O Presidente americano Barack Obama anunciou ontem um reforço de tropas do seu país no Afeganistão. Nos próximos seis meses, 30 000 novos soldados serão enviados para o Afeganistão, num reforço da estratégia de “counter-insurgency” na região. Obama anunciou também que, a partir de Julho de 2011, os EUA iniciarão o processo de retirada de todas as suas tropas actualmente em missão em território afegão.
É necessário compreender como esta era um decisão difícil para Obama. Dadas as “complicações” (para ser simpático) que os EUA e a NATO enfrentam no Afeganistão, não aumentar o número de tropas equivaleria a aceitar a inevitável derrota que se começava a adivinhar. Derrota essa que, por sua vez, significaria a perda da (pouca) credibilidade americana como potência capaz de impôr a ordem no mundo (numa altura em que é preciso que alguém imponha essa ordem). Por outro lado, ao aumentar o número de tropas, Obama compromete-se directamente com o esforço de guerra no Afeganistão, até aqui meramente um conflito que ele tinha “herdado” de George W. Bush. O Presidente da “paz”, do “diálogo”, o “anti-Bush”, torna-se assim, da noite para o dia, num “war president” como o seu antecessor.
Consciente do dilema, Obama tomou a pior decisão possível. O General McChrystal, o comandante americano no Afeganistão, pedira ao Presidente 40 000 tropas, o número que ele considerava necessário para que o país pudesse ser controlado. Ao enviar um número inferior àquele que os responsáveis militares no terreno entendiam ser o mínimo necessário para os objectivos serem atingidos, Obama compromete-se com uma estratégia que corre grandes riscos de fracassar.
Risco esse que é apenas e só agravado com o anúncio de retirada para 2011. Em 2006, quando se discutia se George W. Bush deveria ou não retirar do Iraque, Paddy Ashdown, ex-líder dos Liberal Democrats britânicos, antigo Alto-Representante da ONU para a Bósnia-Herzegovina, e crítico da intervenção americana no Iraque, dizia que o anúncio de uma retirada imediata provocaria um aumento da violência, direccionada contra as tropas, num momento em que estas estão mais vulneráveis (segundo Ashdown que tem alguma experiência nestas questões, o momento da retirada é, pela própria natureza da operação, o momento em que estas estão mais vulneráveis a ataques, e em que estes podem causar mais baixas). Para além de que, sabendo a partir de quando as tropas americanas vão retirar, os Taliban apenas precisam de ficar quietos, em paz e sossego, sabendo que, mal elas saiam, terão um país inteiro à sua disposição, sem ninguém que lhes faça frente.
Mas não só a decisão de Obama foi a pior possível, como o processo que conduziu a ela (semanas e semanas de adiamento da decisão, que impediam o principal aliado dos EUA, o Reino Unido, de sequer preparar a sua própria decisão quanto ao futuro das suas tropas no Afeganistão) mostra como toda a enjoativa propaganda da campanha eleitoral de Obama não passava de banha da cobra para ser vendida aos ingénuos. O Presidente do “multilateralismo”, na sua relação com o principal aliado dos EUA, comportou-se da forma mais “unilateralista possível, como um recente número da Spectator mostrava. Bush era acusado de arrogância por não dialogar com o “Eixo do Mal”; Obama nem sequer dialoga com o Governo do país com mais soldados a morrer ao lado dos soldados americanos. E por não ter tido a coragem de enviar as tropas que, segundo os comandantes militares que ele próprio escolheu, Obama arrisca-se a que morram muitos mais.
Eu acho que Obama mostrou-se muito razoavelmente realista.
Quanto a esse “pesadelo” dos “Taliban” voltarem a KABUL é muito, mas muito menos “perigoso”, do que quando os Vietcongs entraram em Saigão.
Comentário por CN — Dezembro 2, 2009 @ 22:19
“Ao enviar um número inferior àquele que os responsáveis militares no terreno entendiam ser o mínimo necessário para os objectivos serem atingidos, Obama compromete-se com uma estratégia que corre grandes riscos de fracassar.”
E nem sequer vai poder dizer que correspondeu aos pedidos dos militares mas a estratégia militar falhou…
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 2, 2009 @ 22:58
O carlos Novais tem razão numa coisa: o que falta aos Taliban é kabul, não o resto do país. Se é ou não menos perigoso, não sei…
Comentário por Bruno Alves — Dezembro 3, 2009 @ 00:19
“Quanto a esse “pesadelo” dos “Taliban” voltarem a KABUL é muito, mas muito menos “perigoso”, do que quando os Vietcongs entraram em Saigão.”
Não haja dúvida.
Os Vietnamitas tinham que fugir em barcos dando origem aos “boat people”, e por vezes morriam afogados antes de alcançar a liberdade.
Como o Afeganistão não tem saída para o mar, basta que ponham umas burkas e fica tudo bem…
Nada impede nem prova que um “realista” não seja um parvo e é isso que Obama parece ser.
Cabe na cabeça de alguém com um mínimo de senso, arriscar a vida de soldados, dizendo ao inimigo a data da retirada?
.
Comentário por Mentat — Dezembro 3, 2009 @ 00:56
Não sou fã do senhor Obama mas para ser justo, o que a estratégia dele espera é que este aumento contribua de forma decisiva para pôr os Talibans à defesa enquanto se preparam as forças internas do Governo Afegão para assumir a responsabilidade até ’11. Sobre se isso é realista ou não, não sei…
E sobre não seguir à risca o conselho do seus generais, isso parece-me sensato uma vez que está bem documentado que se isso tivesse sido sempre feito no passado pelos presidentes dos EUA, o mundo seria hoje um grande jardim radioactivo.
Um vídeo curioso de comparação entre o Afeganistão e Vietnam: http://www.youtube.com/watch?v=4bXP7qbsqNw
Comentário por António Baptista — Dezembro 3, 2009 @ 01:20
“Não sou fã do senhor Obama mas para ser justo, o que a estratégia dele espera é que este aumento contribua de forma decisiva para pôr os Talibans à defesa enquanto se preparam as forças internas do Governo Afegão para assumir a responsabilidade até ‘11. Sobre se isso é realista ou não, não sei…”
António Baptista
Não é realista, porque a história diz-nos que nenhum Império alguma vez conseguiu conquistar o Afeganistão.
Aliás nem os americanos no tempo de Bush tiveram essa intenção.
Eles tinham de se vingar do 11/9, e fizeram-no, mas com o auxilio dos diversos senhores da guerra afegãos.
Mas só conseguiram verdadeiramente infligir uma derrota que se visse na Al-Qaeda, quando a aliciaram para o Iraque.
Foi aí que liquidaram a maior parte dos terroristas, porque aí estavam num campo de batalha para onde estavam mais treinados.
Na minha opinião no Afeganistão, dava mais resultado ameaçar os lordes afegãos com uma retirada imediata, do que continuar a fazer o trabalho deles.
Assim enquanto os americanos e a Nato fizerem o que era obrigação dos afegãos fazerem, estes vão-se dedicando aos seus negócios.
Eu não sou especialista, mas a pouca história que conheço, diz-me que só vencemos o inimigo quando somos nós a escolher o campo de batalha.
O Afeganistão só precisa de drones que liquidem terroristas, o resto é trabalho para quem lá quer morar.
.
Comentário por Mentat — Dezembro 3, 2009 @ 02:17
“Não sou fã do senhor Obama mas para ser justo, o que a estratégia dele espera é que este aumento contribua de forma decisiva para pôr os Talibans à defesa enquanto se preparam as forças internas do Governo Afegão para assumir a responsabilidade até ‘11. Sobre se isso é realista ou não, não sei…”
Não percebo, essa sempre foi a estratégia, exceptuando a parte inicial quando o objectivo era apenas combate. Por isso é que Karzai foi eleito há anos atrás, sendo que esta última já foi a segunda eleição. Por isso não mudou nada.
O problema não é especialmente os Talibans em Kabul são os Talibans em Islamabad e evidentemente campos de treino.
mentat história diz-nos que as coisas mudam mas concordo que a melhor opção é não investir muito. É preciso no entanto ter capacidade de intervenção global com drones 24 horas por dia sobre qualquer território onde esteja a Al-Qaeda e aliados…
Comentário por lucklucky — Dezembro 3, 2009 @ 08:27
Mentat,isto resume-se a pouco
Operações especiais e vigilância (provavelmente tinham apanhado Bin Laden, e poupado mais uma ocupação pantanosa.)
Com isto os EUA tinham mantido uma posição moral e simpatia generalizada. Assim, fomentam as forças que sempre rejeitam ocupações, unindo o terrorismo ideológico com o territorial. Ma os Taliban não AlQaeda, e nem sequer se pode dizer que os afegãos que possam estar a combater de alguma forma a ocupação sejam todos Taliban.
E a desestabilização do Pak é também uma consequência.
Comentário por CN — Dezembro 3, 2009 @ 08:29
É curioso como num espaço de 8 anos, a narrativa sobre o Afeganistão mudou radicalmente.
Se antes a imprensa considerava o conflito no Afeganistão como “sendo a guerra justa” e que Iraque “foi uma distracção”, “desviando recursos para um conflito desnecessário”, esta mudança de narrativa é bastante estranha.
Tal como muitos dizem que com razão, os Talibãs não são a Al-Qaeda, MAS, os Talibãs, bem como o regime Saddam deram abrigo, financiaram e facilitaram os movimentos da organização terrorista da Al-Qaeda e grupos associados.
Se se deve retirar do Afeganistão? Sim, mas só quando as tropas vencerem os Talibãs de vez e conseguirem garantir a estabilidade do Afeganistão, porque se o país volta a cair nas mãos dum regime terrorista, a guerra contra o terrorismo fica ainda mais complicada.
Agora o que também me espanta é Obama estar a adiar uma decisão tão crucial por semanas sem que a comunicação social ache isso estranho(teve tempo para golfe e festas, lá isso teve), a mesma CSM(comunicação social mainstream) que lhe deu a “primeira vitória militar” contra piratas da Somália que mesmo assim demorou 5 míseros dias para decidir se os SEALs deviam ou não intervir.
Comentário por CC — Dezembro 3, 2009 @ 10:19
“Operações especiais e vigilância (provavelmente tinham apanhado Bin Laden, e poupado mais uma ocupação pantanosa.)”
CN
Você sabe bem que isso não era possível na altura.
O 11 de Setembro, não podia ser vingado apenas com umas operações especiais, que por definição são sempre sigilosas.
O Povo americano exigiria sempre uma actuação o mais estridente possível.
Bush até foi criticado por não invadir o Afeganistão no dia seguinte, quando levou menos de um mês a fazê-lo.
Por outro lado, é bem sabido que na altura, os serviços de informação e espionagem americana eram bem incompetentes.
No assunto do Kosovo (ou da Bósnia), onde se limitavam a bombardear do ar, até se enganaram e acertaram na embaixada chinesa em Belgrado.
Além disso os EUA nunca ocuparam formalmente o Afeganistão.
Limitaram-se a dar apoio logístico a diversas forças afegãs que queriam destituir os talibãs.
.
Comentário por Mentat — Dezembro 3, 2009 @ 11:41
“Com isto os EUA tinham mantido uma posição moral e simpatia generalizada.”
CN~
Explique lá isso da posição moral.
Então uns assassinatos durante a noite são moralmente mais defensáveis do que a ajuda à destituição de regimes nojentos como os que vigoravam no Afeganistão ou no Iraque?
Eu por mim, também acho que duas ou três Nukes sobre a zona onde devia estar o Bin Laden e o Omar, e a extinção do Hussein e do Kadafi em operações secretas, tinham sido uma solução mais eficaz, mas não tenho a lata de dizer que sejam posições moralmente defensáveis.
.
Comentário por Mentat — Dezembro 3, 2009 @ 11:51
“…que mesmo assim demorou 5 míseros dias para decidir se os SEALs deviam ou não intervir.”
Resta saber se os SEAL para a próxima quererão intervir.
Podem ter o azar de “magoarem” algum dos piratas e serem levados a tribunal militar, por causa disso.
.
Comentário por Mentat — Dezembro 3, 2009 @ 11:55
“Sim, mas só quando as tropas vencerem os Talibãs de vez e conseguirem garantir a estabilidade do Afeganistão, porque se o país volta a cair nas mãos dum regime terrorista, a guerra contra o terrorismo fica ainda mais complicada.”
Caro CC
Não tenha ilusões.
Um exército regular Ocidental nunca vencerá definitivamente os talibãs.
Os talibãs só serão derrotados, quando os seus conterrâneos afegãos (ou paquistaneses) o fizerem.
E estes só o farão, quando souberem, que ou o fazem, ou o Ocidente os põe a “pão e água”.
.
Comentário por Mentat — Dezembro 3, 2009 @ 12:05
A prudência do Presidente Obama mais uma vez se resume à ingenuidade. Em primeiro lugar, não atendeu ao pedido de McChrystal perferindo evitar manchas maiores na sua popularidade. Em segundo, a sua prudência é tão prudente que chega ao ponto de pensar que esta será uma guerra fácil e anuncia ao inimigo a retirada das suas tropas ainda antes sequer de serem enviadas. Obama esqueceu-se ainda de anunciar uma estratégia para o Paquistão, passando-lhe ao lado que qualquer solução para o problema do Afeganistão passa não só pela estabilização das lealdades do governo e da população desse país, bem como pelo combate ao extremismo dentro da sociedade paquistanesa.
A prudência do Presidente Obama mais uma vez se pode resumir à ingenuidade. Em primeiro lugar, não atendeu ao pedido de McChrystal perferindo evitar manchas maiores na sua popularidade. Em segundo, a sua prudência é tão prudente que chega ao ponto de pensar que esta será uma guerra rápida, anunciando ao inimigo a retirada das suas tropas antes sequer de serem enviadas, curiosamente prevista para vésperas da sua possível reeleição. Lamentável é igualmente, que Obama se tenha esquecido de anunciar uma estratégia para o Paquistão, passando-lhe ao lado que qualquer solução para o problema do Afeganistão passa não só pela estabilização das lealdades do governo e da população desse país, bem como pelo combate ao extremismo dentro da sociedade paquistanesa.
Interessante de relembrar é também que, tendo sido um dos críticos mais ferozes da «surge» em 2006, Obama apresenta agora a sua própria «surge» para o Afeganistão, num momento onde ainda ninguém tem a certeza se a retirada das forças do Iraque surte resultados. Não temos conhecimento ainda se na sua estratégia está previsto o envio de empresas militares e civil fundamentais na prestação de apoio à reconstrução e na assistência à população num país devastado por anos e anos de guerra.
É difícil derrotar a al-Qaeda em qualquer parte ou país onde ela se infiltre. Contudo, Obama poderá ter um facto passado em consideração – a mudança de lealdades da comunidade sunita no Iraque como consequência da actuação interesseira e infame deste grupo dificilmente confiável e fortemente ameaçador poderá ser mais um ponto de partida para o possível sucesso da missão.
Comentário por Maria Dá Mesquita — Dezembro 4, 2009 @ 11:16
[...] complementar: Obama e o Afeganistão. Deixe um [...]
Pingback por Obama: War is peace « O Insurgente — Dezembro 10, 2009 @ 18:32
[...] complementar: Obama e o Afeganistão. Deixe um [...]
Pingback por Obama: War is peace (2) « O Insurgente — Dezembro 10, 2009 @ 20:57