de passagem (e muito, muito, a contragosto) que o tema não é totalmente descabido. Dada a situação política actual, as eleições presidenciais de 2011 poderão ter um impacto significativo na realidade política (embora, dado o adormecimento que parece agradar a todos nós, o mais provável é que fique tudo exactamente na mesma). Mas o que excita os jornalistas (que, no entanto, não exibem fotos disso em galerias de Cascais) é mesmo a eterna dúvida “será que Alegre se candidata?”, e as intrigas palacianas que ela acarreta, especialmente tratando-se do PS, onde estas coisas têm sempre um certo fascínio, só superado pelas do PSD (quem tem Santana Lopes consegue sempre oferecer outra magia).

Gente mais sensata, como o Luciano Amaral, também se preocupou com as presidenciais de 2011. Diz o Luciano que a “última coisa de que o primeiro-ministro gostaria” seria “ter de lidar com um Presidente Alegre. Ora, é esse mesmo o outro real candidato a perfilar-se no horizonte. Um Presidente Alegre tornaria Sócrates refém da maioria parlamentar de esquerda (ou pelo menos da quase-maioria com o BE), o caminho certo para a sua irrelevância ou para o fim da sua credibilidade governativa. Onde chegamos a uma situação interessante. Entre a penúltima” (ter de lidar com Cavaco silva novamente) “e a última coisa de que menos gostaria, talvez o primeiro-ministro devesse preferir a primeira, o que reeditaria as circunstâncias das últimas presidenciais: apoio oficial a um candidato de esquerda e multiplicação de sinais mostrando que se preferiria o de direita. Sócrates bem esperneia, mas, na ausência de uma invenção catastrófica, ainda vai ter de acalmar o seu tom com o Presidente.”

Não discordando da análise do Luciano, falta-lhe uma outra hipótese, sobre a qual em tempos já escrevi: Sócrates avançar ele próprio contra Cavaco Silva. O resultado das últimas eleições, e a atmosfera de cortar à faca da política portuguesa nos últimos tempos, fazem-me ver tal cenário como cada vez mais provável: sem maioria absoluta, Sócrates ou governava em minoria ou com uma coligação com um qualquer partido que lhe será pouco menos que hostil (CDS ou BE). Descanso, era coisa que nunca teria (nem terá) fizesse o que fizesse. Eleições antes do tempo serão praticamente inevitáveis. O potencial de conflito com o presidente é enorme, e a melhor desculpa que o PS poderá usar para se vitimizar, estratégia indispensável em eventuais eleições antecipadas. E nada melhor para radicalizar esse conflito com o Presidente, e assim recorrer à única estratégia que poderá salvar o PS na difícil conjunutra que o espera, será Sócrates candidatar-se ele próprio à Presidência, para remover a “força de bloqueio” (aposto mesmo que este será o termo usado) que “impedirá o PS” de “dar futuro a Portugal”. Se a política portuguesa chafurdou na lama nos últimos anos, agora será muito pior. O que certamente deixará os jornalistas um bocadinho mais descansados.

1 Comentário »

  1. A festa está a acabar e com ela todas essas danças.

    Comentário por anonimo — Janeiro 14, 2010 @ 00:01


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