Fui um dos muitos milhões de portugueses que, há dias, assistiram à participação de Manuela Ferreira Leite no programa daqueles quatro rapazes que não se cansam de mostrar a sua total falta de criatividade e humor. E devo dizer que fiquei um pouco incomodado com o que vi. Não pela prestação de Ferreira Leite, que “se saiu bem” do “confronto” com Ricardo Araújo Pereira (súbita e estranhamente elevado ao estatuto de temível entrevistador), mas pelo simples facto de Ferreira Leite ter ido àquele programa.
O programa é pura e simplesmente revoltante. Para além de ser uma cópia do Daily Show de Jon Stewart, é uma má cópia. Para além do mais, a própria natureza do programa recomendaria a recusa de Ferreira Leite em participar. Ele consiste exclusivamente de peças que procuram ridicularizar os políticos, descontextualizando frases suas de forma a mostrar como eles são rídiculos e motivo de chacota. Não conseguindo fazer rir, o programa apenas é bem sucedido a confirmar na cabeça das pessoas a ideia já bastante negativa que a generalidade deles tem dos políticos. Aqueles três quartos de hora, para além de incrivelmente entediantes, são um extraordinário contributo para a degradação de debate político em Portugal.
Só isto seria o suficiente para Manuela Ferreira Leite não aceitar dar a sua caução ao dito programa. Dirá o leitor que a líder do PSD tinha de ir ao programa, porque todos os outros líderes partidários iriam participar, e a sua ausência seria motivo de acusações e críticas. O que me conduz à outra razão, talvez até mais importante, pela qual Ferreira Leite fez mal em aceitar participar: alguém que, como a própria Ferreira Leite disse no próprio programa, quer “fazer política de forma diferente”, não deveria ter ido aos Gato Sem Piada só porque os outros também o fizeram. A juntar à escolha de Santana Lopes para as autárquicas, ou à inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa nas listas do círculo de Lisboa, ou às declarações na Madeira elogiando o comportamento “democrático” de Alberto João Jardim, esta é apenas mais uma de uma já considerável lista de pequenas cedências de Ferreira Leite às “necessidades” do “jogo eleitoral”, ou seja, à “política feita como é costume”.
No estado em que o país está, com as reformas que precisarão de ser implementadas, Manuela Ferreira Leite, qual Cristo no deserto (ou eu junto de adolescentes bem parecidas) será muitas vezes “tentada” a não fazer o que o país precisa. O próximo Governo só poderá ser um bom Governo se resistir a todas essas tentações. Já sabia que Sócrates não seria capaz de o fazer. Começo a temer que Ferreira Leite também não o seja. E quem o diz é alguém que, enquanto alguns dos “apoiantes oficiais” de Ferreira Leite andavam loucamente apaixonados por Pedro Passos Coelho, sempre defendeu a importância de Ferreira Leite ser a líder do PSD e a próxima chefe de Governo. Espero ter acertado à primeira, e os meus receios actuais se comprovem tão infundados como há uns meses eu os acharia.