Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico
Ao longo deste ano, muitos descobriram que Obama era, afinal, um “realista”, seguindo uma política externa pragmática, de acordo com os preceitos usuais da ‘Realpolitik’.(…)
Ou talvez não. Desde 2006 as ligações políticas, financeiras e militares entre a Venezuela e o Irão têm sido continuamente aprofundadas. O procurador nova-iorquino Robert Morgenthau tem feito avisos repetidos sobre a extensão e gravidade da associação entre Chávez e Ahmadinejad: a Venezuela possui 50000 toneladas de urânio que podem estar a ser vendidas à hierocracia iraniana; o gabinete do procurador dispõe de informação conclusiva do envolvimento do Hezbollah no tráfico de droga sul-americana; algumas instituições financeiras venezuelanas estão na linha da frente do financiamento do terrorismo e da sabotagem de sanções internacionais. Nas Honduras, o anti-judaísmo iraniano passou a integrar a ideologia dos zelayistas. Uma fuga recente de informação no “The Times” revelou o envolvimento directo de cientistas russos no programa nuclear iraniano, algo que tem consequências geopolíticas tremendas e que coloca a Rússia no mesmo plano do Irão em termos da interferência no continente americano. Até agora, o putativo “realista” de Washington não mostrou qualquer capacidade política para desfazer o nó górdio iraniano, premiou Chávez com apertos de mão e fez uma pressão incompreensível sobre um dos raros aliados na América Latina, por se livrar duma tentativa de perversão populista do regime através de meios cuja legalidade e constitucionalidade foram atestadas pela Biblioteca Legal do Congresso dos EUA.
Nenhum “realista” assistiria passivo à ascensão de um neo-bolivarismo violento apoiado pela Rússia e por países islâmicos, ou à obtenção de armas nucleares por um regime terrorista e milenarista. A identidade política de Obama permanece um mistério, enquanto os sinais de tempestade crescem no horizonte.
A atribuição do Nobel da Paz a Obama demonstra-nos que há muitos que gostam de se fazer passar por bonzinhos. Que com muita boa vontade, resolvemos os mal-entendidos que causam os problemas do mundo. Que se não existissem armas, a humanidade já não guerrearia entre si, pois as guerras derivam da tecnologia, nunca do coração dos homens. Do seu mau fundo inato. Homens e mulheres como Obama que acreditam estar o céu cheio de boas intenções, e que essas boas intenções podem transformar a terra onde vivemos.
A vitória de Isaltino Morais e Valentim Loureiro nos respectivos municípios levam-nos a ter em conta duas coisas: Em primeiro lugar, o sentimento de partilha, de pertença a uma comunidade e a responsabilidade individual que daí advém é diminuta. Não há muito mal em ter um presidente que ‘roube’ aos outros, desde que sobre algo para mim. Em segundo lugar, está a pouca consideração que se tem pela Justiça. Isaltino foi condenado a 7 anos de prisão, uma decisão judicial que pouco interessou à maioria dos eleitores de Oeiras. Há muitos anos que os tribunais fazem pouco dos cidadãos. Agora recebem o troco.