O debate que esta semana teve lugar no Parlamento, sobre o programa de Governo do executivo Sócrates, e as “análises” que desse debate se foram fazendo na comunicação social, foram (infelizmente) uma pequena amostra do que serão os próximos tempos. O Governo, como de costume, vive no mundo de ilusão que só existe na linguagem propagandística que insiste em nos impingir. Para o Governo, os últimos anos foram um período de incessante sucesso, de grandes “conquistas” e recheado de “momentos históricos”, que só “bota-abaixistas” e “pessimistas” se escusam a aceitar, certamente por “inveja” e “ressentimento”. Os que se seguem serão, a acreditar nas palavras do Primeiro-Ministro, uma continuação da imparável caminhada de Portugal em direcção à “modernidade”.
Sempre que a oposição tem o descaramento de lembrar Sócrates de que a economia está em crise, que o défice derrapou, e que os problemas do país não têm fim à vista, ele ignora a evidência, e acusa os outros partidos de ainda não terem percebido que perderam as eleições. Estes, claro, retribuem a acusação, dizendo ao Primeiro-Ministro que ele é que não percebeu que já não tem maioria absoluta. Mas o que os debates mostraram foi como todos eles perceberam muito bem o que aconteceu nas últimas eleições. A oposição não podia senão perceber que perdera as eleições. E o PS tem a plena consciência de que não governará com a facilidade que encontrou nos últimos quatro anos. É por isso que o debate foi como foi.
Todos os partidos têm a sensação de que esta legislatura não conta. A anterior acabou (o PS já não tem maioria absoluta), mas a actual surgiu num quadro de tão grande indefinição e incerteza (até pela conjuntura económica) que ninguém espera nada de muito relevante enquanto ela durar. O que o debate mostrou foi que os partidos representados no Parlamento encaram esta legislatura como um longo intervalo entre a anterior e a próxima: fora uma ou outra excepção (como a intervenção de Pacheco Pereira sobre a corrupção), o debate não passou de um “jogo de posicionamento” que durará até à convocação de eleições antecipadas, em que o PS se apresenta como um agente de “modernização” que só a “cegueira” do “bota-abaixismo” e da “irresponsabilidade” ousa bloquear, e a oposição acusa o Governo de “arrogância” e, claro, “irreponsabilidade”. Todos sabem que a legislatura não chegará ao fim, e todos procuram que esse destino funesto seja considerado da responsabilidade da outra parte. O problema é que, enquanto os deputados e governantes se divertem a atirar a batata quente de um lado ao outro do hemiciclo, os problemas do país não têm intervalo. Pioram. E salvo essas raras excepções, o Parlamento não os discute. Torna-se inútil. Aumenta a descrença dos cidadãos nos seus representantes. A conta, claro sairá cara para nós. Mas também para aqueles políticos que, de um lado e de outro, optam por ignorar a realidade.
Há uns meses atrás apanhei um autocarro aqui na cidade do Porto. Entrou um passageiro quarentão que começou a conversar com o motorista. Queixava-se que «isto está cada vez pior». Mas o seu maior lamento era o facto de, na sua opinião, «o Estado dar cada vez menos dinheiro ao pobres». E lamentava o facto de Sócrates não ter coragem de tirar aos ricos e redistribuir… O motorista concordava religiosamente… Aqui nos arredores do Porto, na boca do povão, o PSD e o CDS são o «partido dos rrricos»…
Na altura das eleições, tentei convencer a senhora que me limpa o apartamento a votar PSD… em vão… afinal o pai sempre lhe dissera que o PSD era o partido «dos rrricos», e que tinha de votar PS pois este é que ajudava os pobres…A dita senhora recebe o RSI, mais os rendimentos provenientes das limpezas que faz e que não são obviamente declarados…
Recentemente saiu uma sondagem que dava cerca de 38% das intenções de voto ao PS. Obviamente que valem o valem, mas não deixa de ser um sinal que agravar o meu pessimismo. Como Medina Carreira disse ainda esta noite, o nosso endividamento externo aumenta ao ritmo de 2,5 milhões euros por hora. E outro dos convidados, do qual não me recordo o nome, deu umas luzes de como se faz um estudo governamental favorável a uma obra pública (neste caso o Aeroporto de Alcochete). Já não tenho esperança… resta esperar que o barco naufrague e depois logo se vê!
Comentário por Luís — Novembro 8, 2009 @ 00:01
Bruno
Vivemos em plena “sociedade de ficção”, que se alimenta de ficção, que engole acriticamente o que lhe dão, sem sequer mastigar.
Este período histórico será analisado daqui a uns anos com a mais absoluta perplexidade: total ausência do sentido da realidade, da sensatez mais básica, do simples instinto de sobrevivência.
E no entanto, esta “cultura da ficção” conseguiu manter-se durante quatro anos e meio, agora prolongados em mais dois.
Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 8, 2009 @ 12:55
Excelente análise.
Comentário por André Azevedo Alves — Novembro 8, 2009 @ 16:41