O debate sobre o aquecimento global deveria ser simples. Mas não é. A politização da ciência, que continuando assim vai acabar por descredibilizá-la completamente, não o permite. Existem quatro barreiras que os proponentes de medidas draconianas para tentar reverter os (supostos) malefícios do (possível) aquecimento global devem ultrapassar:
1) O aquecimento global é um facto?
2) Se a resposta a (1) é afirmativa, a causa é antropogénica?
3) Se a resposta a (2) é afirmativa, há algo que possa ser feito para inverter ou mitigar o aquecimento?
4) Se a resposta a (3) é afirmativa, esse “algo” é a melhor forma de aplicar tanto dinheiro?
Apenas uma resposta positiva ao último destes pontos poderia justificar as medidas radicais avançadas por vários ambientalistas, ou mesmo as menos radicais, mas intrusivas e potencialmente desastrosas, avançadas por inúmeros políticos influentes e actualmente a ser consideradas em Copenhaga. O meu objectivo neste post não é abordar este ponto. Para tal, remeto para as ideias coordenadas por Bjorn Lomborg; apesar de não concordar inteiramente com elas parecem-me um ponto de partida razoável.
Uma atitude céptica relativamente a qualquer acção política de grande escala cujos promotores dizem ser tão urgente que não se deve perder tempo a debatê-la é um caso de puro bom senso. Tal como é uma atitude de repúdia quando alguém sugere “gerir” a população humana para valores mais baixos ou alterar os meios de produção industrial ou agrícola para níveis que só são compatíveis com um aumento generalizado da pobreza e de carências várias. No entanto, os tresloucados que apregoam estas enormidades são levados a sério e considerados idealistas, enquanto que quem duvida da necessidade de regredir as nossas sociedades é comparado a um negacionista do Holocausto e/ou tratado como um herege a ser trancado a sete chaves numa masmorra. Este contexto mostra que o debate tem já pouco de científico. É na melhor das hipóteses político; na pior, religioso.
O ponto (1), a constatação de que as temperaturas médias têm subido nas últimas décadas, parece ser inegável. Onde podem surgir dúvidas é na questão da escala e de se o aquecimento continua a acontecer presentemente. Isto acaba por estar ligado ao ponto (2): Se o aquecimento já não está a ocorrer, então a causa não deverá ter sido antropogénica, pois as emissões do gases de efeito de estufa continuam a aumentar. Uma constatação de que ele tinha parado, ou regredido, seria um forte indício de que outra causa haveria (actividade solar, por exemplo). Os relatórios contraditórios, que sugerem que as temperaturas não têm subito desde 1998, são por sua vez negados por outros, que sugerem que 2005 foi mais quente que 1998. O tom quase histérico das críticas a qualquer pesquisa que vá contra o consenso de que o planeta continua a aquecer, no entanto, deveria deixar preocupada qualquer pessoa que preze a ciência, e que deseje encontrar uma verdade fáctica, não uma convenção politico-religiosa. Eventuais dúvidas, infelizmente, apenas serão respondidas pelo tempo; ou seja, na eventualidade do aquecimento das últimas décadas não ser antropogénico, apenas o conseguiremos constatar depois de provavelmente já ter tomado medidas desnecessárias e provavelmente nocivas.
Acresce ainda a questão que não basta constatar o aquecimento. É necessário que este seja sem precedentes na história e que a sua magnitude seja superior à variabilidade normal, por definição, não-antropogénica. É aqui que o recente escândalo ClimateGate entra. Os esforços comprovadamente coordenados por uma dúzia de cientistas no sentido de “eliminar” o período quente medieval constituem uma fraude científica de proporções inéditas. Os alegados factos usados pelo IPCC para concluir que o aquecimento nos últimos 150 anos foi sem precedentes são colocados em cheque pelo que veio a público agora. Os badalados gráficos hockeystick foram, inequivocamente, fabricados à força para persuadir a comunidade científica. Ao contrário do que querem fazer crer aqueles que minimizam a importância do ClimateGate, não é necessário acreditar numa conspiração global para aceitar que os gráficos são falsos. Basta perceber que um grupo restrito de pessoas falsificou dados que servem de base a vários estudos científicos e que a comunidade aceitou os resultados em boa fé.
O que o método científico exige, perante estes factos, é que se rejeite a teoria de que o aquecimento recente é sem precedentes. Mais: Urge reverter a forma como o processo político tem vindo a manchar o processo científico; rever os processos de peer-review; rever a forma como fundos de pesquisa são atribuídos. Se isto não fôr feito, corre-se o risco de manchar irremediavelmente a reputação da ciência, criando um mundo em que os “factos” serão baseados em maiorias sociológicas, ou na capacidade de as formar ou influenciar, em vez de estarem assentes na realidade objectiva.
Leitura complementar: Posts sobre ClimateGate n’O Insurgente.