Dezembro 31, 2009
Há despedidos e despedidos
Deixa lá Luciano, fica a consolação de o Diário de Notícias, mesmo com os generosos empurrõezinhos que vai recebendo nessa área, ser hoje cada vez mais um recordista de vendas.
O video do ano
O caso Manuela Moura Guedes: com difusão exclusivamente via blogosfera e viral ultrapassou as 200000 visualizações em poucos dias (está agora em cerca de 300000) e marca 2009 como o caso mais bem sucedido – por larga margem – deste tipo de intervenção política até agora em Portugal.
Previsões para 2010
Algumas previsões para 2010. Por João Miranda.
Sócrates voltará a declarar o fim da crise, ou o princípio do fim da crise, ou a inversão da terceira derivada da crise.
(…)
Portugal sofrerá uma campanha negra por parte das agências de rating.
Os keynesianos portugueses vão defender despesa pública contra a crise até ao colapso total da credibilidade internacional do Estado português. No dia seguinte passarão a defender medidas de austeridade com a mesma convicção com que defenderam o despesismo.
José Sócrates começará a procurar emprego lá fora. Dificuldades com a língua inglesa dificultam-lhe a tarefa.
(…)
Os abrantes de serviço começarão a procurar exemplos internacionais no Norte de África para provar que a situação portuguesa está longe de ser a pior do mundo. É apenas a 15ª pior do mundo.
(…)
Sócrates lançará novos projectos, que terão o mesmo sucesso que o Via CTT, o parque de Ondas da Aguçadoura, o Aeroporto de Beja e a fábrica de pilhas combustível de Montemor-o-Velho.
(…)
Novo candidato a ditador de país sul-americano fará as delícias da esquerda portuguesa.
Prós e Contras dedicado aos problemas do país diagnosticará crise de valores, exigirá mudança de paradigma e culminará com uma mostra do bom que se faz em Portugal. Erro da produção, que mete no ar programa com 4 anos, só será detectado por Eduardo Cintra Torres.
Ou na playstation ou no Benfica
Uma frase para recordar:
«É por isso que são sempre os mesmos os campeões. Quando aparecem equipas melhores, não há hipótese. A equipa de arbitragem não deixa. Como resolvo isto? Só resolvo na playstation!»
- Jorge Jesus, ainda treinador do Sp. Braga, após derrota com o Benfica, 12/1
Oremos
Certos economistas e certos políticos gostam de Keynes porque Keynes inventou uns truques económicos com resultados políticos. Não propriamente pela sofisticação da teoria. No essencial, a sua proposta corresponde à generalização ao nível da economia da seguinte ideia de senso comum, que todos vamos praticando nas nossas vidas: se estás em dificuldades e não queres (ou não podes) poupar, endivida-te ou fabrica dinheiro. Claro que não podemos fazer a segunda, mas o Estado pode. Depois, trata-se de rezar para que as coisas melhorem. A parte da reza não vem em Keynes, evidentemente, mas está lá implícita. É esta sofisticação que se tem visto também por aí. Basta ler os artigos do Nobel Krugman, cuja única coisa que fazem é, semana a semana, repetir: é precisa mais despesa pública, é precisa mais moeda.
(…)Eu cá preferia outra coisa e duvido seriamente da bondade disto tudo. Mas para nosso bem esperemos que esteja certo, já que foi nesse barco que embarcámos. Esperemos que esteja pelo menos mais certo do que o próprio inspirador original (…) quando, em 1931, previu um futuro radioso depois do abandono do padrão-ouro pela Grã-Bretanha. Na verdade, essa terá sido uma das mais importantes medidas a desencadear a catástrofe seguinte: crise dos anos 30 e, talvez em consequência da crise, a II Guerra Mundial.
A UE e a “islamização da Europa”
Uma análise lúcida e pertinente, numa perspectiva de esquerda, de André Freire: O retorno da religião à arena política (II).
Resumo do ano político português
A realidade é uma campanha negra.
(comentário do João Miranda ao post Alerta: professor de economia ignora o impacto do subsídio de desemprego no rendimento de uma família)
Change
David Boaz no Cato@Liberty
Speaking of Iraq in February 2008, candidate Barack Obama said, “I opposed this war in 2002. I will bring this war to an end in 2009. It is time to bring our troops home.” The following month, under fire from Hillary Clinton, he reiterated, ”I was opposed to this war in 2002….I have been against it in 2002, 2003, 2004, 5, 6, 7, 8 and I will bring this war to an end in 2009. So don’t be confused.”
Indeed, in his famous “the moment when the rise of the oceans began to slow” speech on the night he clinched the Democratic nomination, he also proclaimed, “I am absolutely certain that generations from now we will be able to look back and tell our children that . . . this was the moment when we ended a war.”
Now he has doubled down on the war in Afghanistan and has promised to keep the war in Iraq going for another 19 months, after which we will have 50,000 American troops in Iraq for as far as the eye can see. If McCain had proposed this sort of minor tweaking of the Bush policy, I think we’d see antiwar rallies in 300 cities. Calling the antiwar movement!
Religião e política
O retorno da religião à arena política (I). Por André Freire.
Por um lado, apesar da secularização e da individualização, a religião continua a ser em muitos países um significativo preditor do voto. Por outro lado, a crescente saliência dada a certos “novos temas” (liberalização do aborto, casamento homossexual, células estaminais, eutanásia, etc.) veio não só despoletar o regresso das mundivisões religiosas para o centro da competição política, mas também reactivar o peso das identidades religiosas no voto. Isso foi já visível em Portugal nas eleições de 2005, em torno da questão do aborto, e poderá ter sido também em 2009, em redor do casamento homossexual. Algo de semelhante tem ocorrido também em Espanha, pelo menos desde o consulado de Aznar.
Sem surpresa
Venda de jornais continua em queda
A imprensa portuguesa continuou a ser fortemente afectada por quebras nas vendas em 2009. Segundo os dados hoje divulgados no boletim da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT) , entre Janeiro e Outubro de 2009 registaram-se descidas, tanto da circulação paga como da circulação total, de todos os jornais nacionais de informação geral, em comparação com igual período de 2008.
Dados das vendas “em banca” da imprensa diária “de referência”, de Janeiro a Outubro de 2009, segundo a APCT:
Público: 30 557 jornais por dia.
Diário de Notícias: 28 582 jornais por dia (22 794 jornais por dia em Outubro).
i: 8581 jornais por dia.
No âmbito das já habituais tentativas de spin quando se trata de noticiar quedas nas próprias vendas, o Público merece a melhor nota pelo esforço: “PÚBLICO mantém terceiro lugar entre os diários mais vendidos”
Leitura complementar: Jornais que não têm futuro.
Coligação negativa de perigosos radicais corajosamente denunciada por abrantes
Acho um pouco exagerado que se pretenda ver aqui um sinal do fim da cooperação estratégica entre os “radicais de direita” e os “radicais de esquerda”.
Uma leitura mais atenta por parte dos abrantes permitiria facilmente constatar que continua a existir uma convergência de fundo entre os perigosos “radicais”. Para um observador atento, é fácil constatar que continua inabalável a inconfessável coligação negativa motivada pelo objectivo puramente destrutivo de expulsar do poder o valoroso executivo socialista (e assim impedir Portugal de continuar a avançar ao espantoso ritmo dos últimos anos).
Compreendo que a continuação dessa vil coligação negativa preocupe quem defende – sempre desinteressadamente e de forma independente – o interesse nacional (desde os fiéis jugulares ao igualmente fiel ensaísta Eduardo Pitta, sem nunca esquecer – claro – o inimitável marketeer João Pinto e Castro), mas espero que nenhum abrantes se mortifique por causa disso.
Leitura complementar: O fim anunciado do programa “Clube de Jornalistas”; Escumalha.
Dezembro 30, 2009
Alerta: professor de economia ignora o impacto do subsídio de desemprego no rendimento de uma família
Se, como escrevi aqui, numa família de 4 pessoas, com um rendimento anual de 30 mil euros, um deles for despedido, o facto de o rendimento anual passar a ser de 25 mil euros, isso não significa que o cônjuge despedido auferia 5 mil euros anuais. O Carlos Santos, na ânsia de encontrar falhas no que escrevo, desenvolve inúmeras considerações genéricas, patéticas, que caem por terra por um erro metodológico típico de quem ignora a realidade: se o Carlos Santos soubesse alguma coisa de Economia – e do que acontece diariamente no nosso país – não ignoraria que, em Portugal, perante um despedimento colectivo, e num caso como o que eu apresentei, a mulher tem direito a subsídio de desemprego (correspondente a 65% do salário de referência, com o tecto máximo de aprox. 1250 euros).
Já agora esclareço os líricos como o Carlos Santos e os que lhe fazem coro na caixa de comentários que o exemplo que eu dei é real, e que – ironia das ironias – no caso em concreto a mulher ganhava um pouco mais (a diferença era mínima) do que o seu marido. Aprendam a fazer contas, seus nabos, e acordem para a realidade, em vez de andarem a escrever disparates deste calibre.
Super keynesianismo
Melhor do que um TGV para afundar as finanças públicas, só mesmo… um Super TGV: Governo britânico prepara construção do Super TGV
Papel há muito seus palermas
Mil milhões aqui, mil milhões ali e não tarda nada estamos a falar de dinheiro a sério. A administração de Obama deu hoje mais 3800 milhões de dólares a uma empresa “privada”.
GMAC, which was formerly owned by General Motors , had already received $12.5 billion of aid from the U.S. government since December 2008. The latest cash infusion will bring total taxpayer aid to $16.3 billion.
The money will help shore up the auto loan and mortgage company as it wrestles with the worst housing market in decades.
Parece que esta recessão é das Keynesianas…
Respeitinho
Um final previsível: Noronha do Nascimento critica juiz de Aveiro por ter valorado escutas de Sócrates
O presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), Noronha do Nascimento, criticou o juiz de instrução de Aveiro, que terá extrapolado as suas funções ao considerar haver indícios do crime de atentado ao Estado de Direito nas escutas entre Armando Vara e José Sócrates, extraídas do processo Face Oculta.
Supremo diz que erro de juiz de Aveiro anulou escutas a Sócrates
O procurador-geral da República, Pinto Monteiro, já tinha dito que as escuta envolvendo José Sócrates não continham “indícios probatórios que determinem a instauração de procedimento criminal contra o primeiro-ministro, designadamente pela prática do crime de atentado contra o Estado de Direito”.
Noronha do Nascimento salienta que, “quando o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República ou o primeiro-ministro ‘intervenham’, acidentalmente e como terceiros, em comunicações interceptadas, o OPC [órgão de polícia criminal] responsável operacionalmente pelo acompanhamento da intercepção deve comunicar o facto imediatamente ao Ministério Público, que por seu turno deve transmitir ao presidente do STJ, por intermédio do juiz do processo, o auto de intercepção, bem como os respectivos suportes físicos (…)”, funcionando o presidente do STJ nesses casos como juiz de instrução.
No processo Face Oculta, que investiga alegados casos de corrupção e outros crimes económicos relacionados com empresas do sector empresarial do Estado e empresas privadas, foram constituídos 18 arguidos, incluindo Armando Vara, vice-presidente do BCP que suspendeu funções, José Penedos, presidente da REN-Redes Eléctricas Nacionais, cujas funções foram suspensas pelo tribunal, e o seu filho Paulo Penedos, advogado da empresa SCI-Sociedade Comercial e Industrial de Metalomecânica SA, de Manuel Godinho, que está em prisão preventiva.
O primeiro-ministro foi interceptado em 11 escutas dirigidas a Armando Vara neste processo.
A Ciência não pára
Talvez fosse no entanto prudente pelo menos aconselhar cautela na realização de testes empíricos: Infidelidade masculina ajuda a salvar casamento
A infidelidade masculina pode ajudar a salvar o casamento. Esta é pelo menos, a opinião de Maryse Vaillant, uma das mais conhecidas psicólogas francesas, que lançou recentemente um livro a defender esta teoria.
(…)
Segundo a autora, as mulheres podem ter uma experiência “libertadora” ao aceitarem que “os pactos de fidelidade não são naturais, mas culturais” e que a infidelidade é “essencial para o funcionamento psíquico” de muitos homens que, por isso, não deixam de amar as suas mulheres.
Sobre o casamento de Keynes
Esta entrevista do casamento Keynes - Hayek que o André aqui colocou é deveras interessante. Um bom casamento seria juntar as politicas de Keynes para quando as coisas correm bem (reduzir o peso do Estado e apontar para superavits) com as teorias Austríacas para quando as coisas correm mal (deixar o mercado ajustar-se sem intervenções) mas como seria de esperar não é bem isto que é defendido.
O autor citado critica principalmente os keynesianos que advogam constantemente as politicas intervencionistas e de baixas taxas de juro para quando aparece qualquer recessão. Afirma, correctamente, que o próprio Keynes defendia este tipo de medidas apenas para situações agudas como a Grande Depressão de 29 ao contrário dos seus sucessores ideológicos. Nas “recessões normais” é advogada uma posição mais austríaca de não-intervenção e de deixar o mercado corrigir os desfasamentos criados na fase de boom. Afirma, e muito bem a meu ver, que se não se fizer isto entramos num ciclo em que eventualmente os desfasamentos são tão grandes que as políticas de Keynes não terão qualquer efeito.
(mais…)
Tudo “mais ou menos” como previsto
Sem menosprezar os reais riscos de pandemia que podem existir, seria muito interessante analisar de forma mais aprofundada as sucessivas ondas político-mediáticas de riscos pandémicos, assim como os variados interesses económicos que lhes estão associados. Entretanto, também em termos de rent-seeking as coisas devem estar a correr “dentro daquilo que estava mais ou menos previsto”: «Pico da Gripe A já passou», diz Ministra da Saúde
«Temos, de facto, uma baixa actividade gripal», começou por explicar à «TSF», acrescentando, porém, que os cuidados e a atenção devem manter-se: «Existem algumas situações ainda graves internadas. Temos que manter, de acordo com aquilo que disse a OMS, que é preciso manter ainda alguns cuidados. É necessário que não se minimize tudo aquilo que foram as orientações que têm vindo a ser dadas e obviamente que vamos continuar a fazer a vacinação dentro daquilo que estava mais ou menos previsto».
Gripe A: ministra lembra grávidas que vírus «é grave»
A ministra da Saúde manifestou-se esta quarta-feira «insatisfeita» com a adesão das grávidas à vacina da gripe A H1N1 e voltou a apelar a estas mulheres para se vacinarem, recordando que o vírus continua activo e «é grave», refere a Lusa.
Leitura complementar: A Pandemrix: uma questão de saúde ou de “cidadania”?; Vacina Pandemrix contra a gripe A interdita a crianças e grávidas na Suíça; Vacina Pandemrix desaconselhada a grávidas e crianças na Alemanha; A vacina contra a gripe A e as crianças e as grávidas; A vacina contra a gripe A e as crianças e as grávidas (2).
Os efeitos negativos do projecto Magalhães
Outro instrumento do centralismo – o Magalhães. Por LR.
Faça-se a extrapolação deste caso a nível nacional e imaginem-se os negócios destruídos, o desemprego criado pelo Magalhães e a irracionalidade pedagógica de viciar prematuramente crianças em joguinhos imbecis. Entretanto, a facturação da J. P. Sá Couto , para onde se transferiram os negócios de centenas ou milhares de PMEs, subiu em 2008 mais de 1.000%. Esta empresa não disponibiliza as contas no seu site, mas se considerarmos que o grosso das suas vendas decorrem do projecto Magalhães, isto significa, na prática, que a maior parte da sua produção é subsidiada. Ou seja, o valor acrescentado que a empresa gera (o seu contributo para o PIB) é seguramente negativo. Se a isto somarmos os empregos destruídos, o panorama é ainda mais negro.
A independência é uma forma de vida
Este texto de Pacheco Pereira é importante. São poucos os que estão, ou querem estar, na política e não dependem do estado, não têm qualquer ligação a qualquer interesse económico e, cuja vontade para fazer política deriva, única e exclusivamente, do gosto pela política. Por ser útil. São poucos, mas basta estarmos atentos. Apenas são financeira e psicologicamente independentes, os que trabalham nesse sentido desde cedo.
Pacheco Pereira refere-se tão só ao PSD, mas não é só aí que a independência é necessária. A procura deve abranger todas as áreas, deve ser feita por todos os intervenientes. Da comunicação social às empresas, das empresas às universidades, das universidades aos partidos e daí por diante. E quem procura deve ter em consideração que a disponibilidade pode não ser imediata. Ser independente e entrar na rixa não é para todos.
Keynesianismo e síntese neoclássica; Keynes e Escola Austríaca
Um artigo muito interessante de Jorge Nascimento Rodrigues publicado no Expresso: Uma nova proposta de casamento para Keynes – um desafio teórico
Depois de o Keynesianismo ter sido submerso na síntese dos modelos de equilíbrio geral que a Grande Recessão mandou para o caixote do lixo, William White, da OCDE, propõe a aproximação aos pontos fortes da corrente de pensamento económico designada por escola austríaca que condena os excessos na gestão das finanças públicas por parte dos governos e na política monetária por parte dos bancos centrais ou governos.
(…)
William White, presidente do Comité de Economia e Desenvolvimento da OCDE e ex-economista-chefe do Banco de Pagamentos Internacionais, fala – numa entrevista (que pode ser lida em inglês aqui) que nos concedeu – de regressar ao Keynes original e de procurar “pontes” com os pontos fortes de uma outra velha corrente com que o mestre de Cambridge esgrimiu argumentos durante os anos 1930 e 1940, a chamada “escola austríaca”.
Nessa corrente foram proeminentes, no século XX, economistas de origem austríaca como o Nobel Friedrich von Hayek (1899-1992) e Ludwig von Mises (1881-1973), mas também o americano Murray Rothbard (1926-1995), que tem um livro reeditado pelo Mises Institute sobre a Grande Depressão americana (America’s Great Depression) que contrasta, por exemplo, com a visão keynesiana de John Kenneth Galbraith sobre as causas de 1929 (Crash 1929, traduzido em Portugal pela Gestão Plus).
Em vez das “pontes” entre o keynesianismo e as metodologias de modelação dos neoclássicos, em que se investiu no passado, White insiste que é preciso “uma mudança de paradigma” em que podem desaguar as ideias originais de Keynes e alguns pontos de vista nucleares dos “austríacos”.
Sabemos que a situação está má…
… quando até Mário Soares se preocupa com o défice.
“o antigo chefe de Governo e Presidente da República escreve que ‘é óbvio que Portugal está em crise’, traduzida num ‘défice assustador’ e num ‘endividamento muito grande’.
Avatar
Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico
Ao nível ideológico, Avatar é um manifesto revolucionário, uma apologia do terrorismo e uma distorção grotesca da história política da década. O elemento central do argumento é a destruição da árvore dos Omaticaya, uma desavergonhada inversão ficcional do ataque terrorista às Twin Towers de Nova Iorque. Em Avatar o terrorismo suicida é representado como “justo” e reactivo. Uma das personagens tem esta frase clarificadora: “ainda tinha esperanças que isto não exigisse o martírio”. A narrativa de Cameron é mais uma variante da “doutrina de Hollywood”: reencena a colonização americana do oeste e o massacre dos índios apenas como forma de colocar o adversário político interno como o agressor de outros mundos, sempre em paz e harmonia, sejam eles Pandora ou o “Islão”.
Depois há o discurso filosófico subjacente ao filme, um misticismo panteísta, herdeiro do vitalismo da Naturphilosophie. No mundo harmonioso de Eywa não há contradições à espera de uma resolução, não há história nem sentido do tempo -os Na’vi têm uma noção mitológica do seu passado. A oposição entre Apolo e Dionísio foi resolvida numa síntese pós-sexual, onde a natureza de Pandora assumiu a qualidade erótica. O que Cameron não diz, por cinismo ou ignorância, é que o panteísmo dos Na’vi é muito semelhante ao dos Arianos, na substituição do transcendentalismo cristão por uma deturpação teleológica do darwinismo. Sei como os Arianos procuraram satisfazer o seu desejo de “harmonia”; o que não sei é se as multidões que proporcionam recordes de receita ao filme são basbaques pueris ou a matéria-prima com que se fabricam as grandes catástrofes da história.
Livros do ano
Nota: lidos durante este ano mas não necessariamente publicados em 2009
The Coldest Winter de David Halberstam
Rites of Peace: The Fall of Napoleon and the Congress of Vienna de Adam Zamoyski
The Rebellion of Ronald Reagan: A History of the End of the Cold War de James Mann
The Austrian School: Market Order and Entrepreneurial Creativity de Jesús Huerta de Soto
Natasha’s Dance: A Cultural History of Russia de Orlando Figes
Before Resorting to Politics de Anthony de Jasay
Significativo
Amazon vende mais e-books do que livros em papel no dia de Natal
O ano que foi de viragem no mundo dos livros electrónicos está a acabar bem para a empresa que mais trabalhou para promover esta tecnologia: no dia de Natal, pela primeira vez, os clientes da Amazon compraram mais livros electrónicos do que em papel.
Leitura complementar: Jornais que não têm futuro.
Sinais dos tempos
Há notícias que se tornam mais elucidativas se forem lidas em conjunto:
«Homossexualidade não é uma doença e não há tratamento»
Governo avança com plano-choque contra a obesidade
Jornais que não têm futuro
Vale a pena ler o texto de despedida do provedor dos leitores do Público:
Enfrentem a realidade: o público está a emigrar em massa para a informação via digital e não irá fazer marcha atrás
(…)
Julgo o PÚBLICO afectado por certo grau de presunção. Muitas das suas matérias e da sua linguagem são elaboradas em função da superioridade intelectual que os seus jornalistas julgam de bom tom manter, mas será que se interrogam por um momento sobre se estão a comunicar para o público generalista que é o conjunto de leitores do jornal (e que desejavelmente deveria alargar-se a camadas mais vastas)?
A meu ver, ainda pior do que a presunção é a grosseira ignorância de boa parte da redacção do Público (e não só…) demonstrada repetidamente, especialmente nas áreas da economia e das relações internacionais.
Uma das principais razões para a evidente migração para o digital é que para quem deseje andar bem informado, comprar um jornal português é cada vez mais um desperdício face às fontes alternativas de informação e opinião disponíveis. Neste contexto, não é de espantar a queda continuada das vendas da imprensa (que nem os artifícios de marketing e as formas criativas de “estimulação” artificial dos números da circulação paga conseguem disfarçar).
Dezembro 29, 2009
Uns meros 155 milhões
Há uns meses, foi aventada a hipótese de implodir o estádio de Aveiro. O equipamento, que custou uns meros 65 milhões de euros, parece ser dificíl rentabilizar. Os custos de manutenção são incomportáveis.
Esta semana, o presidente da Câmara de Leiria admitiu a venda do estádio municipal. A manutenção custa 5 mil euros/dia e é “o grande responsável pela situação financeira da autarquia“. A construção custou uns modestos 90 milhões de euros.
São apenas dois exemplos dessa idiotice chamada Euro 2004. Sinceramente, gostava que as brilhantes mentes que idealizaram a candidatura e aprovaram estes “investimentos” fossem criminalmente responsabilidados e obrigados a repor o dinheiro desperdiçado naquelas bancadas. Mas estou a ser irrealista. Os mesmos inimputáveis preparam-se para enterrar ainda mais dinheiro em “projectos estruturantes que haveremos de implodir no futuro.
O pântano de Sócrates
Claro que um partido político deve exibir e vender o seu peixe também nas redes sociais, na blogosfera e noutros espaços interactivos da internet. Parece-me muito bem que, num partido político, haja quem se dedique a escrever textos elogiosos do seu partido em blogues, a contestar em comentário posts de blogues de outras opiniões, a expor as fragilidades políticas dos adversários, a comentar artigos de jornais online com a posição do seu partido, e mais uns etc.. Que o faça anonimamente, sob pseudónimo ou assinando por baixo é uma questão de estilo. O que não se admite é que haja quem, a mando de um partido político, se dedique a insultar, a atacar pessoalmente, a difamar e a ameaçar quem esse partido considera desalinhado, tudo coisas a que os blogues socráticos se dedicam com grande afã.
Este é apenas mais um sintoma desta doença socrática que vivemos. Juntemos a isto as pressões a jornalistas, as pressões a magistrados (as conhecidas e as que nunca serão reveladas), os castigos a funcionários públicos, as recompensas aos empresários bem-comportados, e todas as restantes manifestações de uma democracia musculada. António Guterres deixou-nos num pântano político. José Sócrates vai deixar-nos num pântano ético.
Jargão
Em Wagner: Vida e Obra (Wagner: His Life and Music), Stephen Johnson escrutina a biografia do génio de Leipzig tendo como mote a sua polémica personalidade e as suas ideias, tão perversas como, por vezes, inescrutáveis, e que ficaram registadas em diversos textos. Nalguns desses escritos estão expostas as contradições e execrações de Richard Wagner, mas não apenas no conteúdo, pois a forma também reflecte o carácter duvidoso do autor, como se pode ler no episódio transcrito em baixo, relatado por Johnson. O estilo da pena de Wagner seguia, com aparente convicção, uma certo modo de “comunicar”, popularizado por Hegel, entre outros, que não é muito amigo da clareza. Mas o carrasco da Grande Ópera não foi uma personagem linear. Por isso, não nos surpreende que tivesse a capacidade de rir de si próprio. Eu talvez não me atrevesse a utilizar expressão “lampejos de humildade”, porque, afinal, a gargalhada e o comentário podem ser a apenas o reconhecimento de que, também ele, tomava os seus leitores por parvos. Mas saber rir é uma virtude, e, infelizmente, os cultores do jargão costumam levar-se demasiado a sério (ou disfarçam muito bem).
Como demonstração da evolução das suas ideias inovadoras, os escritos de Wagner podem ser muito elucidativos, mas raramente são de fácil leitura. Isto resulta em parte do facto de ter um estilo literário que tende a deixar-se enredar no tipo de linguagem inebriante e confusa que torna tão difíceis de ler os escritos do pioneiro alemão da filosofia da História, Georg Wilhelm Hegel. Do mesmo mal enfermam os trabalhos de tantos admiradores de Hegel da primeira metade do século XIX — um período magistralmente definido por um escritor moderno como “os anos loucos da filosofia”. Mas também neste aspecto Wagner era capaz de lampejos de humildade: uma vez, ao ler em voz alta passagens de uma obra filosófica que lhe incendiava o entusiasmo, Wagner viu-se questionado por um amigo — que queria dizer tudo aquilo? Wagner fez uma breve pausa e soltou uma grande gargalhada, acrescentando: “Sabes uma coisa? Não faço a mínima ideia!”.
Stephen Johnson, Wagner: Vida e Obra
Não deixa de ser curioso que, a partir do Outono de 1854, Wagner passasse a estar sob a influência de Schopenhauer (o qual, já nos anos 1840, não se inibiu, apontou o dedo à filosofia de Hegel e disse: o rei vai nu). Ainda bem. Foi a partir do seu contacto com a filosofia schopenhaueriana que o compositor rompeu, revolucionou, e deixou marcas sublimes. Não é que a sua obra anterior seja apenas fogo-fátuo hegeliano, muito pelo contrário; a genialidade de Wagner estava muitos furos acima dessas vaidades. Mas sem o contacto com as ideias de Schopenhauer hoje não teríamos Tristão e Isolda, e o Anel teria seguido um rumo completamente diferente.
(Birgit Nilsson canta Liebstod, o final de Tristão e Isolda)
O manicómio em 2010
Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)
Um economista escreve um artigo no jornal i a pedir a Manuel Alegre que se candidate a presidente da República, sob o argumento de que o cargo deve ser ocupado por quem tenha “memória anti-fascista”. O advogado de um responsável por roubos, sequestros e a paralisia de um farmacêutico exige a absolvição do criminoso a pretexto das “fracas condições sociais em que cresceu”. Um Movimento dos Trabalhadores Desempregados quer dispensa do dever de procurar emprego (mas não do direito ao subsídio). Uma organização feminista reclama a introdução no Código Penal do “femicídio”, conceito que distingue o homicídio de senhoras no contexto das relações íntimas. A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas continua a reivindicar privilégios e subsídios. Por sua vez, ociosos de outro género reivindicam a possibilidade de adopção por casais gay. A Protecção Civil desdobra-se na produção de alertas coloridos enquanto as cidades se desfazem a cada chuva e a cada vento. Os “media” lamentam o falhanço da Cimeira de Copenhaga no combate a um fenómeno cuja existência permanece duvidosa. Lisboa e Porto discutem institucionalmente uma corrida de aviões. Quando o défice público atinge os valores de três linhas do TGV e um aeroporto de Alcochete somados, o Governo reage mediante o avanço de três linhas do TGV e um aeroporto de Alcochete. A Comissão para o Centenário da República pagou a um desenhador 180 mil euros (sem concurso público) a troco de um site e uns envelopes. Existe uma Comissão para comemorar o Centenário da República.
À entrada da segunda década do século, eis um entre inúmeros retratos possíveis do país que temos e somos. A impressão imediata é a de um manicómio. A impressão definitiva também. Lá fora não é muito melhor? Talvez não. Mas as comparações com estranhos não redimem este equilibradíssimo caldo de ignorância, trapaça e pura demência. Às vezes apetece rir, embora fique sempre a dúvida sobre se rimos dos malucos ou com os malucos, e nenhuma das hipóteses abona em favor de quem ri.
Não tardará, não
Se bem estão recordados, durante a campanha para as presidênciais americanas o único elogio que se ouvia de todas as partes para com ‘o’ Bush era o da ter conseguido manter os Estados Unidos seguros (i.e., livres de atentados terroristas) durante os anos seguintes a 2001. Agora com o atentado falhado na Delta e a costumeira falta de competência da administração Obama (e com a ideia desfeita dos terroristas serem assim uns inadaptados que se lhes dessem umas pancadinhas nas costas se endireitavam, que apenas reagiam ao mauzão do Bush e à invasão do Afeganistão e do Iraque, e que com o compreensivo Obama tinham um ombro onde desabafar as mágoas em vez de matarem civis inocentes), depois das taxas de aprovação periclitantes de Obama que o levaram a fazer, finalmente, um discurso decente na cerimónia de entrega do seu Nobel, ainda vamos ouvir este presidente retomar o discurso da war on terror. Talvez com outra forma, mas será a mesma coisa.
Elogio da ingovernabilidade
Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)
Ao longo de quatro anos e meio, aprendemos como governa o PS em maioria parlamentar: com arrogância e maus modos. “Habituem-se”, preveniu no início da anterior legislatura o dr. Vitorino. E não tivemos outro remédio. Na legislatura vigente, estamos a habituar-nos ao estilo do PS quando não manda no parlamento: histérico e choramingas. Sendo um espectáculo diferente, é igualmente arrebatador. Sobretudo por exibir protagonistas tão prestigiados quanto um dr. Ricardo Rodrigues, que um juiz garante ter pertencido a um “gang internacional”, e um dr. Sousa Pinto, que nem isso.
A oposição não acolhe com reverência e pasmo cada prodigiosa medida socialista? O PS queixa-se de “deslealdade” e diz que assim não é possível. Cavaco Silva confessa-se preocupado com a economia? O PS queixa-se de “intromissão” e amua. Não tardará que o PS faça beicinho e birra a propósito do fracasso de Copenhaga, suspenda a respiração por causa da crise do Sporting e arranque cabelos sob o argumento da chuva que não passa. Por este andar, de guincho em guincho a aprovação do casamento “gay” arrisca-se a ser a atitude menos amaricada do XVIII Governo constitucional. (mais…)
Projectos estruturantes (ou como esbanjar dinheiro dos contribuintes)
Um milhão e 250 mil euros foi quanto o estado investiu, há mais de um ano, naquilo que dizia ser um projecto pioneiro, em termos mundiais, no campo das energias alternativas. Um milhão e 250 mil euros para a construção do Parque de Ondas da Aguçadoura. Nós por cá fomos agora ver o que é feito do projecto e que energia foi já produzida através das ondas do mar, 15 meses depois do anúncio.
Vejam o video aqui
(via João Miranda)
Os custos do socialismo
Uma medida tipicamente socialista. Esbanjar mais dinheiro dos contribuintes em vez de eliminar os regulamentos vigentes que criaram o problema.
Leitura recomendada: O Estado popular de Hitler
Quando normalmente se pensa na segunda grande guerra e nas atrocidades cometidas é normal colocarmos todos os olhares em Hitler e o seu grupo restrito de capangas que a partir dos seus ministérios controlaram todas as operações militares e ultimaram os detalhes da “solução final” para o problema judaico. Alguns ainda se perguntam como terá sido possível Hitler chegar ao poder democraticamente, onde invariavelmente são discutidas as capacidades oratórias do líder nacional-socialista e o seu carisma. Em cima disto, e talvez ainda mais relevante, tínhamos a Alemanha no culminar de uma crise hiper-inflacionária e no cenário internacional a Grande Depressão não ajudava certamente. Hitler jogou bem as suas cartas e chegou ao poder vendendo esperança ao povo na forma de politicas socialistas que hoje são consideradas, pelo menos na Europa, como “direitos adquiridos” que não podem ser colocadas em causa. No entanto, mais importante do que a forma como chegou e se perpetuou no poder será perceber como é que, depois de mostrar as suas politicas e colocar a Alemanha em guerra com meio mundo, os alemães não apenas o deixaram ficar no poder como activamente apoiaram a barbárie. E é sobre isso que nos fala este livro que vos recomendo de Gotz Aly.








