
A não-inscrição é um conceito criado por José Gil: não-inscrição é o acontecimento que não acontece, que não fica inscrito na vida das pessoas e/ou da Sociedade. Ou seja, tudo o que acontece é espuma, não marca, não muda nada. Salta-se de não-acontecimento em não-acontecimento a um ritmo estonteante e nada fica. Nada acontece e vive-se como habitualmente. É em Salazar que o autor encontra a origem do conceito.
Lembrei-me* disto a propósito destas eleições e embora, na política, José Gil dê o Governo de Santana Lopes como exemplo da não-inscrição, diria que ele próprio concordaria que, após o PREC, nunca vivemos o conceito de forma tão intensa como agora.
Quando Sócrates venceu as eleições, houve muita gente que apostou noutra coisa, em algo que acontecesse de diferente. Apostaram em reformas na Justiça, na Educação, no aliviar da promiscuidade Política-Empresas, etc. Como se o leopardo mudasse de pintas e O Eleito não tivesse uma história. Como nada ficara inscrito, o leopardo nem pintas tinha e O Eleito era um reformador.
Houve um momento que simboliza a não-inscrição desta legislatura levada ao limite do absurdo: quando o Primeiro Ministro fingiu accionar o detonador na demolição das torres em Tróia. A relação entre os dois actos não existiu sequer. Daí para cá foi uma sucessão de não-acontecimentos, alguns com consequências desastrosas como demonstra a nossa situação actual (sempre a piorar para contribuintes, profissões, empresas,etc desde 2005) mas…não aconteceram, não marcaram, não mudaram nada.
Só no contexto de não-inscrição imaginado pelo José Gil se pode perceber como é possível que os governantes actuais tenham a possibilidade de ser reeleitos. Num país em que os acontecimentos acontecessem, as consequências visíveis dos actos levar-nos-iam a encher O Eleito e respectivo séquito de alcatrão e penas. Mas ficaremos a viver como habitualmente: mal a tender para pior.
*Na realidade ocorreu-me a propósito da questão da vigilância ou não da Presidência da República por parte do Governo/PS. O que foi ficando (não ficará) foram as questões laterais, o DN, o Público,os “recados”, o Fernando Lima, etc. O que é verdadeiramente crítico – se há/houve ou não vigilância – e que podia rebentar (marcar, ficar inscrito) com o Regime e respectivas Instituições, foi-se, desapareceu.