Quando um jornal publica um editorial em que assume que a investigação de factos é secundária perante a força dos números de quem defende uma determinada teoria, isto é jornalismo ou propaganda? Quando um jornalista deixa que a sua opinião pessoal influencie a sua abertura a investigar factos surgidos publicamente, ignorando-os, está a fazer o seu trabalho ou a disseminar propaganda? Quando um jornal dissemina acriticamente a refutação de factos por terceiros, sem analisar os factos em si, está a veicular informação ou a escondê-la?
A crise da imprensa é conhecida. O declínio provavelmente inevitável. Sem boas práticas de jornalismo, o epílogo limitar-se-á a chegar mais depressa.
Algumas notas:
O editorial do i refere [negritos meus]: «[O climategate levou] este batalhão de cientistas a declarar “a maior confiança nas provas de aquecimento global”, a lembrar que o fenómeno se deve “às actividades humanas” e a pedir medidas urgentes na Dinamarca.»
Na verdade, como se pode ver na “declaração”, não existe qualquer menção à Cimeira de Copenhaga, ou à Dinamarca. A “declaração” limita-se a ser uma profissão de fé nas conclusões dos relatórios do IPCC.
Refere ainda: «O efeito de estufa resulta da emissão de dióxido de carbono, mas é curioso verificar como tanta gente responsável ainda duvida desta evidência científica ou da própria existência do efeito de estufa.»
Não é esta a questão. Este argumento falaccioso tenta reduzir ao ridículo a posição céptica. O que está em causa é a magnitude do fenómeno, especialmente face a outros fenómenos não-antropogénicos, e a alegada urgência de agir.
Caro Miguel,
Há de tudo. Mas a corrente “céptica” que tem mais tempo de antena (incluíndo por estas bandas) é a de que não existe nenhuma alteração climática antropogénica (i.e. o clima, SE está a mudar – porque também há os que dizem que não -, está por causas perfeitamente naturais).
O problema, do meu ponto de vista, é muito mais simples: estamos a introduzir poluentes atmosféricos que não seriam introduzidos caso estivessemos quietinhos. Como tal, devemos avaliar o seu efeito para ver se o mesmo se encontra dentro de parâmetros controláveis. Independentemente disso, e como se tratam de poluentes, devemos encontrar formas sustentáveis de os minorar.
O problema, como a Lucy Pepper ilustrou muito bem no seu blog, é que se não existe aquecimento e fazemos alguma coisa, perdemos dinheiro e eventualmente tempo. Se o contrário for verdade, estamos eventulamente feitos ao bife. Prefiro a primeira opção à segunda.
Comentário por Carlos Duarte — Dezembro 15, 2009 @ 17:06
“Se o contrário for verdade, estamos eventulamente feitos ao bife.”
E, no entanto, durante milhares de anos, o ser humano já conseguiu cozinhar bifes bem mais duros!!!
Comentário por BZ — Dezembro 15, 2009 @ 17:14
«O problema, como a Lucy Pepper ilustrou muito bem no seu blog, é que se não existe aquecimento e fazemos alguma coisa, perdemos dinheiro e eventualmente tempo. Se o contrário for verdade, estamos eventulamente feitos ao bife. Prefiro a primeira opção à segunda.»
O problema é que esse “perdemos dinheiro e eventualmente tempo” implica potencialmente milhões de desempregados no mundo desenvolvido e a condenação à pobreza de milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento. O problema é que não há qualquer prova científica nem nenhum consenso que a situação é potencialmente catastrófica ou que esteja à beira da irreversibilidade, ou que a adaptação às alterações seja mais difícil ou dispendiosa.
Comentário por Migas — Dezembro 15, 2009 @ 17:42
Não há solução para esta gente, senão escrever uma carta aberta. Fui o que eu fiz para conselhoeditorial@ionline.pt, joana.mendoca@ionline.pt, teresa.fonseca@ionline.pt, producão@ionline.pt, correio.leitores@ionline.pt, correioleitores@ionline.pt
O editorial de hoje, subscrito por Francisco Camacho, é verdadeiramente lamentável. Os erros factuais são tantos, que não admira que os leitores fujam de jornais que dizem estas barbaridades! De “Bangladeche a Tuvalu”, dos icebergues à composição da atmosfera, Francisco Camacho revela-se uma autêntica nódoa!
Infelizmente, os jornalistas de hoje, pouco mais sabem fazer que copy&paste…
Ecotretas
Comentário por Ecotretas — Dezembro 15, 2009 @ 18:03
“O problema, como a Lucy Pepper ilustrou muito bem no seu blog, é que se não existe aquecimento e fazemos alguma coisa, perdemos dinheiro e eventualmente tempo. Se o contrário for verdade, estamos eventulamente feitos ao bife. Prefiro a primeira opção à segunda.”
Carlos Duarte tem de me dar 20% do seu rendimento ao ano sob pena de o Mundo acabar em 2016. Entre estar feito ao bife em 2016 e me dar 20% o que é que escolhe?
Comentário por lucklucky — Dezembro 15, 2009 @ 18:15
Agora mais sério, o que Carlos Duarte não percebe é que dinheiro que vai para ali não vai para outros lados ou seja tecnologias que iriam salvar vidas não existirão porque se coloca todo o dinheiro numa única aposta. Pessoas já estão a morrer hoje porque se gasta enormes recursos no “Global Warming” .
Comentário por lucklucky — Dezembro 15, 2009 @ 18:18
“(..) tecnologias que iriam salvar vidas não existirão porque se coloca todo o dinheiro numa única aposta. Pessoas já estão a morrer hoje porque se gasta enormes recursos no “Global Warming”.”
Exacto! Leitura complementar: “Copenhagen Consensus”
Comentário por BZ — Dezembro 15, 2009 @ 18:29
Caro lucklucky,
Não pode saber isso, tal como eu não posso saber. A ideia de que se não se gastar dinheiro em “x” este pode ser melhor utilizado em “y” é falacciosa.
Aliás, por essa lógica, uma empresa nunca gastaria um cêntimo em seguros e apostaria sempre no investimento, pois o dinheiro nos seguros é desperdício.
Comentário por Carlos Duarte — Dezembro 15, 2009 @ 19:48
Proquê? Cada empresa saberá melhor que terceiros quais os riscos que deverão ser objecto de um seguro.
O que seria errado era eu obrigar o Carlos a segurar x pelo valor y.
Comentário por Miguel — Dezembro 15, 2009 @ 20:15
“Não pode saber isso, tal como eu não posso saber. A ideia de que se não se gastar dinheiro em “x” este pode ser melhor utilizado em “y” é falacciosa.”
Carlos Duarte
Se tivesse lido um pouco daquilo que BZ aconselhou (http://en.wikipedia.org/wiki/Copenhagen_Consensus), saberia mais do aquilo que obviamente sabe.
Por exemplo, a comparação do custo de tratar agora doentes de malária, com o que se propõem gastar para contrariar o tal suposto aquecimento global que supostamente vai aumentar no futuro a tal incidência de malária.
Algumas das supostas consequências catastróficas do aquecimento global são ridículas, e mesmo que se venham a verificar, é obviamente mais barato preveni-las.
Então a treta do aumento do nível do mar é patética.
Tuvalu por exemplo tem 12000 habitantes.
Se se afundar qual é o problema?
Mas se eles não se quiserem mudar, então comecem a construir diques.
Os Holandeses foram obrigados a fazer isso e ao que julgo saber nem precisam de aumentar a altura dos mesmos.
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Comentário por Mentat — Dezembro 15, 2009 @ 22:17
O i está a ir pelo mesmo caminho do “novo” Público, mais um para a gaveta… No problem, há sempre os blogues!
Comentário por Ricardo Sebastião — Dezembro 16, 2009 @ 11:15