O Insurgente

Novembro 3, 2009

Quem tem medo do FMI?

Filed under: Economia,Internacional — Nuno Branco @ 16:17

Há poucos meses atrás tinha sido noticiado que o FMI pretendia ver-se livre de uma parte substancial das suas reservas de ouro para financiar os “planos de salvamento” de algumas economias mais frágeis. Houve, compreensivamente, algum receio nos mercados do que isto faria para baixar o preço do ouro (cotado em USD).

Existem na minha óptica várias ameaças à escalada do ouro, mas logo na altura tive oportunidade de dizer que esta seria a que menos me preocupava, viessem estas vendas do FMI ou de um qualquer tresloucado de um banco central, pois seriam rapidamente absorvidas por países que sentem cada vez mais a necessidade de diversificar as suas reservas.

Hoje o ouro faz novo máximo histórico nos $1080, um dia depois de a Índia anunciar que, só eles, vão ficar com metade das 400 toneladas que o FMI quer despachar. A China e a Russia serão outros dois países eventualmente interessados em resolver o “problema” do FMI.

6 Comentários »

  1. Uma excelente leitura complementar sobre a recente subida do ouro: http://seekingalpha.com/article/170475-gold-is-not-in-a-bull-market?source=email

    Comentário por António Baptista — Novembro 3, 2009 @ 19:24

  2. O Jon Nadler é uma pessoa que me faz bastante confusão. É analista para um dos maiores dealers de ouro da américa do norte mas cada vez que leio comentários dele é um perma-bear nos metais – parece que não quer vender o produto. Na minha óptica ele está a fazer um estudo de supply & demand como se estivesse a falar de petróleo ou de carne de vaca, e não é a mesma coisa, ouro é um metal monetário por muito que custe a alguma gente e não pode ser avaliado da mesma forma.

    Dito isto também eu tenho as minhas reticências, tal como disse no artigo, à subida continuada do metal.

    Comentário por Nuno Branco — Novembro 3, 2009 @ 20:01

  3. Também já o acompanho há algum tempo e de facto ele é quase sempre céptico a subidas no ouro, no entanto o facto de ter interesses em jogo e mesmo assim ser do contra faz com que seja relativamente insuspeito na análise que faz. Concordo que o ouro não obedece (só) a leis de procura e oferta física mas ele também faz a análise de outros factores que continuam a faltar para suportar uma verdadeira e consistente subida do metal.
    Enfim… será interessante acompanhar a evolução futura mas é sempre bom ter um insight algo “refrescante” tendo em conta a verdadeira enxurrada de propaganda pró ouro que nos bombardeia por estes dias. Curiosa a última resposta dele com a cabana e Uzi caso os preços chegassem ao nível que os militantes do ouro falam.

    Comentário por António Baptista — Novembro 4, 2009 @ 00:51

  4. Obviamente que o ouro obedece à lei da procura e da oferta, não é nenhum ser de outra galáxia que misteriosamente se recusa a respeitar as leis económicas. O meu problema é a maneira como essa procura/oferta é analisada por muitos analistas (inclusive os bulls) em que analisam o ouro como se fosse uma commodity qualquer. Vamos ter como exemplo 2008 em que se produziram 2500 toneladas de ouro, os analistas vão olhar para os consumidores de jóias e para os festivais indianos para saber se consomem ou não 2500 toneladas e depois logo se decidem se ficam contentes ou não.

    Problema: a oferta de ouro não são 2500 toneladas, são cerca 160 mil toneladas. Porquê? Porque a oferta de ouro que amanhã está no mercado não tem nada a ver com o que foi minado ontem ao contrário do que se passa com o petróleo e a carne de vaca este ouro não é consumido. Se fores casado e tiveres uma aliança no dedo podes ter sido “consumidor” de ouro no ano em que te casaste, a partir daí passas a estar sempre do lado da oferta mesmo que todas as minas do mundo fechem. Certamente que se amanhã o ouro estivesse a 1 milhão de euros a onça muitos casais arranjariam forma de vender as alianças e comprar umas de platina ou outra coisa qualquer. Na realidade os analistas usam um número para a oferta que é cerca de 1.56% da oferta real.

    O caso mais emblemático será talvez o da prata (que tem umas particularidades porque além de ser metal monetário tem muitas aplicações industriais) nos anos 80 em que o famoso corner de mercado (falhado) levou a prata acima dos $80 por onça. Houve filas enormes de pessoas que pretendiam derreter os seus faqueiros de família disparando a oferta que nada teve relacionado com o output das minas de prata como será claro de ver.

    Portanto os analistas olham para o que é minado, para o que o que “consome” em determinado ano e depois como normalmente a coisa não bate bem com o que estavam à espera colocam umas categorias de investimento/desinvestimento onde justificam porque é que eles estavam certos houve foi uns tipos que eles não estavam à espera que estragaram as contas. Mas para o ano é que vamos acertar… prometemos.

    O ouro tem vindo a desaparecer do mercado e indo parar aos investidores/aforradores privados. Eles também são oferta… quando o preço for o correcto. Enquanto isso, se poderem continuarão do lado da procura, pouco interessados nos festivais indianos, no FMI e nos ourives apenas utilizando este metal como uma forma de poupança de baixo risco. A ameaça mais grave ao preço do ouro que vejo é de um ambiente deflacionário em que estes investidores sejam forçados a vender visto estarem no tal “momento difícil” para o qual pouparam e portanto na hora de vender as suas reservas. Eu sei que a tendência é normalmente para uma hiper-inflação mas não nos podemos esquecer que esta crise é uma reacção à inflação passada e portanto deflacionaria por natureza. Dito isto todos sabemos como os bancos centrais e governos estão a tentar re-inflar a bolha. Agora quantos de nós aqui estamos habituados a ver o Estado fazer qualquer coisa que tenta como deve de ser? Resta saber se falham por excesso (hiper-inflação) ou por defeito (deflação) mas quem acha que vai acertar só aqueles tipos que estimam o comportamento humano através de fórmulas matemáticas.

    Comentário por Nuno Branco — Novembro 4, 2009 @ 09:52

  5. O que eu sei é que o BP vendeu há poucos anos toneladas que agora valeriam mais do dobro…

    Comentário por Lusitânea — Novembro 4, 2009 @ 12:56

  6. Muito bom insight Nuno, realmente não tinha pensado na oferta de ouro dessa forma e faz todo o sentido. Quanto às vendas do BP, há que recordar que sob a tutela de Gordon Brown, o tesouro do Reino Unido vendeu cerca de 60% do ouro que tinha em posse entre ’99 até ’02 ao preço médio por de $275 por isso há quem tenha maior razão de queixa nesse aspecto.

    Portugal continua a contar por estes dias com a 16ª reserva de ouro a nível mundial e que vale mais coisa menos coisa e a estes preços cerca de 9000 milhões de euros (que chegaria para pouco mais do que pagar o nosso défice só de este ano). De notar também que nas nossas reservas de moeda estrangeira, o ouro corresponde a mais de 90% (!) da sua totalidade que é o valor mais alto de todo o mundo em proporção pelo que estamos muito pouco diversificados, o que não é necessariamente mau tendo em conta que as moedas fiduciárias sejam elas quais forem não são propriamente a melhor reserva de valor.

    Comentário por António Baptista — Novembro 4, 2009 @ 19:50


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