O Insurgente

Outubro 1, 2009

Só uns esclarecimentos

Filed under: Diversos — Luciano @ 16:06

São só uns esclarecimentos, até porque tenciono não voltar ao assunto, a menos que nova crise se precipite. Como sou um espírito zen, acho que não me vou aborrecer com certas coisas.

Já reparei que muitos dos que aparecem procurando desculpar Cavaco, começam pelo intróito: “eu não sou cavaquista, mas…” Pois eu tenho a dizer que, não sendo cavaquista encartado (digamos assim), sou certamente dos mais antigos defensores de Cavaco, já do tempo de primeiro-ministro e, não tendo passado pela etapa iniciática do Pulo do Lobo (o blogue), apoiei-o e votei nele para Presidente, dentro dos limites do meu entusiasmo e das minhas modestas capacidades.

Eu não acho que Cavaco tenha ensandecido e não acho que esteja acabado. Também acho que aquilo que fez é muito do seu interesse. O que tenho dúvidas é:

1 – Que seja do interesse do PSD e do CDS. O PSD e o CDS têm interesse em construir um corpo programático e em encontrar um espaço que os insira de forma eficaz no panorama político português. Não têm interesse em histórias obscuras, de eventos que não se sabe se realmente tiveram lugar, nem de que maneira, nem com que protagonistas. Se há uma razão para não andar a reboque desta história é uma e muito simples: ninguém sabe o que realmente se passou, a não ser os seus protagonistas. Como eles não nos vão dizer (pelo menos não dizem a mim), eles que resolvam o problema. E há outra razão, que é a do ponto seguinte.

2 – Que seja do interesse do país. O país não precisa de uma querela institucional entre Presidente e governo. A pergunta é: porquê e para quê? Alguém que me responda. Digamos que no final do conflito se muda a natureza do regime. Alguém é capaz de me dizer se será para melhor?

Em suma: na minha opinião a hora é de trabalhar, apanhar os cacos e fazer alguma coisa de novo. Não é de seguir às cegas um caminho, só porque lá ao fundo uma voz encantatória (se assim se pode dizer…) diz: “vem”.

Não queria acabar com um conselho, mas acho que vai ter de ser: eu não iria por aí. Mas como não estou na cabeça de ninguém e não mando na cabeça de ninguém, não posso (nem quero) fazer nada contra isso. É para isto que servem as escolhas. Elas depois têm é consequências, e eu acho que não iria gostar de muitas das que esse caminho oferece. Quanto ao mais, do as you wish.

6 Comentários »

  1. De acordo Luciano.´
    Só discordo de parte do ponto 2. Acho que o semi-presidêncialmismo levou a machadada final.

    Comentário por Miguel — Outubro 1, 2009 @ 16:39

  2. Talvez. Não consigo adivinhar. Mas se for verdade, o que lhe sucederá?

    Comentário por Luciano — Outubro 1, 2009 @ 16:53

  3. Aí entramos no campo das preferências. Eu prefiro o presidencialismo. Convém de uma vez por todas separar os poderes legislativo e executivo.

    Comentário por Miguel — Outubro 1, 2009 @ 17:05

  4. O Luciano Amaral acerta na mouche, como quase sempre.

    Comentário por Miguel D — Outubro 1, 2009 @ 17:45

  5. O semi-presidencialismo não acaba por decreto.

    Seria necessário uma dupla revisão constitucional, para a qual seriam necessárias maiorias qualificadas ou uma ruptura constitucional, sendo que, em ambos os casos, estamos perante cenários de fantasia, considerando que nenhum dos partidos está disposto a mexer uma palha relativamente ao assunto e que Portugal é, infelizmente, uma democracia de partidos.

    Quanto à direita, não creio que esteja envolvida nesta querela institucional.

    Não vejo razões para essa afirmação, bem pelo contrário. O PSD está zangado ou, pelo menos, ressentido com o PR, pelo que não o defenderá com entusiasmo nesta matéria e o CDS ainda menos. A ambos os partidos interessam as autárquicas e, no caso do primeiro, a sucessão de líderes. Cavaco está, por isso, relativamente sozinho nesta batalha.

    Comentário por José Barros — Outubro 1, 2009 @ 19:02

  6. Inteiramente de acordo com a lucidez do Luciano. E, se o José Barros me permite, parece-me evidente que o objectivo prioritário de Cavaco Silva é envolver a direita nesta querela; caso contrário, nunca teria feita as declarações que fez na última terça-feira. O primeiro objectivo de Cavaco é recentrar a direita pensando na sua própria reeleição.

    Eu também apoiei Cavaco em numerosas ocasiões e até o fiz institucionalmente nas presidenciais. Mas o Presidente tem de perceber agora que o destino dele tem de ser separado do destino da direita, até porque esta querela institucional limita o espaço de intervenção da oposição política ao governo, como já se viu na última campanha eleitoral.

    Finalmente, ainda um ponto sobre o que disse o José Barros e o Miguel que tenho lido com interesse, o semi-presidencialismo é uma conversa mais complicada do que a discussão que estamos a ter. Para já, ninguém sabe bem o que significa o semi-presidencialismo. Se estamos a falar da eleição directa do Presidente da República, não vejo que essa alteração seja possível e realista. Se estamos a falar dos poderes presidenciais, teremos de pensar duas vezes. Se não houvesse veto político na Constituição, nunca este Presidente teria podido vetar as leis vanguardistas da esquerda no divórcio ou nas uniões de facto. O semi-presidencialismo tem estado aqui a nosso favor.

    Comentário por Pedro Lomba — Outubro 2, 2009 @ 00:20


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