O Insurgente

Novembro 3, 2009

O socialismo amarra o pluralismo

Filed under: Diversos — Rodrigo Adão da Fonseca @ 12:55

Uma das maiores mistificações do socialismo está na forma como se considera, arrogantemente, dono do pluralismo, quando a realidade nos demonstra exactamente o contrário.

mão invisível permite uma combinação de soluções que respeita integralmente as preferências de cada um. A decisão estatal em alguns domínios pode ser necessária; agora, ela é por definição burocrática e, quanto mais centralizada, mais sacrifica as preferências individuais, para as agregar numa vontade colectiva que, por definição, tende para se exprimir por sínteses. Estas sínteses, em muitas situações, reduzem-se em decisões de sentido único, de aplicação a todo um universo de cidadãos, que prescindem das suas preferências, para que se conformarem numa estranha ideia de “bem comum”; não é invulgar, até, que a decisão estatal ignore as sínteses dominantes das vontades individuais, desvirtuando aquilo que é o fundamento do seu Poder. E se algumas destas conformações de vontades fazem sentido, v.g., em matérias de segurança – onde a salvaguarda da liberdade pode implicar a sua própria limitação (na linha de Isaiah Berlin) – o mesmo já não ocorre quando a intervenção estatal se afirma em áreas onde, claramente, o respeito pela vontade individual representa o pressuposto da afirmação da sua liberdade (como será o caso, v.g., da educação, ou da cultura).

Um Estado, que detém directamente, por via fiscal, 50% dos recursos gerados na economia, tendo ainda a possibilidade de condicionar, endividando-se, as decisões das gerações futuras, até que ponto é capaz de promover o pluralismo? Será que os agentes deste Estado tão omnipresente se preocupam em assegurar o pluralismo na sociedade, ou em promover agendas próprias?

Será o sistema educativo português substantivamente pluralista? Quais os níveis de pluralismo que se respiram nos nossos media? Não haverá condicionamentos na sociedade civil para quem não esteja disposto a alinhar as suas decisões com a vontade dominante? Computadores Magalhães, TGV’s, os milhões desperdiçados em estradas, tudo iniciativas que se traduzem em mais impostos, serão todas estas decisões estatais, que limitam a capacidade de cada um de nós organizar com os seus recursos os seus planos de vida, manifestações de pluralismo?  

Uma sociedade plural, livre, é aquela que se organiza a partir dos cidadãos; e não de um Estado; que coloca a tutela das decisões junto das pessoas; e não das leis, dos ditames administrativos, de entes burocráticos, ou das vontades gerais que nos impõem caminhos únicos, na educação, na economia. O socialismo, que aspira, com mais ou menos intensidade, a trilhar caminhos colectivos, amarra o pluralismo; pelo contrário, as sociedades mais livres são aquelas que souberam amarrar os socialismos.

3 Comentários »

  1. RAF
    Gostei muito deste post. Mais uma definição perspicaz do Socialismo.
    Já tinha saudades dos seus textos à Dia D, do “antigo” Público, que eu lia com tanto gosto!
    Uma boa semana, sempre a insurgir!

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Novembro 3, 2009 @ 16:41

  2. O Socialismo, quando encarnado em tempos por doutrinas anarquistas, não tinha nada contra o pluralismo. Aliás, o pluralismo só é possível, em toda a dimensão da palavra, com a abolição da propriedade privada: sem este passo, a Igualdade está minada.

    Pode existir pluralismo se não existe Igualdade? Não. O Liberalismo com propriedade é tão opressor como o Socialismo com Estado; no primeiro é a lei do mercado que impera, no segundo a burocracia, como bem fez notar neste texto.

    Alguns liberais adoram citar anarquistas, sobretudo essa vaga que adora o Ron Paul, mas esquece-se do fenómeno da propriedade. Tirando isso, estou de acordo com todo o texto.

    Comentário por — Novembro 3, 2009 @ 17:11

  3. Uma reflexão muito interessante.

    Comentário por André Azevedo Alves — Novembro 3, 2009 @ 23:28


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