O Insurgente

Dezembro 18, 2009

Barreiras Lógicas

Filed under: Ambiente,Comentário,Economia,Internacional,Política,Religião,Teoria — Miguel Botelho Moniz @ 10:03

O debate sobre o aquecimento global deveria ser simples. Mas não é. A politização da ciência, que continuando assim vai acabar por descredibilizá-la completamente, não o permite. Existem quatro barreiras que os proponentes de medidas draconianas para tentar reverter os (supostos) malefícios do (possível) aquecimento global devem ultrapassar:

1) O aquecimento global é um facto?
2) Se a resposta a (1) é afirmativa, a causa é antropogénica?
3) Se a resposta a (2) é afirmativa, há algo que possa ser feito para inverter ou mitigar o aquecimento?
4) Se a resposta a (3) é afirmativa, esse “algo” é a melhor forma de aplicar tanto dinheiro?

Apenas uma resposta positiva ao último destes pontos poderia justificar as medidas radicais avançadas por vários ambientalistas, ou mesmo as menos radicais, mas intrusivas e potencialmente desastrosas, avançadas por inúmeros políticos influentes e actualmente a ser consideradas em Copenhaga. O meu objectivo neste post não é abordar este ponto. Para tal, remeto para as ideias coordenadas por Bjorn Lomborg; apesar de não concordar inteiramente com elas parecem-me um ponto de partida razoável.

Uma atitude céptica relativamente a qualquer acção política de grande escala cujos promotores dizem ser tão urgente que não se deve perder tempo a debatê-la é um caso de puro bom senso. Tal como é uma atitude de repúdia quando alguém sugere “gerir” a população humana para valores mais baixos ou alterar os meios de produção industrial ou agrícola para níveis que só são compatíveis com um aumento generalizado da pobreza e de carências várias. No entanto, os tresloucados que apregoam estas enormidades são levados a sério e considerados idealistas, enquanto que quem duvida da necessidade de regredir as nossas sociedades é comparado a um negacionista do Holocausto e/ou tratado como um herege a ser trancado a sete chaves numa masmorra. Este contexto mostra que o debate tem já pouco de científico. É na melhor das hipóteses político; na pior, religioso.

O ponto (1), a constatação de que as temperaturas médias têm subido nas últimas décadas, parece ser inegável. Onde podem surgir dúvidas é na questão da escala e de se o aquecimento continua a acontecer presentemente. Isto acaba por estar ligado ao ponto (2): Se o aquecimento já não está a ocorrer, então a causa não deverá ter sido antropogénica, pois as emissões do gases de efeito de estufa continuam a aumentar. Uma constatação de que ele tinha parado, ou regredido, seria um forte indício de que outra causa haveria (actividade solar, por exemplo). Os relatórios contraditórios, que sugerem que as temperaturas não têm subito desde 1998, são por sua vez negados por outros, que sugerem que 2005 foi mais quente que 1998. O tom quase histérico das críticas a qualquer pesquisa que vá contra o consenso de que o planeta continua a aquecer, no entanto, deveria deixar preocupada qualquer pessoa que preze a ciência, e que deseje encontrar uma verdade fáctica, não uma convenção politico-religiosa. Eventuais dúvidas, infelizmente, apenas serão respondidas pelo tempo; ou seja, na eventualidade do aquecimento das últimas décadas não ser antropogénico, apenas o conseguiremos constatar depois de provavelmente já ter tomado medidas desnecessárias e provavelmente nocivas.

Acresce ainda a questão que não basta constatar o aquecimento. É necessário que este seja sem precedentes na história e que a sua magnitude seja superior à variabilidade normal, por definição, não-antropogénica. É aqui que o recente escândalo ClimateGate entra. Os esforços comprovadamente coordenados por uma dúzia de cientistas no sentido de “eliminar” o período quente medieval constituem uma fraude científica de proporções inéditas. Os alegados factos usados pelo IPCC para concluir que o aquecimento nos últimos 150 anos foi sem precedentes são colocados em cheque pelo que veio a público agora. Os badalados gráficos hockeystick foram, inequivocamente, fabricados à força para persuadir a comunidade científica. Ao contrário do que querem fazer crer aqueles que minimizam a importância do ClimateGate, não é necessário acreditar numa conspiração global para aceitar que os gráficos são falsos. Basta perceber que um grupo restrito de pessoas falsificou dados que servem de base a vários estudos científicos e que a comunidade aceitou os resultados em boa fé.

O que o método científico exige, perante estes factos, é que se rejeite a teoria de que o aquecimento recente é sem precedentes. Mais: Urge reverter a forma como o processo político tem vindo a manchar o processo científico; rever os processos de peer-review; rever a forma como fundos de pesquisa são atribuídos. Se isto não fôr feito, corre-se o risco de manchar irremediavelmente a reputação da ciência, criando um mundo em que os “factos” serão baseados em maiorias sociológicas, ou na capacidade de as formar ou influenciar, em vez de estarem assentes na realidade objectiva.

Leitura complementar: Posts sobre ClimateGate n’O Insurgente.

18 Comentários »

  1. Lyssenko revisitado…

    Comentário por JJ Pereira — Dezembro 18, 2009 @ 12:37

  2. Muito bem.

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 18, 2009 @ 12:51

  3. Caro Miguel,

    O problema está no ponto (2). Não é tanto se a causa é antropogénica, mas antes se os poluentes antropogénicos contribuem de forma definitiva (i.e. cumulativa e não apenas temporária) para esse efeito. É perfeitamente irrelevante se – como se lê e ouve por aí – a contribuição humana é menor que 1% das emissões globais. Antes é relevante qual o efeito desse 1%.

    Ao contrário de si – e já agora, da maioria dos Insurgentes -, e apesar da bronca do “Climagate”, não me parece que tenha existido uma qualquer inversão do que é considerada a teoria mais provável. Considero que os dados que vieram a público são infelizes pelo conteúdo, mas, mais uma vez, não me parece que haja deturpação de qualquer process científico.

    Independentemente disso – e como escrevi noutro post – o risco e eventuais consequências da inacção neste caso são consideravelmente superiores aos riscos e eventuais consequências da acção, pelo que não necessito de 90% de certezas que a mudança climatérica é de origem antropogénica. 10% ou 5% chegam-me perfeitamente.

    Foi-me respondido da última vez que o impacto económico na mitigação da emissão de gases com efeito de estufa (nomeadamente o CO2) representa um desperdício e que as pessoas serão afectadas negativamente, pois é dinheiro “desviado” de outras áreas com eventuais benefícios imediatos. O problema desta análise é que considera que o dinheiro gasto nesse sentido não tem mais nenhum benefício que a eventual redução de CO2, o que não é verdade. Tirando alguns casos específicos, traz normalmente associados aumentos de eficiência energética, aumentos de eficiência produtiva, redução da dependência de fontes energéticas “voláteis” (convém lembrar que a maioria dos depósitos petroquímicos – seja gás ou petróleo – se encontram em locais “quentes”). Só por isso já vale parte do investimento. Se preferir, o CO2 é um “bónus”.

    Concordo perfeitamente que existem excessos de linguagem e uma sobre-alarmização do problema. Mas uma parte significativa da extremização da discussão foi provocada pela injecção de dinheiro por parte de organizações de “lobby” associadas à indútria pesada ou (petro)química. Quando o Petroleum Institute recruta investigadores não para testar a teoria da mudança climatérica, mas antes para rebatê-la, é natural que exista uma reacção da outra parte com vista a evitar dar munições para esse efeito.

    Comentário por Carlos Duarte — Dezembro 18, 2009 @ 13:25

  4. Caro Carlos,

    Obrigado pelo comentário.

    «Não é tanto se a causa é antropogénica, mas antes se os poluentes antropogénicos contribuem de forma definitiva (i.e. cumulativa e não apenas temporária) para esse efeito. É perfeitamente irrelevante se – como se lê e ouve por aí – a contribuição humana é menor que 1% das emissões globais. Antes é relevante qual o efeito desse 1%.»

    O único facto consensual é que o CO2 é um gás de efeito de estufa. A teorização em torno das suas concentrações, acumulações e do efeito marginal da contribuição humana é baseada em modelos computacionais que são incapazes de explicar fenómenos reais do dia a dia como o El Niño. Nesse sentido não existe qualquer base para tomar medidas políticas com base em conjecturas infundadas. Era a aparente correlação entre níveis de CO2 e de temperatura históricos, bem como a observação (alegada) de uma subida sem precendentes de temperatura que indiciavam a validade dos modelos. Os factos são que:
    1) Os hockeysticks foram forjados
    2) A evolução de medições da última década é inconsistente com os modelos
    3) O alegado consenso só foi conseguido por supressão activa de vozes dissonantes
    Perante estes 3 factos, não vejo como aceitar que a teoria permaneça mais provável. Especialmente, não vejo uma única shred of evidence que o custo de inacção seja alto… Isso não é ciência, é bruxedo.

    «Tirando alguns casos específicos, traz normalmente associados aumentos de eficiência energética, aumentos de eficiência produtiva, redução da dependência de fontes energéticas “voláteis” (convém lembrar que a maioria dos depósitos petroquímicos – seja gás ou petróleo – se encontram em locais “quentes”). Só por isso já vale parte do investimento. Se preferir, o CO2 é um “bónus”.»

    Sem provas claríssimas e para lá de qualquer dúvida que a “questão energética” constitui um problema de coordenação que tenha uma estratégia dominante com consequências catastróficas, não vejo qualquer justificação para políticas coercivas que impeçam as pessoas de utilizar os tipos e níveis de energia que mais lhes convierem e estiverem disponíveis no mercado. Mesmo com uma cabal demonstração dessa negativa estratégia dominante, tenho sérias dúvidas da legitimidade dos estados para aplicarem algumas das medidas propostas pelos mais alarmistas.

    O primeiro princípio do bom governo é não fazer centralmente algo que pode ser feito por cada um separadamente, nas condições que mais convêm aos vários agentes. Esta ideia de acções optimizadas coordenadas pelo estado tresanda a economia planificada, com os resultados brilhantes que lhe conhecemos. O caminho da servidão começa (quase) sempre com as melhores intenções. A capa do último Economist, por exemplo, com aquele slogan do “Stopping Climate Change” é de uma presunção e soberba absurdos. Não poderemos parar as alterações climáticas mais do que poderíamos parar o movimento da terra à volta do sol.

    «Mas uma parte significativa da extremização da discussão foi provocada pela injecção de dinheiro por parte de organizações de “lobby” associadas à indútria pesada ou (petro)química.»

    Desculpe lá, mas isto é total bullshit. As posições extremadas são a consequência normal da politização subjacente aos charlatões por trás de todo este movimento. A insinuação de que a indústria não pode patrocinar estudos por ser parcial é igual a dizer que ambientalistas não podem estudar o ambiente por ser à partida, por definição, parciais. Isso é argumentação ad hominem. É a validade dos estudos que deve ser analisada. É analisando os factos que se pode ver se alguém deixa as suas convicções políticas ou religiosas sobrepor-se ao método científico. Parece-me que neste caso concreto, se há alguém com o rabo preso são Mann, Jones et al…

    Comentário por Migas — Dezembro 18, 2009 @ 15:09

  5. Excelente post. Didáctico. :)

    Comentário por filipeabrantes — Dezembro 18, 2009 @ 15:12

  6. A resposta ao Ponto 4 é sim, esta é a melhor maneira de aplicar o dinheiro. O impacto da mudança climática na economia é ordens de grandeza superior ao investimento necessário para o prevenir. E isto sem contar com as concequências intangíveis: extinção de espécies, impacto nos eco-sistemas, etc.

    Em relação às outras 3 perguntas o consenso generalizado dos cientistas é que a respostas também são afirmativas. O clima está a mudar, por culpa humana, e podemos mitigar isto tomando certas medidas. De qualquer modo, mesmo que não existisse um consenso, eu defenderia a tomada de todas estas medidas de qualquer modo. Isto baseado no principio da precaução, que está presente na legislação da união europeia (e eu concordo), e diz que no caso de não se conhecer os impactos de certas medidas ou actividades que possam causar danos permanentes e irreversiveis, deve-se provar que o impacto é nulo ou insignificante e não o contrário. Isto aplica-se por exemplo aos medicamentos, entre muitas outras coisas. Entre elas o ambiente.

    Comentário por Rui Ferreira — Dezembro 18, 2009 @ 16:57

  7. [...] Barreiras Lógicas. Por Miguel Botelho Moniz. O debate sobre o aquecimento global deveria ser simples. Mas não é. A politização da ciência, que continuando assim vai acabar por descredibilizá-la completamente, não o permite. Existem quatro barreiras que os proponentes de medidas draconianas para tentar reverter os (supostos) malefícios do (possível) aquecimento global devem ultrapassar: [...]

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  8. «6.A resposta ao Ponto 4 é sim, esta é a melhor maneira de aplicar o dinheiro. O impacto da mudança climática na economia é ordens de grandeza superior ao investimento necessário para o prevenir. E isto sem contar com as concequências intangíveis: extinção de espécies, impacto nos eco-sistemas, etc.»

    Tem provas para consubstanciar esta posição? Ou é só conversa fiada e voluntarismo?

    «Em relação às outras 3 perguntas o consenso generalizado dos cientistas é que a respostas também são afirmativas. O clima está a mudar, por culpa humana, e podemos mitigar isto tomando certas medidas.»

    Você deve padecer de alguma incapacidade de compreensão escrita. Acha que reafirmar o mantra serve para contra-argumentação ao que aqui está escrito?

    Comentário por Migas — Dezembro 18, 2009 @ 18:08

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