De vez em quando, a blogosfera vale a pena por textos como este do Luís Aguiar Santos
A enorme maioria das pessoas é instintivamente colectivista. Não há nada de imediato a fazer quanto a isso. Continua a ser completamente estranha àquela enorme maioria a descoberta que se fez de que os seres humanos se relacionam espontaneamente e ajustam sem coerção as suas necessidades às dos outros, criando laços voluntários de interdependência e de troca. Chamou-se por analogia “mercado” às possibilidades deste tipo de relação em que cada um age por si próprio e em seu nome ou em nome daqueles a quem se associa. Essas relações, embora nasçam da necessidade, são voluntárias no sentido de poderem ser preteridas a favor de outras julgadas mais convenientes. Mas, para isso, cada um tem de ser livre de poder gerir as suas relações e os resultados delas obtidos. A essa autonomia do indivíduo se chama propriamente individualismo – e esse individualismo pode ser usado com propósitos egoístas ou altruístas porque o critério é de cada pessoa.
Mas a generalidade das pessoas não entende nem quer entender o individualismo e o mercado. A moralidade que lhes pregaram desde o berço, e que é superior a qualquer conjectura moral ou económica, é que todos somos responsáveis uns pelos outros e ninguém por si próprio; cada um deve dar o seu “contributo à sociedade” e desta receber “aquilo a que tem direito”. Dado que aprenderam que nada há de moral no mercado, orgulham-se da sua ignorância sobre questões económicas porque, como lhes ensinaram, a única economia tolerável reduz-se a uma actividade de redistribuição da riqueza. E disto não saem.
Alguns, por momentos, podem escutar com curiosidade ideias diferentes, mas logo que regressam às rotinas ligam o piloto automático colectivista. As ideias que lhes inculcaram são muito fortes e têm associados mecanismos de medo muito eficazes: a grande maioria das pessoas é vítima de alguém ou de alguma coisa e precisam de ajuda ou que tomem conta delas; eles próprios nunca têm a certeza de não pertencer ao número das vítimas e, portanto, só se sentem seguros se a “sociedade” estiver comprometida em ajudá-los. Desse modo, o altruísmo, o sistema simbólico da entreajuda, torna-se o grande vínculo que mantém a unidade da “sociedade” e de cada um com ela. As ideias diferentes não passam de fantasias; para um número considerável, estas fantasias são mesmo perigosas ou constitutivas da moral hipócrita daqueles que, quebrando a entreajuda, são responsáveis pela existência de tantas vítimas. Estes, os que alegadamente não se pautam pelo colectivismo, são os elementos corruptores do sistema, os agentes da entrada do mal no mundo e contra os quais se torna evidente a necessidade de reforço da protecção colectiva.
Porque a função providente da “sociedade” corre mal, os responsáveis pelo mal estão obviamente com demasiado poder, influenciando as decisões políticas e o curso dos acontecimentos. É instintivo associá-los aos que têm riqueza ou modos de vida independente – por mais que esses sejam muitas vezes utilizadores inteligentes das decisões colectivas estabelecidas. Só que como o resultado dessas decisões não deveria ser a desigualdade de resultados, logo se conclui que a vantagem desses quantos teve de ser conquistada à custa daquilo que pertence a todos. Não é uma consequência do sistema colectivista, mas da sua corrupção. Daí o apelo que podem ter os tribunos da plebe autopromovidos ou os Césares moralizadores. E quando o exercício do poder colectivo por estes se revela desastroso é porque, mais uma vez, houve cedência à moral hipócrita dos que fazem vítimas, violando os puros princípios do colectivismo. Pode-se assim sempre começar de novo sem questionar os instintos. Pode-se assim viver numa sociedade completamente organizada numa lógica colectivista e proclamar-se que impera o individualismo mais selvagem e maléfico.
Esta visão do mundo é perfeitamente compatível com o mais bruto egoísmo individual. Na sua vida privada, o colectivista instintivo pode ser completamente autocentrado nos seus actos sem se contradizer. É que ele é uma vítima e tem direitos que a “sociedade” lhe deve; ora, dado que a “sociedade” é ineficaz na distribuição desses direitos, por causa da corrupção causada pelos que fazem vítimas, é perfeitamente legítimo que ele aja como um recolector – senão um predador – em relação àquilo “que é de todos”. Isso que é de todos também é dele e, se as benesses ficam à mão de semear, só se fosse tolo é que não as colhia. Mais vale ser ele, que é uma pobre vítima, do que um desses corruptores do sistema que já tem mais do que a medida. O facto de ser vítima pode até dar-lhe o direito de agir com agressividade e de transgredir os princípios altruístas do colectivismo: ele está a defender aquilo a que tem direito – seja o subsídio de desemprego estando empregado ou a entrada mais à frente na bicha para a ponte; se há injustiças no sistema, não são as “migalhas” que ele colhe que a originam, é a corrupção dos que fazem vítimas. De maneira que o colectivista pode comportar-se como um pulha com os seus semelhantes e preservar a sua boa consciência, odiando ritualmente os seus demónios anti-colectivistas.
É esta lógica circular, preventiva das contradições, alimentada pelo medo e pelo ódio ao que se julga causar o medo, que é praticamente impossível ao individualista de quebrar. O individualista descobriu por um percurso íntimo que o colectivismo está errado. Não descobriu apenas que é ineficaz, descobriu que é imoral. Por isso, tem dificuldade de entender a razão pela qual ninguém está disposto a levar a sério o que tem para dizer. Mais: fica chocado por o tomarem a ele por um ser imoral. Exalta-se algumas vezes, irrita-se com os seus interlocutores e, de repente, apercebe-se que está a representar o papel de arrogante em que eles o querem ver. Claro que essa arrogância até está proporcionada àquela que exibem os que dele discordam, mas é a sua que sobressai porque todos estão de acordo em discordar dele. Então, o individualista cala-se, deixa cair os braços. Está magoado, mas aprende que essa mágoa lhe vem de um instinto gregário que lhe pede concordância com o grupo. Aprende a superar isso separando as pessoas dos seus instintos mais errados, tentando compreender porque pensam e agem daquele modo. Evitando a misantropia, o individualista convive com os seus semelhantes e passou a considerar-se um estrangeiro. Não pertence moralmente a esta sociedade, mas tem de viver nela com aqueles que se pautam por valores, expectativas e objectivos diferentes.
Aqui começa a aventura moral do individualista. Como viver no colectivismo sem se tornar um colectivista? Há uma primeira porta de saída com que se depara: ser um individualista consequente é tão difícil que viver as contrariedades enfrentadas seria oferecer-se a um estranho sacrifício pessoal no altar do colectivismo. Ele, um individualista, precisamente porque o é e não sente qualquer comprometimento moral com o colectivismo, não deve aproveitar tudo aquilo que o sistema lhe der, tudo aquilo que lhe vier ter à mão? Ele não é responsável por as coisas serem como são, ele diz-se, como toda a gente sabe, individualista. Está moralmente de fora, mas é obrigado a viver neste meio. Não esperam, com certeza, que ele se deixe espezinhar pelo sistema, ser forçado aos deveres e recusar os direitos. Ele alerta para a falência moral do sistema que não lhe permite viver como se deve viver; e então vai viver do sistema, mas denunciando-o. É isso que o distingue do sectário colectivista que, denunciando um défice de colectivismo que torna tudo imoral, se põe à margem, às vezes com uma opção pela violência. Ele não. O individualista não se transforma num objecto sacrificial. Era o que faltava: o colectivismo não vale tanto. O individualista decide sair pela primeira porta e torna-se um pragmático. Se está à procura de emprego, deve considerar todas as ofertas. Um emprego mantido pela máquina fiscal do colectivismo pode ser aceitável. Alguém vai ficar com ele, de qualquer maneira. Que irónico que é ficar ele nesse lugar em vez de um colectivista convicto. Algumas pessoas como ele em lugares desses e um dia será fácil desmontar todo o sistema…
A segunda porta de saída – que pode ser a primeira, dependendo de onde se vem – é a que se depara ao individualista que não julga os outros. “Não julgues para não seres julgado”: a diferença entre a frase assim dita e a que no evangelho está na boca de Jesus é que este falava de direitos e deveres das pessoas com Deus, não das pessoas com a “sociedade” funcional e simbolicamente transformada n’Ele. Para este segundo tipo de individualista pragmático, cada um sabe de si e não lhe compete a ele andar a apontar o dedo. Não é um mau princípio, mas ele sabe que, na verdade, essa atitude se traduz em não mostrar qualquer desagrado ou desconforto perante o pragmatismo de outros individualistas, o que não é exactamente a mesma coisa de se abster de apontar o dedo; é, pelo contrário, implicitamente, aprovar aquela conduta. Porque o segundo individualista pragmático sabe que há formas de tornar conhecida a sua maneira de ver, de mostrar desagrado e desconforto, sem andar a “julgar” os outros ou a “apontar o dedo”. Ele simplesmente não quer desagradar porque, no fundo, valoriza mais as relações do que os princípios. Em termos morais, estará um furo acima do primeiro pragmático, mas quantos abaixo ainda daquela palavra virtude a que se diz alérgico?
Texto muito interessante. Terei de o ler mais algumas vezes para ver se o percebi bem. (sem ironia)
Desde já fiquei com algumas dúvidas:
1. Se um individualista tropeçar, cair e partir as pernas, pede ajuda a quem passa?
2. Se ninguém o ajudar, o individualista faz um julgamento sobre a atitude de quem passa e manifesta o resultado desse julgamento?
(dúvidas sinceras e que, eventualmente, demonstram que preciso de ler o texto muitas mais vezes e com mais atenção)
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Novembro 29, 2009 @ 01:57
Helder
O texto de Luís Aguiar Santos, “A aventura moral do individualista” é uma análise muitíssimo interessante dos dilemas do indivíduo autónomo (prefiro este termo ao “individualista”) numa sociedade “colectivista” em que a maioria se tornou dependente e conformista.
É igualmente interessante na análise da sociedade “colectivista”, na sua ineficácia, na sua imoralidade, nos seus desvios e na forma como acaba por ser “vampirazada” por oportunistas (estes sim os verdadeiros “individualistas”).
Porque é que não utilizaria aqui o termo “colectivista” aplicado ao indivíduo?
“Colectivista” não rima com: “laços voluntários de interdependência e de troca” ou em que “cada um tem de ser livre e gerir as suas relações e os resultados delas obtidos”. Em vez de “colectivista” que se adequa mais na definição da sociedade, utilizaria o termo mais vulgarmente utilizado, “social” = que desde cedo se estrutura e desenvolve através de relações sociais.
E em vez de “individualista” diria autónomo: “A essa autonomia do indivíduo se chama propriamente individualismo”. Embora também tenha tendência para utilizar o termo “individualista” reconheço que nos leva a muitos equívocos. “Individualista” lembra-nos de imediato o indivíduo que coloca os seus próprios interesses à frente dos restantes indivíduos. Só o indivíduo autónomo estabelece relações de interdependência e de mútua confiança.
O nível da análise é surpreendentemente profundo e muito perspicaz: “A moralidade que lhes preparam desde o berço … é que somos todos responsáveis uns pelos outros e ninguém por si próprio”. Está aqui definida a dependentência, o conformismo. E é, de facto, assim. Arno Gruen (“A Loucura da Normalidade”, “Traição do Eu”, “Falsos Deuses”) define esta dependência com a expressão “take care of me”.
No texto são desmontados “os mecanismos de medo” utilizados pelas “sociedades colectivistas” para promover e manter a dependência e o conformismo.
E é surpreendente mesmo esta análise: ” o colectivista instintivo pode ser completamente autocentrado nos seus actos sem se contradizer”: daí a “recolector” e “predador” é um passo, partindo do princípio que pode utilizar “o que é de todos” sem qualquer hesitação.
O dilema do indivíduo autónomo numa sociedade que promove e mantém a dependência e o conformismo está mesmo bem apanhado, com uma ironia muito subtil: “Aqui começa a aventura moral do individualista”. Como enfrentar “as contrariedades” de viver numa sociedade colectivista?
Dos dois exemplos apresentados, de opções “pragmáticas”, nenhum me parece censurável ética ou moralmente. Embora, contrariamente ao autor, diria que a primeira opção é mais coerente com o autónomo. Pelo menos “denuncia” o que está errado. Porque “ao valorizar mais as relações do que os princípios” acabará por se transformar num conformista.
O texto está, aliás, muito bem escrito. O que é meio caminho andado para a sua leitura num domingo enevoado.
Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 29, 2009 @ 13:49
Ana,
Qual é a diferença entre “social” (que desde cedo se estrutura e desenvolve através de relações sociais) e “autónomo” (estabelece relações de interdependência e de mútua confiança)?
Pelo que percebo do texto do Luis Aguiar Santos e da sua resposta, “colectivista” e “autónomo” são dois extremos do “social”, distintos do “individualista”.
O “colectivista” espera que a sociedade seja colectivamente responsável por ele enquanto que o “autónomo” assume a sua quota parte de responsabilidade pela sociedade. Ambos acreditando no grupo (sociedade) como base de sobrevivência/equilíbrio/desenvolvimento, o primeiro está mais focado no que (independentemente da sua contribuição) pode obter do grupo (direitos) e o segundo naquilo que é suposto contribuir (deveres).
Pode-se dizer que o “colectivista” acredita na média (independentemente do que cada um faça, todos acabam por receber o mesmo) e o “autónomo” acredita no mínimo (todos contribuem na medida das suas possibilidades para que ninguém tenha menos que o mínimo e cada um faz o que pode e quer para atingir o seu máximo).
A diferença entre um e outro reside na responsabilidade que cada um assume relativamente a si próprio. E, no fundo, relativamente aos outros.
O “individualista” será exactamente aquilo que a Ana pretende recusar ao preferir o termo “autónomo”, “o indivíduo que coloca os seus próprios interesses à frente dos restantes indivíduos”.
Sendo essa uma forma muito crua de colocar a questão, a diferença entre o “social”/”colectivista”/”autónomo” (na minha interpretação) e o “individualista” reside em este último não assumir qualquer responsabilidade relativamente aos outros (nem esperar nada deles, embora possa aproveitar o que deles receba). Neste sentido, os únicos interesses que são importantes para o “individualista” são os seus próprios.
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Novembro 29, 2009 @ 15:32
Joaquim Amado Lopes não parece perceber.
O Individualista escolhe a quem faz solidariedade, de quem é amigo e com quem estabelece laços e se faz ou não faz. É ele que decide.
Por isso mesmo é que a formação de opinião sobre o comportamento de outros pelo Individualista ao contrário do que diz JAL é extremamente importante.
Um individualista pode querer dar ou não a todos um mínimo do seu, ou mesmo dar tudo. Não pode é arrogar-se o direito de decidir sobre o que não é seu.
O Colectivista quer impôr aos outros um comportamento, quer tirar a uns para dar a outros com a força do Estado e das armas. Corrompe o individuo e escraviza quem produz.
Comentário por lucklucky — Novembro 29, 2009 @ 18:56
Joaquim
Li a sua resposta com muita atenção. Penso que não me devo ter explicado bem.
Nada a opor quanto à sua interpretação de “individualista”, que é também a minha, e por isso prefiro o termo “autónomo” para definir o indivíduo livre e capaz de tomar decisões e efectuar escolhas, como a de estabelecer relações mutuamente gratificantes dentro de um grupo ou de uma comunidade.
Um indivíduo autónomo é, por definição, responsável por si próprio e colabora de forma responsável na sua comunidade. Mas escolhe a forma de colaborar e decide qual a melhor estratégia ou opção. Encontramos indivíduos autónomos no que designo por economia integrada, a que mantém a estrutura social, a coesão social.
O termo individualista lembra o indivíduo que coloca os seus próprios interesses à frente de todos os outros, ou dito de outra forma, que só se preocupa em satisfazer os seus próprios objectivos, e aqui concordo com o autor ao incluir o “colectivista” que se aproveita do sistema, o “recolector” e “predador”). É por isso que os termos adquirem aqui uma grande importância, para evitar equívocos.
Como o da bondade do “colectivismo”, por exemplo: uma sociedade “colectivista” deforma o equilíbrio saudável das relações económicas e sociais entre indivíduos e empresas.
Assim, apenas coloquei reservas em relação aos termos, pois concordo com o essencial do texto de Luís Aguiar Santos.
Francesco Alberoni tem um texto muito interessante sobre a “autonomia”: “Não deves contar com a ajuda dos poderosos, mas apenas com o teu trabalho, com as tuas capacidades, com aquilo que sabes fazer. Vive vendendo os teus serviços e os teus produtos no mercado. Foi este o grande ensinamento da Itália dos Comuns e, depois, do mundo protestante. Não procurar as prebendas eclesiásticas ou o favor de um príncipe. Não pedir seja o que for a ninguém. Desta forma serás um homem livre. … Só o artesão que trabalha na sua oficina com as suas próprias mãos, com a sua habilidade, não tem de agradar a um persononagem colérico e caprichoso, esperar pelas suas decisões arbitrárias, respeitar os seus gostos. Cria e vende os seus produtos àqueles que os apreciam … A liberdade dos cidadãos de Florença, Veneza, Génova e, depois, de Amsterdão ou Lubeck, tinha como fundamento a sua capacidade de exportar para toda a Europa. … a parte mais vital do nosso sistema económico não pediu favores e privilégios, não participou em arranjos obscuros. Afirmou os seus produtos nos mercados internacionais. / Assim agiram os criadores do “made in Italy”. A liberdade individual e colectiva foi mais uma vez garantida pela capacidade de fazer bem o seu próprio trabalho. A todos os níveis: pelas empresas e pelos indivíduos. / Trabalhar, enriquecer as suas competências, é o património mais precioso do indivíduo. É o único verdadeiro fundamento da sua autonomia e da sua liberdade. Faça ele o que fizer: gerente, técnico, professor, artesão, operário ou profissional liberal. É um poder a que ninguém deveria renunciar. …” (em “Tenham Coragem”, Bertrand Editora, 5ª edição, pág. 56-58).
Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 29, 2009 @ 20:10
Ana,
o indivíduo que coloca os seus próprios interesses à frente de todos os outros,
não é sinónimo de
que só se preocupa em satisfazer os seus próprios objectivos
Na primeira frase é implícita uma ordenação, na segunda, exclusão. O facto de um individualista colocar o seu próprio interesse à frente de todos os outros, não exclui os interesses de terceiros, pelo contrário implica que não os atropele em seu benefício. Value for value.
Na realidade, a segunda frase aplica-se com mais propriedade ao colectivista. Se tudo é do todo, tem o direito a tudo já que faz parte do todo. Aqui não entram considerações acerca do interesse de terceiros. Não existem.
Comentário por Helder — Novembro 29, 2009 @ 20:33
Helder
Tem razão, hoje não estou a expolicar-me lá muito bem. Há uma diferença, de facto.
Em todo o caso, diria que não é só o “colectivista” que só se preocupa em satisfazer os seus próprios objectivos. Encontramos “predadores” não colectivistas, na economia, mas que se sabem movimentar em todos os sistemas, são adaptáveis digamos assim. Aliás, essa economia predadora é a mais protegida pelos colectivistas, porque é apetecível e acessível. Pelo menos, é o que tenho observado.
Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 29, 2009 @ 20:56
1. Se um individualista tropeçar, cair e partir as pernas, pede ajuda a quem passa?
Joaquim, como o LAS explica logo no início, a premissa base do individualista é a responsabilidade por si próprio. Mais uma vez, o que aqui se exclui é atribuir a outros a responsabilidade que é dele mesmo e é basicamente isso que o distingue do colectivista. Assim, esta sua pergunta não faz sentido. Claro que pede ajuda e claro que conhece a gratidão. Se quiser, o mais importante para o individualista é a ausência de coerção, sobre si próprio e sobre os outros.
A segunda pergunta é mais complexa e merece um post. Mas, seja como for, ninguém se pode eximir ao julgamento moral.
Comentário por Helder — Novembro 29, 2009 @ 21:27
lucklucky,
“Colectivista”, “autónomo” ou “individualista”, não estamos a falar de um indivíduo isolado mas de um modelo de organização.
Ninguém é “colectivista” ou “autónomo” sózinho. Para o ser, tem que se juntar a outros e acordarem as regras, de modo a cada um saber o que tem que fazer (deveres) e com o que pode contar (direitos).
E mesmo o “individualista” só tem escolha (não apenas em ser “individualista” mas também em quem ajudar) se não estiver sózinho.
“Um individualista pode querer dar ou não a todos um mínimo do seu, ou mesmo dar tudo.”
Ou não dar nada. Como o lucklucky escreveu o “individualista escolhe a quem faz solidariedade, de quem é amigo e com quem estabelece laços e se faz ou não faz”. Assim, se não percebi antes, o seu contributo não foi suficiente para eu ficar a perceber. Nem sei o que não percebi portanto podia começar por aí.
“O Colectivista quer impôr aos outros um comportamento, quer tirar a uns para dar a outros com a força do Estado e das armas. Corrompe o individuo e escraviza quem produz.”
Não necessariamente.
Nenhum de nós nasceu totalmente livre e escolheu esta organização social em detrimento de outras opções. As regras foram estabelecidas por quem veio antes de nós e, nascendo neste grupo, “aceitámos” essas regras.
Concordo que o “colectivismo” é o modelo mais restritivo da liberdade de escolha (porque a igualdade por decreto exige mais) e que há quem pretenda impô-lo, à força se necessário. Mas o “colectivismo” pode ser uma opção do grupo, eventualmente até consensual, por muito estranho que isso soe a quem não concorda com esse modelo.
Quanto a “a formação de opinião sobre o comportamento de outros pelo Individualista ao contrário do que diz JAL é extremamente importante”, eu escrevi que não era?
Tanto quanto posso ver (e suponho que se refira ao meu primeiro comentário), formulei uma pergunta, não fiz uma afirmação.
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Ana,
“Nada a opor quanto à sua interpretação de “individualista”, que é também a minha, e por isso prefiro o termo “autónomo” para definir o indivíduo livre e capaz de tomar decisões e efectuar escolhas, como a de estabelecer relações mutuamente gratificantes dentro de um grupo ou de uma comunidade.”
A minha… chamemos-lhe “objecção” deriva de ter entendido que a Ana não distingue entre o “individualista” e o “autónomo”, apenas prefere descrevê-lo de outra forma, enquanto eu os vejo como dois conceitos diferentes.
O “autónomo” aceita ter um papel dentro do grupo/comunidade (com os seus deveres e direitos) mas não abdica da liberdade de escolher se estabelece ou não outras relações, para benefício mútuo e, sem abandonar o grupo/comunidade, evoluir além dos outros. O “individualista” reserva a liberdade de não fazer parte do “grupo”, não assumindo quaisquer deveres nem reclamando quaisquer direitos.
Em termos políticos, o “colectivista” representaria o socialismo, o “autónomo” representaria a social-democracia e o “individualista” representaria a anarquia. Todas opções válidas e defensáveis, desde que não sejam impostas nem se façam “confusões”, como a que o Luis Aguiar Santos refere do “colectivista” que só o é no sentido em que é suposto o “colectivo” garantir-lhe a igualdade de direitos mas não assume a responsabilidade (dever) de contribuir para o “colectivo”.
Para essa… “confusão” ética surgir, basta que existam regras que estabeleçam deveres e direitos (não é por acaso que não escrevo “direitos e deveres”). Haverá sempre quem tente ser “criativo” na interpretação das suas responsabilidades. Mesmo sem ser “colectivista”.
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Novembro 29, 2009 @ 21:38
O texto do ano (se não existe tal iniciativa pode-se começar este ano).
O desafio liberal começa no facto de as pessoas não gostarem propriamente de ser livres, embora chamem a ser “livre” democracia, e como gostam muito de “democracia” e são muito “democratas”, acham que gostam muito da “liberdade”. Na verdade, em geral, as pessoas gostam de “comandos”, seja por especialistas, ou organizações, e claro, do sistema político.
Existem duas formas de travar a luta intelectual: demonstrar a carácter útil (O utilitarismo, por exemplo, demonstrando “Keynes como charlatão” cuja paradigma na economia só trava o desenvolvimento) e ética (a superioridade moral da acção humana voluntária na plena posse do seu livre arbítrio).
Quanto a conviver com a “máquina”, numa altura em que o estatismo toma conta de 50% da produção mais os comandos regulamentares e comportamentais, ninguém pode reclamar pureza e independência da “máquina”, pode-se correr sempre o risco de excesso (serão excessos?) de puritanismo moralista liberal anti-actos-colectivistas, embora algumas personalidades seguiram esse caminho (o pai de Peter Schiff está há anos na prisão apesar de idoso, posto lá pela “máquina”, por defender e ser consequente com a inconstitucionalidade do IRS nos EUA, outro exemplo foi o grande amigo de Rothbard, Karl Hess, que começou por ser o grande speechwriter de Barry Goldwater e acabou como um dos grandes teóricos fundadores do anarco-capitalismo e sendo consequente com a sua conclusão moral – o que lhe deu uma vida já fora da sociedade – ver os arquivos do “Libertarian Forum” editados em conjunto com Murray N. Rothbard).
Bem, o movimento já tem uma história (ainda pouco conhecida) e os seu heróis, e eu por mim estou optimista. O estatismo em nenhuma forma, funciona de forma estável e durável (ver as bolhas e crises financeiras como consequência do estatismo monetário). Nem sequer precisa de nós para que tal fique visível. Podemos legitimamente cuidar dos nossos interesses no meio da teia e realidade estatista ainda que com temperança, com a qual de resto, podemos dizer, existe quase unanimidade como sendo apenas algo natural e certo. Não se trata de lavar as mãos, o nosso papel é o debate intelectual enquanto cuidamos de nós próprios.
PS: O único perigo real é que a guerra moderna pode simplesmente acabar com a aventura da civilização. E neste capítulo nem uma boa parte dos liberais, creio, está munido do anti-estatismo necessário apesar da realidade histórica sobre a estupidez humana praticada pelos lideres estatistas de todas as cores ser até muita clara. Tal conclusão é apenas a consequente com a comprovada ineficácia, erros, excesso de idealismo, interesses, gosto pelo poder, que em geral o liberalismo reconhece na economia, aplicada a relações internacionais. Mas enfim, salvo seja, esta é a “luta” de um segmento libertarian felizmente cada vez mais alargada.
Comentário por CN — Novembro 29, 2009 @ 23:18
Encontramos “predadores” não colectivistas, na economia
Duvido. O predador, por definição, tem interesse na colectivização dos recursos (é mais “produtivo” tirar muito ao todo, que pouco a cada um) e no ajuntamento das vítimas, logo, não pode ser individualista, deve ser colectivista.
Comentário por Helder — Novembro 29, 2009 @ 23:46
Helder,
Esses “predadores” não podem ser considerados “colectivistas” porque não defendem esse modelo para eles próprios mas apenas para as suas “vítimas”. Esses predadores serão mais “individualistas” hipócritas.
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Novembro 30, 2009 @ 00:11
Helder (8),
Ao pedir ajuda (e, portanto, esperar que alguém o ajude apenas porque sim, sem qualquer benefício directo), o “individualista” aceita (abraça?) o conceito da solidariedade. Então, o que diferencia o “individualista” do “social” é que o primeiro apenas aceita/abraça o conceito de solidariedade de um para um, decidindo caso a caso como proceder.
Se é assim, o “individualista” com as pernas partidas que vê as pessoas passarem sem o ajudarem forma um juízo moral relativamente a essa indiferença? Porquê?
Sente gratidão com aquele que o ajudar? Sente-se “obrigado” a retribuir?
E, ao ajudar alguém em dificuldades, o “individualista” espera algum tipo de gratidão? Porquê? Afinal, a decisão foi pessoal e, se fosse diferente, o “individualista” não se sentiria obrigado a justificá-la nem esperaria qualquer tipo de condenação. Ter-se-ia limitado a exercer o seu direito de decidir quem ajudar e como.
Ou há limites? Mesmo para os “individualistas”, há situações em que não ajudar outro é errado?
Costumo dizer que julgo tudo e todos, mesmo quando sei muito pouco sobre a situação/pessoa. Julgo pelo que sei e, mais do que certo, se soubesse mais julgaria de forma diferente.
E faço-o (esse juízo “automático”) porque é inevitável. Não acredito que, nesse aspecto, seja diferente de qualquer outra pessoa.
Mas o facto de julgar (formar um juízo ou opinião) não implica necessariamente actuar ou sequer expressar o juízo. Ao ver alguém a fazer algo que me parece ser um completo disparate, não vou necessariamente tentar impedi-lo nem sequer faço questão de que ele saiba qual é a minha opinião.
Se o disparate me parecer perigoso e eu não souber se ele está a actuar em consciência, a situação é (ou poderá ser) diferente.
Naturalmente, formar um juízo ou opinião sobre algo não é o mesmo que saber. Posso achar totalmente plausível que uma determinada pessoa seja corrupta sem saber de nenhum caso em concreto em que essa pessoa tenha corrumpido outra ou sido corrumpida.
(nota: uso “ele” no sentido genérico; usar sempre “ele/ela” pode ser politicamente correcto mas exige demasiado trabalho e atenção para valer a pena)
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Novembro 30, 2009 @ 13:49
Sempre se pode dizer que o colectivismo económico mesmo sendo voluntário não funciona, por isso só poderá satisfazer as pessoas que o praticam de forma voluntária se para além de serem colectivistas não se interessarem grande coisa pelo desenvolvimento. Normalmente isso corresponde a viver em comunidades colectivas do tipo comunal que renunciam ao desenvolvimento através do recolhimento. Que se saiba umas que tiveram algum persistência são os mosteiros e conventos.
Comentário por CN — Novembro 30, 2009 @ 14:20
Joaquim
Distingui, penso eu, o “autónomo” do “individualista” e não apenas no termo utilizado.
No texto a definição de “individualista” pareceu-me conduzir a equívocos e o termo “autónomo” pareceu-me mais indicado. Mas é apenas a minha opinião pessoal, claro.
E os equívocos eram precisamente esses: o termo “individualista” lembra-nos alguém que apenas considera os seus próprios interesses.
Ainda não estou certa que o “autónomo” represente o modelo da social-democracia. Penso que o autónomo seria indicado – se tivesse peso na sociedade, mas como bem diz CN, há poucos autónomos (e certamente não estão no poder nem gravitam à sua volta) -, teria de construir um modelo mais adequado ao séc. XXI e às novas exigências sociais e económicas, que melhor permitisse a realização individual e colectiva. Mas isso também daria outro post ali ao Helder…
Helder
Oh, oh… Já me confundiu com essa do individualista ser tendencialmente colectivista “por ser mais lucrativo tirar muito ao todo do que pouco a cada um”…
Como define o comportamento da grande finança, por exemplo? Não produz, mas pode facilitar ou dificultar a concretização de projectos de quem produz, pode ter um papel mais responsável. E é ou não apetecível e acessível ao colectivista?
E o que se viu em recentes actos predatórios foi “muitos ficarem sem o seu pouco” e as próximas gerações também pagarem “com o seu pouco” o muito retirado e ainda nem sequer calculado…
Bem, provavelmente já confundi os termos. Mas o mais importante é não confundir os actos e as motivações. (“Help!”)
Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 30, 2009 @ 14:30
Existe outro caminho.
Ainda vamos assistir à Secessão para pequenos estados, com motivações liberais (vamos ver como vão reagir as elites de esquerda).
Comentário por CN — Novembro 30, 2009 @ 16:38