O Insurgente

Outubro 9, 2009

Quem tem medo do “neoliberal”? (2)

Filed under: Comentário,Insurgentologia — Miguel Botelho Moniz @ 08:42

Uma utilização muito comum do termo neoliberal é enquanto insulto. O “r” presta-se a um indignado enrolar, ao estilo Louçã, e o prefixo “neo” adds insult to injury, pois nem sequer a coisa se é, mas antes um sucedâneo da mesma.

Um pouco de contexto: Era eu miúdo, por volta de 1979 ou 1980, e fui com uma tia-avó minha ao Pão de Açucar de Cascais, na véspera de Natal, segundo me lembro. Vindos do estacionamento, íamos a caminhar quando a minha tia exclama, «Olha! É o Costa Gomes.»

E era mesmo. O general e ex-presidente estava de pé olhando para os títulos dos jornais pendurados no mostrador da banca que antigamente havia à entrada do referido supermercado. Subitamente, a minha tia acelerou o passo e aproximou-se de Costa Gomes, colocando-se de perfil, como que de passagem. Virou a cabeça na sua direcção e olhando-o de soslaio exclamou: «Seu Porco!» O “r” enrolado extendeu-se pelo que pareceu ser uma eternidade, apesar de terem passado apenas algumas fracções de segundo.

A minha tia virou a cebeça para a frente. Subiu o nariz, agarrou bem a carteira de baixo do braço e entrou no supermercado. Se não “interjeitou”, de facto, um sonoro “humpf” no processo, fê-lo pelo menos figurativamente. Costa Gomes seguiu-a por um ou dois segundos com o olhar, não como alguém a quem deitaram de pára-quedas dentro de um filme dos Monty Python, mas como alguém que estava relativamente habituado a ser deitado de pára-quedas dentro de um filme dos Monty Python, de vez em quando.

Fiquei meio embaraçado, mas com aquela satisfacção infantil de quem vê um adulto fazer algo que não devia. Nunca soube com exactidão as razões da animosidade da minha tia contra o ex-presidente. Presumo que algo que este fez, ou deixou de fazer, durante o PREC. A reacção de aprovação da minha avó materna quando lhe contei o episódio («Fez muito bem!») bastou-me.

Pois “neoliberal” presta-se ao mesmo tipo de insulto indignado, de erres enrolados que rosnam de raiva. Como se fosse possível, imagine-se Milton Friedman a ler o jornal. Do estacionamento vem Naomi Klein, que em vez de ter a minha idade tinha idade para ser minha tia-avó e falava português de gema. Aproxima-se e exclama «Seu neoliberrrral!»

Estão a ver a coisa.

Ver também: Quem tem medo do “neoliberal”?

4 Comentários »

  1. “Estão a ver a coisa.”

    Para falar a verdade, não… (suspeito que o fenómeno do “r enrolado” vs. “r desenrolado” não ocorre na pronuncia de Portimão).

    Comentário por Miguel Madeira — Outubro 9, 2009 @ 10:43

  2. Pois, Miguel, em Portimão devem incluir um “i” no fim, certo, “seus neoliberali”…

    Comentário por Diana Mantra — Outubro 9, 2009 @ 11:30

  3. O Miguel Botelho Moniz – a quem os neoliberrais chamam “Migas” – devia ter sido privado do convívio com a sua tia avó, e entregue à tutela de um casal gay que, como todos sabemos, são muito mais habilitados na educação das crianças…

    Comentário por Diana Mantra — Outubro 9, 2009 @ 11:32

  4. “extendeu-se” ?

    “satisfacção” ?

    Pena é que a tia-avó, em vez de insultar as pessoas com quem se cruzava na rua, não tenha ensinado o menino a escrever.

    Comentário por A. Trigueiro — Outubro 9, 2009 @ 15:32


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