O Insurgente

Novembro 17, 2009

Vamos ser sérios

Filed under: Diversos — filipeabrantes @ 17:09

Uma das motivações (confessas ou inconfessas) dos homossexuais para se quererem casar é o desejo de aceitação social. Porém, esta aceitação dificilmente acontecerá, apesar de todo o esforço dos militantes da causa e de todas as engenharias que conseguirem impor na legislação. Uma sociedade tende a valorizar práticas que a ajudem a prosperar e a perpetuar-se no tempo. Daí que, desde sempre, o trabalho, o esforço individual ou a entreajuda foram vistos como valores indispensáveis pela generalidade dos membros de uma sociedade. Da mesma forma, tudo aquilo que beneficiava a instituição da Família era estimado e protegido. A educação, a segurança ou a entreajuda entre membros de uma família eram alguns dos pilares que sustentavam a força da instituição familiar. Todas as sociedades foram criando mecanismos que favoreciam a estabilidade familiar. A Família é o núcleo mais básico de uma sociedade. Em todas as sociedades surgiu espontaneamente a instituição do casamento. E, não por acaso, em nenhuma delas se verificou o casamento para duas pessoas com o mesmo sexo. E porquê? Porque, basicamente, a homossexualidade era, e bem, vista como luxúria, como um vício (como o jogo ou as drogas, por exemplo), e sempre foi minoritária. E mesmo se a homossexualidade nem sempre foi criminalizada e combatida (ver Grécia Antiga ou Roma, para citar os exemplos mais conhecidos), nunca foi assimilada à instituição familiar, e muito menos confundida com ela. A homossexualidade, apesar de natural em muitos dos casos, é vista como uma provocação ao restante da sociedade que, espontaneamente, vive para a reprodução e para a procura da prosperidade. Ora a homossexualidade é estéril (como o jogo ou outros tipos de vícios). Os não homossexuais podem (e devem, pois não é crime duas pessoas do mesmo sexo terem relações sexuais) tolerá-la, mas é utópico querer que a aceitem no sentido de a equipararem à heterossexualidade (o normal, na espécie humana).

A insistência por parte dos militantes pelo casamento homossexual reveste-se, assim, de uma particular perversão: sabendo que a grande maioria das pessoas reprova os seus gostos e práticas sexuais (devem saber pois não se cansam de reclamar contra essa “discriminação no dia-a-dia”), insistem na usurpação de uma instituição ancestral, tentando dessa maneira que através do poder político as pessoas se vão desligando dos seus “preconceitos” e passem a aceitar plenamente a homossexualidade. Esta promoção do casamento homossexual é 1. uma provocação imoral à sociedade, e 2. um atentado (mais um) à instituição do casamento.

22 Comentários »

  1. “Uma sociedade tende a valorizar práticas que a ajudem a prosperar e a perpetuar-se no tempo.”
    Há teorias evolucionistas, bem fundamentadas, que sustentam que a homossexualidade, sendo “estéril” como dizes, não desaparece porque precisamente tem o um papel importante na disseminação de um património genético (não vou falar de “sociedade”, porque isso é já um pouco “selecção de grupo”, e esse conceito é, pelo menos, muito discutível). Curiosamente, esse argumento sustenta-se no facto de (até há pouco tempo, claro) os homossexuais não se casarem…

    Comentário por Carlos M. Fernandes — Novembro 17, 2009 @ 17:24

  2. Carlos,

    99% da população não percebe nada de evolucionismo, e o post era sobre aceitação social. :) Mas o que referes é interessante, verdade.

    Comentário por filipeabrantes — Novembro 17, 2009 @ 17:27

  3. “A insistência por parte dos militantes pelo casamento homossexual reveste-se, assim, de uma particular perversão: sabendo que a grande maioria das pessoas reprova os seus gostos e práticas sexuais (devem saber pois não se cansam de reclamar contra essa “discriminação no dia-a-dia”), insistem na usurpação de uma instituição ancestral, tentando dessa maneira que através do poder político as pessoas se vão desligando dos seus “preconceitos” e passem a aceitar plenamente a homossexualidade. Esta promoção do casamento homossexual é 1. uma provocação imoral à sociedade, e 2. um atentado (mais um) à instituição do casamento.”

    É apenas uma questão de habituação, não vejo como pode ser uma provocação imoral a sociedade como refere.

    A segregação racial há uns anos atrás também não era aceite pela maioridade das pessoas, nem por isso deixou de ultrapassada. A percepção “discriminatória” extingui-se com o tempo, é uma questão de tempo.

    Se nada se fizer entretanto, como pode-se alterar percepções ?

    Comentário por GriP — Novembro 17, 2009 @ 17:53

  4. tenho ideia que , para além de alguns benefícios sociais , tipo pensão de viuvez , os gays procuram no casamento o obrigar à fidelidade (nada natural neles. ou num heterossexual até…) conjugal o parceiro. alguma coisa tem de significar que os casamentos entre lésbicas sejam apenas um terço dos casamentos homossexuais , pelo menos em espanha.

    Comentário por mf — Novembro 17, 2009 @ 18:10

  5. Grande post!

    Comentário por LPedroMachado — Novembro 17, 2009 @ 18:26

  6. “Em todas as sociedades surgiu espontaneamente a instituição do casamento. E, não por acaso, em nenhuma delas se verificou o casamento para duas pessoas com o mesmo sexo. E porquê?”

    A minha tese do “porquê” – porque é que duas pessoas haveriam de estabelecer obrigações mútuas quando podem perfeitamente viver bem sem elas?

    Afinal, basicamente o casamento é um contrato com duas alíneas:

    “a) Maria compromete-se a só ter relações sexuais com Manuel durante a vigência do contrato

    b) Manuel compromete-se a reconhecer como seus os filhos de Maria que resultem de gravidezes ocorridos durante a vigência do contrato”

    [Pode haver pequenas variações regionais - na alínea a) nalgumas sociedades poderá ler-se "com Manuel ou com os seus irmãos"; noutras poderá haver uma alinea c) impedindo Manuel de celebrar outros contratos de teor idêntico -mas a ideia base do contrato é esta]

    Ora, se é pouco provável que o Fernando e o Zacarias se engravidem mutuamente, porque razão haveriam de estabelecer obrigações mútuas deste género entre ambos?

    De qualquer forma, a partir do momento em que há testes de paternidade largamente fiáveis, penso que a “instituição casamento” (!= “instituição casal”) deixou de fazer sentido.

    Comentário por Miguel Madeira — Novembro 17, 2009 @ 19:58

  7. Eu penso que o que muitos dos apoiantes desta CAUSA verdadeiramente não querem “casar” ou estão pouco preocupados com o direito a “casar” dos homossexuais. Muita desta gente (os modernos) quer é acabar com o casamento o que em boa parte já conseguiram. Se pensarmos bem, que significado ou consequências tem optar por casar ou viver um relação conjugal mais ou menos “de facto”? Coisa diferente será para os seguidores de preceitos religiosas sobre a questão. Na realidade a “Instituição” está praticamente esvaziada de conteúdo. Por mim acho isto, não estão a dizer que goste ou desgoste, aliás, estou-me borrifando!

    Comentário por Luciano Gomes — Novembro 17, 2009 @ 20:06

  8. Em bom rigor, nem sequer a obrigação de fidelidade constitui hoje em dia um motivo para as pessoas se casarem. Desde 2007 que a violação dos deveres conjugais não tem qualquer consequência (leia-se: sanção) legal, razão pela qual o casamento já não garante a quem se casa qualquer estabilidade, para além daquela que resulta da simples vontade de os cônjugues continuarem um com o outro.

    Eventualmente, os benefícios para alguém se casar são todos eles extrínsecos ao conceito do contrato de casamento, derivando de políticas sociais que os sucessivos governos atrelam àquele. Por outras palavras, são “fringe benefits” de uma situação jurídica, a de casado, que, por exemplo, num Estado Liberal deixariam rapidamente de existir.

    A luta dos homossexuais é, pois, meramente simbólica: a de obter um reconhecimento legal que provavelmente não terá tradução num reconhecimento social. Daí que actualmente, revendo a minha posição anterior, seja contra o casamento entre homossexuais. Continuo, isso sim, contra a desigualdade em matéria de herança e indemnização por morte do parceiro, desigualdade essa que pode facilmente acabar instituindo-se a união civil, à imagem do que acontece em Inglaterra.

    Comentário por José Barros — Novembro 17, 2009 @ 22:07

  9. Boa noite. Sublinho que a História da Sexualidade no mundo antigo está um pouco mal contada. Nos alvores do império romano as práticas homossexuais não eram bem aceites e se não me engano implicavam condenação à morte. Mais tarde, algures nos dois séculos após Cristo, com um aumento da influência da cultura grega a tolerância aumentou, mas com o crescimento do Cristianismo no século IV DC a homossexualidade voltou a ser punida. Quanto à Grécia Antiga, existem indícios de que era uma prática mais restrita às elites de Atenas e de outras cidades-estado, mas pouco disseminada fora destes círculos, e nem sempre consensual. Sublinhe-se ainda que na Grécia Antiga os homens livres na idade adulta estavam obrigados a casar com uma mulher e a constituir família. Já Egipto Antigo existem indícios de que a homossexualidade era alvo de troça. Havia sim mais abertura nestes povos do que houve à posteriori na Idade Média, mas não existia uma aceitação tão generalizada como se tenta hoje em dia transmitir. Li há alguns meses uma História da Sexualidade no Mundo Antigo mas já não me recordo bem de alguns dados, peço desculpa se fui menos preciso nalguma informação. De resto, concordo com tudo o que diz no post.

    Comentário por Luís — Novembro 18, 2009 @ 01:45

  10. Luís, obrigado pelo seu testemunho. Não sendo eu (nem de perto) um especialista neste assunto, sempre me pareceu estranha a tese de que algures no tempo uma prática como a homossexualidade tivesse sido aceite pela sociedade. Simplesmente não fazia sentido, pela explicação que dou no post.

    Um bom vídeo que resume a situação que ocorria na Grécia: http://www.youtube.com/watch?v=aHk9JoXoBMY

    As elites são sempre mais propensas para actividades luxuriosas e para a prática de imoralidades (dado ao facto de que o ócio – mais verificado em elites governantes sustentadas – propicia o vício, como é sabido). Antes, como hoje.
    Mais, nas classes mais pobres, a necessidade da solidariedade familiar é maior do que nas classes mais altas. É por isso perfeitamente compreensível que haja uma moral anti-homossexualidade mais disseminada na população (no “país real”) do que em elites residentes nas grandes cidades por exemplo.

    Comentário por filipeabrantes — Novembro 18, 2009 @ 02:02

  11. 1) Só considera que o casamento homosexual é “1. uma provocação imoral à sociedade”, quem de facto considera que a homosexualidade é imoral em si mesma. Claro que este argumento é homofóbico, mas também é obvio que agora eu vou ser acusado de ser intolerante porque sublinho que o Filipe é homofóbico.

    2) “Uma sociedade tende a valorizar práticas que a ajudem a prosperar e a perpetuar-se no tempo. Daí que, desde sempre, o trabalho, o esforço individual ou a entreajuda foram vistos como valores indispensáveis pela generalidade dos membros de uma sociedade.”

    Os gays, os padres, as pessoas estéreis e muitas pessoas que simplesmente decidem não deixar descendência fazem tão parte da sociedade como os casais heterosexuais. A contribuição de um indivíduo para a sociedade vai muito para lá da sua contribuição para o gene pool da humanidade. Se nunca ouviu falar no que é um “meme”, investigue. É muito fácil compreender que um gay pode ser influente sem deixar descendência. Um exemplo flagrante : Alan Turing decifrou o código das máquinas enigma e com isso deu a vitória da segunda guerra mundial às forças aliadas. Sem ele, viveríamos num mundo diferente. Alam Turing era gay, e ao terminar a segunda guerra mundial foi condenado a uma terapia para “curar” a sua homosexualidade. Na sequência dessa “terapia”, Alam Turing morreu.

    Mesmo que o Filipe não o saiba, o Filipe e a sociedade devem muito a muitos homens e mulheres que não procriaram. E não lhes devia estar menos grato por isso. Mas o Filipe não só não está grato, como não os tolera. Se calhar, gostaria de os curar.

    Comentário por Ricardo — Novembro 18, 2009 @ 09:35

  12. A tese aqui defendida tem muitos pontos de concordância com um comentário que deixei há dias no Blasfémias, pelo que só posso estar de acordo.

    Foi isto que escrevi no Blasfémias:

    “A exigência do casamento gay tem origem, como se tem visto, nos homossexuais que gostam de ostentar publicamente a sua tendência sexual.

    Eles desconfiam, provavelmente com razão, que os heterossexuais, por maior que seja a tolerância demonstrada, não deixam de os considerar pessoas anormais. É de admitir que alimentem algum desejo de vingança, procurando perturbar o mais possível a vida dos heterossexuais.

    As patetas e ruidosas marchas de “orgulho gay” inserem-se nesse objectivo. E a campanha do casamento gay também, pois não tem outro propósito senão perverter a instituição casamento, até agora reservada aos heterossexuais.

    Mas os homossexuais sabem que, mesmo obtendo uma vitória nesta campanha, não será por isso que os heterossexuais vão passar a considerá-los pessoas normais.

    Portanto, a campanha continuará, com outras exigências. Por exemplo, um dia destes ainda vão exigir a extensão da lei das quotas de forma a que as listas de deputados incluam obrigatoriamente uma parcela de homossexuais.

    Aceitar o casamento gay é abrir a porta a uma série de problemas artificiais, que os heterossexuais, que laboriosamente cumprem as leis da mãezinha Natureza, não têm necessidade nem obrigação de aturar…”

    Comentário por Patrício — Novembro 18, 2009 @ 10:38

  13. Pensando um pouco na questão, qual é exactamente o prejuizo para a sociedade que a homossexualidade (ou a heterossexualidade não praticante) representa? Ou, pondo a coisa ao contrário, qual o beneficio para a sociedade da heteressexualidade praticante?

    Afinal, os únicos “individuos” que são “prejudicados” pela homosexualidade são… os individuos que não chegam chegam a existir por os seus potenciais pais serem homossexuais – nenhum individuo real é prejudicado pela homossexualidade (apenas “individuos virtuais”).

    Se considerarmos que o bem-estar de uma sociedade corresponde ao bem-estar dos individuos reais que a integram, não me parece que a homossexualidade afecte o bem-estar da sociedade.

    Comentário por Miguel Madeira — Novembro 18, 2009 @ 11:03

  14. Caro Filipe e Comentadores

    Vejam só ao que estes recentes debates chegaram, e não apenas este aqui: definir uma pessoa pela sua orientação sexual. Além de absurdo, é reducionista, pouco saudável, insensato e abusivo.
    E mesmo que não se tenha disso consciência, acaba por ser uma consequência.

    Outra conclusão abusiva é meter tudo no mesmo saco: as identidades e comportamentos individuais são bem mais complexos do que se quer fazer crer. Há modalidades muito criativas, mesmo dentro da população que se define heterosexual e da população que se define homosexual. E mais, há variantes que não são contempladas, como a bisexualidade. Embora não tenha nenhuma especialidade nesta área, a questão da identidade interessa-me, é complexa e por vezes insólita. Não é linear nem é compartimentável.

    Cada indivíduo adulto deveria ser ancarado, por uma dada sociedade, como autónomo e responsável pelas suas escolhas pessoais, o seu comportamento social, a sua vida afectiva.
    A sociedade apenas teria de assegurar direitos ou normalizar comportamentos dentro de certas balizas razoáveis. É assim que se podem e devem proteger crianças, menores, etc.
    Mas vivemos numa sociedade em que tudo é espectáculo, em que não se distingue público e privado e onde o estado mete o nariz onde não é chamado.

    Esta proposta recente do casamento entre pessoas do mesmo sexo foi mal introduzido, na forma, na estratégia, no timing. Serve claramente interesses políticos oportunistas. Neste momento, uma clara “manobra de diversão”, mas também faz parte de uma estratégia socialista bem mais abrangente.

    O que podia ser apresentado como um direito legítimo e com a dignidade pretendida, é agora motivo de discussão a níveis impensáveis e com uma desnecessária agressividade.
    Este clima apenas dificulta a aceitação e a tolerância da população em geral, que aliás deve estranhar esta turbulência toda, e não penso que vá ajudar numa mudança de mentalidades. Acho até que teve o efeito perverso de reforçar atitudes e posições extremadas.

    Onde está aqui defendido o direito de cada indivíduo se realizar plenamente em todas as áreas da sua vida? Não é esse o objectivo essencial? Se quer viver com outro adulto e quer formalizar a relação, não se trataria apenas de ver contemplados, nesse contrato de união, os direitos que pretende? E para isso não bastaria uma reavaliação das uniões de facto, à luz da constituição?
    Mas não é exactamente isso que se pretende aqui. É muito mais.

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 18, 2009 @ 13:12

  15. Se considerarmos que o bem-estar de uma sociedade corresponde ao bem-estar dos individuos reais que a integram, não me parece que a homossexualidade afecte o bem-estar da sociedade. – Miguel Madeira

    De acordo. Mas também não vejo em que a proibição do casamento afecte os homossexuais. Isto porque os direitos que são negados aos homossexuais não dependem do casamento, são dele autónomos e podem ser reconhecidos sem que isso passe pela legalização dos casamentos gays. Donde, tudo se resume a uma questão de definição de uma instituição, ao fim ao cabo, uma matéria que poderá incomodar os que já são casados, em razão da desvalorização do casamento, mas dificilmente aqueles que ainda não se casaram, sejam eles hetero ou homossexuais. Quem ainda não se casou não tem expectativas que sejam juridicamente tuteladas em relação ao significado de um compromisso que ainda não estabeleceu.

    Comentário por José Barros — Novembro 18, 2009 @ 13:50

  16. Luís Pedro Machado,

    Eu disse que não tinha nem tinha deixado de condenar a poligamia ou o incento porque de facto não o tinha feito no post. Acho imoral o incesto, como a homossexualidade. Em si mesmos. (quanto à poligamia tenho dúvidas, mas tendo a achar que não)

    Comentário por filipeabrantes — Novembro 18, 2009 @ 14:53

  17. *incesto

    Comentário por filipeabrantes — Novembro 18, 2009 @ 14:54

  18. E sai um grande pontapé na antropologia! A cristalização que o Filipe põe no modelo actual de família faz-me lembrar a cristalização dos mecanismos de sobreviência pelos criacionistas. Toda a evolução do homem (evolutivo e social) é esquecida.

    Comentário por nuno vieira matos — Novembro 18, 2009 @ 17:14

  19. o José diz que já não há obrigação legal relativamente a obrigações conjugais tipo fidelidade. e diz bem. mas continua a haver a obrigação social ou simbólica ou até de “direito consuetudinário ” ( o mais acertado e a mais importante até o estado meter o nariz onde não lhe diz respeito ) que associa casamento a fidelidade. e posso ser burra , mas não desisto da associação entre casamento e travão à promiscuidade. pretensão vã , acho , que a natureza não vai lá com leis. é preciso ter muito cuidado com o que se deseja , não vá o feitiço virar-se contra o feiticeiro , e neste caso , do casório , acho que os gays se vão arrepender até dizer chega: de relações sem pré formas vão mergulhar no mundo do formalismo. os deuses tenham piedade deles.

    Comentário por mf — Novembro 19, 2009 @ 00:49

  20. mas continua a haver a obrigação social ou simbólica ou até de “direito consuetudinário ” ( o mais acertado e a mais importante até o estado meter o nariz onde não lhe diz respeito ) que associa casamento a fidelidade. e posso ser burra , mas não desisto da associação entre casamento e travão à promiscuidade – mf

    Mas essa expectativa social de fidelidade também existe na união de facto ou até no namoro.

    A verdadeira ou, ou se quiser, significativa diferenciação entre o casamento e outros tipos de relacionamento (união de facto, namoro) residia principalmente na existência, no primeiro caso, de obrigações legais que os cônjugues assumiam e cujo incumprimento era sancionado. Deixando de haver atribuição de culpas no divórcio – isto é deixando de ser sancionado o incumprimento dos deveres conjugais – o casamento deixa de se diferenciar significativamente de outros relacionamentos como a união de facto ou até o namoro.

    Tanto mais assim quanto, não só o casamento é equiparado à união de facto, como esta àquele (em matéria de pensões, arrendamento, etc…). Hoje em dia, as diferenças resumem-se ao direito à herança, porque até o direito de indemnização por morte consta da nova lei das uniões de facto que o PS quer aprovar (e que foi vetada pelo Presidente há pouco tempo).

    É, aliás, esse o problema e a grande contradição da esquerda nesta matéria: grande parte da argumentação que existiria para aceitar o casamento homossexual – em particular, a assunção livre de obrigações mútuas que, quando violadas, fossem punidas – foi, em grande medida, aniquilada com a última reforma do divórcio. É que a diferença maior entre o casamento e a união de facto residia precisamente no sancionamento do incumprimento dos deveres conjugais, deveres esses que não existem na união de facto. E, por outro lado, se a união de facto oferece os mesmos direitos (com a excepção do direito à herança), a discriminação dos gays é resumida pelos sucessivos governos do PS ao mínimo dos mínimos. Para quê casar? E que discriminação subsiste se tudo aquilo que os gays pedem já têm por via das uniões de facto homossexuais? O direito à herança resolve-se com as uniões civis (não massacremos mais as uniões de facto) e quanto ao casamento, tratando-se de uma questão de mera definição social de uma instituição, deixemos que a maioria resolva em referendo.

    Comentário por José Barros — Novembro 19, 2009 @ 02:19

  21. Eu percebi tudo o que disse. Mas o José fala no plano formal.
    o José tem de vestir a pele de um homo para os perceber. não são tão palermas para achar que qualquer mecanismo legal vai fazer com que sejam aceites mais do que já são . Tem de ser qualquer coisa lá na relação deles que os faz gritar por casamento. Eu acho que pensam que casamento vai transformar um deles em mulher. naquela coisa de mulher ser fiel a um homem. não vai. que nós somos únicas.
    Tenho sincera pena pena deles : estão excluidos da fusão do masculino e feminino , jamais experimentarão a fusão na unidade. por isso : casem-se à vontade , se isso os aproxuima da felicidade.
    ( e , como mulher, defendo ainda mais essa cena , não vá ser que calhe a mulheres de quem gosto -ou a mim- um homo mal resolvido para marido)

    Comentário por mf — Novembro 19, 2009 @ 03:15

  22. Achei o post bastante moderado, apesar de discordar de alguns pontos.
    Concordo consigo quando dá a entender que os homossexuais pretendem apenas a aceitação social da sua homossexualidade; tanto concordo como detesto essa tentativa parva de querer espalhar a sete ventos que se é homossexual, e que por isso se merece ser vitimizado e ajudado. Agora talvez seja boa altura de dizer que eu próprio sou homossexual.

    E aquilo que pretendo é o seguinte:

    - Quero ver a minha profissionalidade reconhecida, independentemente da minha vida pessoal, que tenho o direito a exigir que se mantenha privada;

    - Quero que os direitos que tenho sejam respeitados, e esses direitos passam fundamentalmente pelo respeito à minha pessoa enquanto indivíduo. Não me interessa que sejam contra a homossexualidade (uma coisa que acho que não tem lógica, seria semelhante a dizer que eu sou contra pessoas morenas), ou se a considerarem imoral e blasfema. O que me interessa é que me reconheçam a legitimidade de ter direito a fazer o que bem entender comigo, desde que tal não prejudique terceiros, obviamente. Gostaria de saber em que é que prejudico alguém se for para a cama com outro homem, com consentimento.

    - Quero ter direito, assim como os heterossexuais têm, a estabelecer um contrato com outra pessoa com quem queira partilhar a minha vida, de maneira a poder ter acesso às mesmas regalias em termos económicos que os casais heterossexuais. Não me interessa o nome; tanto pode ser casamento como pode ser “contrato de partilha”.

    - Quero ter direito a adoptar uma criança ou a tê-la através de outros métodos, tais como a barriga de aluguer. Dado que existem estudos que mostram que as crianças são tão bem educadas por casais hetero como por casais homossexuais, não existem razões que levam à proibição de adopção por casais homossexuais. Quanto ás barrigas de aluguer, o corpo da mulher pertence-lhe, devendo ela ter o direito que bem quiser sobre o próprio corpo, incluindo o seu “aluguer”.

    - Quero ver dados sobre a homossexualidade verdadeiros, devendo as mentiras que são ditas serem consideradas como tais. As mentiras que me parecem mais prejudiciais são a associação entre a homossexualidade e a pedofilia, ou a afirmação de que a homossexualidade é uma doença. Se quiserem considerar isso, força; mas sujeitem essas hipóteses à verificação e à falsificação para ver se aguentam. Como não aguentam, devem ser rejeitadas, como qualquer outra teoria.

    Estes direitos, muito resumidos, são aqueles que considero mais importantes. E acho importante dizer que não me parecem ser prejudiciais ao resto da sociedade.

    Agora uma pequena correcção ao post: a heterossexualidade não é valorizada em todas as culturas. Existem diversas culturas onde a bissexualidade é a regra e a heterossexualidade a excepção; existem culturas onde a homossexualidade é incentivada; existem culturas onde poligamia é considerada normal, ao contrário da monogamia. A sexualidade humana não é, portanto, tão linear como deixa a entender.

    Comentário por N. — Agosto 4, 2010 @ 17:06


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