O Insurgente

Novembro 20, 2009

Breve nota ao editorial do i

Filed under: Economia,Media — Nuno Branco @ 10:43

O jornal i tem hoje uma edição dedicada ao buraco orçamental. Começa com o editorial e tem depois, nas páginas mais centrais um aprofundamento do assunto. Infelizmente o editorial começa logo mal com uma frase errada “Os estados não vão à falência”.

Eu espero que esta afirmação seja corrigida brevemente. Uma rápida procura na google devolve um documento da Moodys onde estão listadas 12 falências soberanas apenas entre 1998 e 2006:

1) Paquistão (98)
2) Russia (98)
3) Ucrania (98 e 2001)
4) Venezuela (98)
5) Equador (99)
6) Peru (2000)
7) Argentina (01)
8 )Moldávia (01)
9) Uruguai (03)
10) Republica Dominicana (05)
11) Belize (06)

São países que se calhar passam desperbidos mas continuam a ser estados e continuaram a falir. Ainda há 1 ano a Islândia esteve nas noticias e não sei como é possível esquecer tão cedo. Muitos outros nomes há a acrescentar à lista que dei se recuarmos mais uns anos no tempo (a Argentina tem a mania de declarar falência ciclicamente por exemplo) mas infelizmente não tenho tempo suficiente para uma lista mais exaustiva.  Segundo a Standard & Poors houve 84 estados em incumprimento das suas obrigações entre 1975 e 2002 embora não tenha a lista de países afectados.

E se o argumento é que “não pode acontecer aqui” em 1971 os EUA também entraram em incumprimento com as suas obrigações (o que levou à criação do actual sistema monetário)… quer-me parecer que pode mesmo acontecer em qualquer lado.

Mas mais importante que isto, é que passando uma mensagem de que “os Estados não vão à falência” então os portugueses não percebem qual é o problema com o défice e irão manter-se na ilusão que o Estado é uma fábrica de riqueza. Afinal de contas, quando faltarem as notas manda-se fazer mais.

 

PS: E sim, pela primeira vez este ano comprei um jornal em papel! :P

10 Comentários »

  1. Pois, mas resta saber quais são as consequências práticas dessa “falência” ou desse “incumprimento de obrigações”.

    Por exemplo, a empresa Swissair também já foi à falência, mas continua alegremente a voar, apenas que com outro nome. Da mesma forma, esses estados todos que já foram à falência continuam a existir – e nem sequer tiveram que mudar de nome! E alguns deles até gozam, atualmente, de excelente saúde financeira…

    Portanto, o que interessa é definir quais são as consequências práticas da falência de um Estado.

    Comentário por Luís Lavoura — Novembro 20, 2009 @ 12:07

  2. “Portanto, o que interessa é definir quais são as consequências práticas da falência de um Estado.”

    Varia de caso para caso mas podemos contar com impossibilidade de fazer importações por exemplo. Se o estado em causa for salvo pelo FMI podemos também contar com a perda de independência em certas politicas que serão ditadas pelo FMI e o governo tem de cumprir à risca se não quiserem ver os fundos a saírem.

    Nacionalização dos PPRs privados foi uma das medidas que a Argentina implementou da ultima vez (para utilizar esses fundos para abater a dívida).

    A falência é a falência. E essa do “eles continuam a existir” é minimizar o problema ao mesmo nível de “os estados não abrem falência”. A situação é grave, as pessoas sofrem. Não é um fait-divers.

    Comentário por Nuno Branco — Novembro 20, 2009 @ 12:21

  3. “Portanto, o que interessa é definir quais são as consequências práticas da falência de um Estado.”

    Para mim não existem consequências práticas nenhumas, pelo contrário, é só vantagens (a começar pelo fim da cobrança de impostos para pagar a dívida pública contraída pelo sistema político com o qual não fiz nenhum contrato que permita alguém dizer que a dívida também é minha…). :)

    Comentário por CN — Novembro 20, 2009 @ 13:34

  4. CN,

    Não digas isso que eles acreditam. A forma de falir depende muito do que o poder politico entende fazer. Não sei se fazem intençoes de lixar completamente os credores ou apenas parcialmente. Agora o povinho, até onde poderem enterrar enterram.

    Comentário por Nuno Branco — Novembro 20, 2009 @ 14:40

  5. Os credores da dívida pública têm consciência que são mais credores do sistema-regime político, do que das pessoas. O “risco de falência” que está em causa é a hiper-inflação e/ou queda de regime com renúncia ou default de parte ou todo da dívida, sem que exista um activo para ser reclamado.

    Comentário por CN — Novembro 20, 2009 @ 15:36

  6. O problema para o cidadão comum não é o que o A emprestou. É o que o B deixa de fornecer porque A deixa de emprestar.

    Quem é que vende bens a crédito a uma entidade falida? Ninguém.
    O que é que Portugal compra a crédito? Tudo. Desde a comida à energia importamos tudo e pagamos a maior parte com dívida.

    Não é por acaso que a Islândia ficou com as prateleiras de supermercado vazias e com o fornecimento de medicamentos cortados. O banco central teve de recorrer às reservas para que houvesse serviços mínimos para a população. Entretanto o FMI e a Russia meteram a mão, mas se não tivessem metido aquelas reservas duravam muito pouco tempo. Uma questão de mais semana menos semana.

    Isto não é bem a facilidade de “não paguei e pronto, que se lixe”. Não estou obviamente à espera que entre por aqui alguém para levar os Jerónimos como colateral mas também é irrealista pensar que sairiamos duma situação dessas sem qualquer problema que amanhã o sol levanta-se de novo.

    Comentário por Nuno Branco — Novembro 20, 2009 @ 15:49

  7. Caro Nuno Branco,

    Isso é verdade porque o sistema financeiro está (e neste caso específico, ainda bem!) da maneira que está. Tivesse isto acontecido há uns anos, e a Islândia teria beneficiado de linhas de crédito bancário quase imediatas e com baixa penalização do spread.

    Só espero (mas duvido…) que os financiadores e “dependentes” se apercebam que aumentos de lucro com base em aumento de risco não é sinal de bom desempenho.

    Comentário por Carlos Duarte — Novembro 20, 2009 @ 15:57

  8. [...] Nuno Branco @ 19:36 No mesmo dia em que se diz que “não há falências de Estados” num lado a  Forbes questiona se é a Ucrânia a próxima a juntar-se à [...]

    Pingback por A ironia… « O Insurgente — Novembro 20, 2009 @ 19:38

  9. “Se o estado em causa for salvo pelo FMI podemos também contar com a perda de independência em certas politicas que serão ditadas pelo FMI e o governo tem de cumprir à risca se não quiserem ver os fundos a saírem…”

    Meu caro, não consta que a Rússia dependa do FMI. E tão-pouco que esteja falida. Aliás, uma entidade com séculos de existência não desaparece por causa do “deve” e do “haver” dos merceeiros liberais que enxameiam as agências de rating e sucedâneos.

    Comentário por Luís Marvão — Novembro 23, 2009 @ 17:19


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