O deputado do Partido Socialista, João Galamba, criticou o meu post anterior. Diz o João que nós não sabemos o que realmente está nas escutas, e que portanto, não cabe a Sócrates defender-se daquilo que elas pretensamente o indiciam, mas sim à Justiça esclarecer-nos do seu conteúdo. Diz ainda o João que a Justiça fez este Sábado o esclarecimento que tinha a fazer, dizendo que havia indícios de crime nenhum.
Há uma coisa em que o João tem razão: nós não sabemos se o teor das conversas de Sócrates com Vara é ou não aquele que foi relatado nos jornais. Por isso mesmo eu escrevi que “a confirmar-se que elas dizem o que se diz que dizem, elas são suficientes para nós sabermos que Sócrates mentiu ao Parlamento, para sabermos que interferiu em negócios privados, e para sabermos que usa o poder para o qual foi eleito para dar “ajudas” a “amigos” como “o Joaquim”.” Ou seja, se aquelas conversas não forem verdadeiras, então, nada há a censurar no Primeiro-Ministro. Ora, tanto quanto julgo saber, ninguém desmente o teor das conversas. O que o Primeiro-Ministro nega é que elas sejam reveladoras de práticas duvidosas.
O que nos conduz ao “esclarecimento” feito pela “Justiça” neste Sábado: ao contrário do que o João diz, a Justiça não se pronunciou. pronunciou-se um intérprete da Justiça. Um intérprete autorizado (pelo Estado de direito) a interpretar a Justiça e a fazer valer a sua interpretação, mas um intérprete nonetheless. pode haver quem ache (há quem ache) que essa sua decisão é errada, e que existem nessas escutas (cujo conteúdo, mais uma vez, não foi desmentido, pelo menos que eu saiba) indícios de práticas mais duvidosas.
Mas admitamos que Pinto Monteiro tem razão ao considerar que elas não revelam qualquer indício de qualquer crime. Isso, mais uma vez, não nega que Sócrates não tenha dito o que se diz que ele disse. E se ele tiver dito o que se diz que disse (e nem ele próprio o nega: não é preciso ter-se “conhecimento oficial” para se ter conhecimento) então nós, cidadãos comuns, eleitores, devemos ter isso em consideração. Algo com que o próprio João galamba concorda, quando diz que “em certas circunstâncias, a legalidade da coisa passa para segundo plano, ou melhor, torna-se irrelevante; a legalidade não anula todos os factos.”
Ora, é precisamente isto que o Daniel Oliveira, que também criticou o meu post, contesta. Diz o Daniel que “a legalidade da utilização das escutas é, por enquanto, tudo o que me interessa”: “se eu colocar microfones na casa de Bruno Alves; se violar a sua caixa de correio e abrir-lhe a correspondência; se entrar no seu computador para ler os seus documentos e descobrir os sites que visita; e se, depois disso, tiver imensas coisas para dizer sobre a pessoa em causa, não se atrevam a querer discutir a moralidade e a legalidade do que fiz. Perante o que eu possa dizer sobre o Bruno Alves, isso será completamente irrelevante e secundário.”
Se o Daniel fizer isso tudo, terá tudo menos coisas interessantes a dizer sobre a minha pessoa. Levo uma vida francamente desinteressante, e pior do que ser eu, só mesmo ser a pessoa responsável por me vigiar 24 horas por dia. Mas esqueçamos isso, e imaginemos que eu sou um verdadeiro Tony Soprano, apenas com os meus 50 quilos de peso e neuroses mais graves. O facto de o Daniel cometer uma imoralidade ao escutar-me ilegalmente não apaga a minha imoralidade ao ser um líder de uma organização mafiosa. O nosso vizinho não me poderá pôr em tribunal, mas pode (e deve) pensar que será condenável associar-se a mim.
Diz o Daniel que se discutirmos o teor de escutas ilegais, e das quais não temos a certeza do seu teor, estaremos a pôr em causa conquistas que não deveríamos arriscar perder. Ele esquece-se que, se esse teor for verdadeiro, essas conquistas já estão em grande parte perdidas. E ao contrário do Daniel, eu não acho isso secundário.
Este caso é dos tais que, ligando ao primeiro artigo, nos faz pensar como o Estado, e todos os poderes que ele associa e acolhe, é uma fonte, se não de todos, de muitos dos males.
Porque chegou afinal o braço do sr. Manuel Godinho tão longe?
Ver a minaha opinião em “Últimas” : A verdade da Mentira
http://classemedia.biz
Comentário por classemediabiz — Novembro 17, 2009 @ 09:20
“a Justiça não se pronunciou. pronunciou-se um intérprete da Justiça. Um intérprete autorizado (pelo Estado de direito) a interpretar a Justiça e a fazer valer a sua interpretação, mas um intérprete nonetheless”…
Bruno Alves: e quem é num Estado de Direito “a Justiça” senão o intérprete autorizado pelas regras desse Estado de Direito? Você? Um jurista que defenda as teses que você gosta? Ou aquele a quem as regras do Estado de Direito atribuem a competência para o fazer, ainda que você não goste da sua interpretação?
O ódio ao Sócrates leva gente como você a pôr em causa o Estado de Direiro. Ou então pura e simplesmente nunca o defenderam, proque na vossa sanha moralista preferem o poder absoluto, o totalitarismo em nome da virtude. Deus nos livre de gente semelhante, mil vezes Churchill com os seus vícios do que “Adolfos purificados”
Comentário por Luís Vicente — Novembro 17, 2009 @ 12:45
“O facto de o Daniel cometer uma imoralidade ao escutar-me ilegalmente não apaga a minha imoralidade ao ser um líder de uma organização mafiosa. O nosso vizinho não me poderá pôr em tribunal, mas pode (e deve) pensar que será condenável associar-se a mim.”
Se as informações obtidas não admitidas legalmente, quem lhe garante que são verdade? Isso é um bom argumento para sustentar todo o tipo de calúnias, baseando-se em supostas descobertas. É óbvio que é impossível ignorar essas informações, mas não me parece legítimo julgar sem nenhum tipo de confirmação.
http://en.wikipedia.org/wiki/Killian_documents_controversy
Comentário por AP — Novembro 17, 2009 @ 13:08
“Diz o Daniel que se discutirmos o teor de escutas ilegais, e das quais não temos a certeza do seu teor, estaremos a pôr em causa conquistas que não deveríamos arriscar perder. Ele esquece-se que, se esse teor for verdadeiro, essas conquistas já estão em grande parte perdidas. E ao contrário do Daniel, eu não acho isso secundário.” Brilhante! Mas será que o Daniel e o JG percebem o alcance deste parágrafo…duvido.
Mas tentarei ilustrar com um caso imaginativo: A Policia da Republica das Bananas está a escutar legalmente um suspeito de tráfico de influências e corrupção activa. Acontece que esse cidadão é por mero acaso amigo do Presidente da tal Republica das Bananas. Numa dessas escutas aparece o referido Presidente a dizer que quer uns milhões de euros para aprovar um projecto. Ora, segundo os srs. JGalamba e DOliveira, este trecho devia ser simplesmente ignorado e apagado. Mais, se por acaso fosse tornado público devia-se centrar na discussão das conquistas de Abril e não no crime em si.
Só uma pergunta, quão mais fundo querem os meus putativos senhores que esta nação se enterre mais?
Comentário por antónio — Novembro 17, 2009 @ 14:34
Se em vez de abordar ajudas ao amigo Joaquim e a Noticiários incómodos, o cidadão José Sócrates, tivesse confessado a esse amigo ter mandado matar um adversário político. O que se faria com as escutas? Lixo,também???
Comentário por Vítor Maganinho — Novembro 17, 2009 @ 16:44
Caro Luís, eu apenas queria dizer que o dr. Pinto Monteiro não é infalível, que o facto de ele ter uma opinião e de essa opinião ter mais força que as outras pela posição que ele ocupa, não faz dela automaticamente certa. O resto é o senhor a imaginar coisas…
Comentário por Bruno Alves — Novembro 17, 2009 @ 21:55