Golpe de Estado

Cavaco fez ontem um arremedo de golpe de Estado. Dois dias depois de um partido ter sido o mais votado, Cavaco veio dizer que, no fundo, ele não é bem legítimo, porque usa o poder indevidamente. Ao dar este semi-golpe de Estado, Cavaco naturalmente deve estar à espera de parceiros para embarcar com ele. Quer contar armas. Na minha opinião, é uma estrada que deve seguir sozinho. Que eu saiba (mas, claro, eu sei muito pouco), ninguém lhe encomendou esta guerra. Mais: não foi para isto que ele foi eleito. Ele foi eleito para ser o garante do regular funcionamento das instituições. Agora transformou-se no garante do seu irregular funcionamento. Até domingo, era o PS que queria lançar o regime numa espécie de guerra civil larvar. No domingo, graças aos resultados do BE e do CDS, deixou de o poder fazer. Ontem, Cavaco tinha a oportunidade de acabar com essa guerra civil e tinha todas as condições para isso. Graças ao resultado de domingo, ele voltara a ser o centro essencial do sistema político, aquele sem o qual nenhum partido (incluído o do governo) podia ter uma legislatura descansada. Em vez disso relançou o caos nesse sistema. Boa sorte.

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14 pensamentos em “Golpe de Estado

  1. Caro Luciano,

    Desculpe, mas acho que está enganado. Se Cavaco quisesse, de facto, um golpe de Estado, tinha vindo a público na Quinta ou Sexta passadas. Mais, tinha requerido uma investigação urgente por parte da Secreta Militar (que depende dele).

    Quem “comprou” a guerra foi o PS e agora parte para a mesma numa posição de fraqueza (não que eu esteja a dizer que o PR esteja em posição de força).

  2. Exactamente Luciano. Cavaco apelou quase directamente ao povo que o elegeu que viesse em defesa de um Presidente cercado pelo Governo. Acontece que o povo que permitiu a sua eleição à primeira volta (CDS e centro-esquerda) se está a borrifar para os amuos de quem nunca se dignou a olhar para eles, e o povo que sempre lhe garantiria um bom resultado (PSD) acabou de sofrer na pela, mais uma vez, o egoismo do senhor. Cavaco Silva está sozinho. E Sócrates ganhou. Valha-nos a falta de maioria.

  3. O PR acabou por não explicar nada e tudo ficou com a suspeição que existia. Que tristeza de gestão presidencial sobre este assunto… O Presidente fica muito chamuscado com este caso. Está a desiludir muitos…

  4. Cavaco Silva está sozinho. E Sócrates ganhou. Valha-nos a falta de maioria. – AMN

    Demasiado cedo para afirmações tão taxativas.

    A partir de agora, qualquer episódio de “asfixia democrática” poderá ser aproveitado pelo PR, qualquer aumento do desemprego será alvo da chamada de atenção da Presidência, qualquer aumento da dívida receberá um alerta directo de Cavaco aos portugueses. Para se dizer que Sócrates ganhou a guerra será necessário que as coisas lhe corram bem em termos económicos no próximo ano. Tudo indica que vão correr mal. A dúvida que existe não é essa, mas saber se o PR aguenta as sistemáticas tentativas de descredibilização que o partido socialista doravante levará a cabo. É difícil que o PR resista, sabendo-se que outros, antes dele, não resistiram.

  5. Pelos vistos, tanto o autor do post como a generalidade dos comentadores passaram a alinhar também pelo diapasão socretino.
    Como dizia o Zeca, “eles comem tudo”… e todos.
    Mas lá virá o dia!

  6. Para que o Sr. Presidente encete (continue..?) o caminho que o José Barros indica, é bom que esteja preparado para isso.

    Se quer ser uma actor de baixa politica, não pode esperar elevação do “adversário”. Adversário que, ontem, me surpreendeu pela contenção e por evitar que o problema se tornasse maior, caso tivesse respondido no mesmo tom…

    Não se esqueça que o Cavaco “sebastiânico” é um produto de um contexto muito amigável.

    Se o Sr. Presidente s eenvolver na disputa politica, não terá um segundo mandato e, com probabilidade, razoável não chega ao fim deste.

    Miguel

  7. Não entendo estes comentários. Perante algo tão grave o PR falou e falou claro. Explicou o que se passava. Vêm agora dizer que devia estar calado e que perdeu o mandato?!?! Só não riu porque não é tempo para isso. Ele só disse o que se anda a dizer há 4 anos, este PM não é decente e joga sujo. E não estou nada de acordo com a frase “ele está sozinho”. Pelo contrário, agora toda a gente sabe quem é o contra-poder deste PM, quem não se amedronta perante tais manipulações. Ele uniu os aliados, chamou a sim e chefia e baralhou o adversário (senão reparem nas tristes e desnorteadas declarações do PSP e do JS). Agora estão-se a contar as armas. Esta geurra civil não se ganha olhando para o lado e assobiando.

  8. Se o Sr. Presidente s eenvolver na disputa politica, não terá um segundo mandato e, com probabilidade, razoável não chega ao fim deste. – Miguel

    Ao fazer estas declarações, o Presidente provou que não está agarrado ao lugar. É isso que deve fazer preocupar o partido socialista, porquanto nem a possível perda da reeleição perturbará a acção do Presidente.

    Se quer ser uma actor de baixa politica, não pode esperar elevação do “adversário”. Adversário que, ontem, me surpreendeu pela contenção e por evitar que o problema se tornasse maior, caso tivesse respondido no mesmo tom…- Miguel

    A baixa política é o que tem caracterizado o governo de Sócrates nos últimos quatro anos e meio. Desde utilizar-se os peões de brega do partido socialista para apelidarem a líder de oposição de salazarenta até a plantação por uma agência de comunicação de um e-mail interno do jornal Público, violando o segredo das fontes jornalísticas e as comunicações electrónicas da empresa em causa, para atacar a Presidência. A contenção de que fala é meramente aparente; o que o governo faz subterraneamente é que causa instabilidade política e diminui a qualidade da democracia neste país. Mas não se preocupe que se o próximo governo não cair por causa do Presidente, cai por iniciativa própria. A estratégia do governo será vitimizar-se, culpabilizar a oposição pela ingovernabilidade e marcar eleições nos próximos dois anos na tentativa de obter a maioria absoluta. Ninguém no Largo do Rato está preocupado com estabilidade, pelo que essa é uma não-questão.

  9. Caro Luciano…conheces Maria João Ramos ? Para além de te sugerir que voltes a ler o que disse Cavaco, sugiro a leitura do que a tua colega de blog escreveu. UF….ainda há gente que pensa com a própria cabeça. De tanto ouvir na TV os comentadores do regime parece que as pessoas perderam a sua independência e só se sabem afirmar fazendo coro com o “política e correctamente manipulado”
    ..Obrigado Maria João, que grande bofetada nos artistas de circo que só gostam é de espectáculo…já agora espero que o comentário não seja censurado….

    “3. Cavaco disse claramente que não confia neste PS e que este agiu de forma desonesta, inventando mentiras para colar o PR ao PSD e distrair os eleitores dos problemas do país. E depois?! Estamos nos inícios do parlamentarismo inglês em que, no fundo, tudo dependia dos humores do Rei? Desde quando o nosso sistema é tão frágil que seja necessário um PR gostar, confiar ou respeitar num PM? Se Cavaco não confia em Sócrates e o acha desonesto, so what? Desde quando questões institucionais se devem reger por sentimentos pessoais? O que tem a declaração do PR com a indigitação do novo PM? Os resultados eleitorais são o que são e o PR deve agir lealmente para com os eleitores qualquer que sejam a opinião ou os sentimentos. As dificuldades entre Cavaco e Sócrates seriam as mesmas se Cavaco não nos tivesse confiado a sua opinião sobre o PS, nós saberíamos dessas dificuldades, mas parece que elas só existiram a partir do momento em que Cavaco dá publicamente a sua ‘interpretação pessoal’ do que aconteceu. Ora sejamos crescidinhos, sim?

    4. Cavaco conseguiu, com a sua declaração, avisar o PS que, se continuar a abusar, o PR poderá comunicar, em declarações ou, menos solenemente, em entrevistas a sua ‘interpretação pessoal’ dos objectivos deste PS e que isso não será lisonjeiro para o PS.”

    …os críticos de hoje ainda vão pedir a Cavaco que ponha termo à manipulação que vai crescer enquanto ninguém a travar.

  10. Meu caro, aqui todos conseguem realizar a proeza de pensar pela sua própria cabeça. Ainda que por vezes não concordemos uns com os outros ou mesmo consigo. Normalmente, a unanimidade é que é sintoma de acefalia.

  11. Não estou assim tão certo que a declaração do PR tenha sido negativa para ele. Há alguns aspectos que gostaria de partilhar para discussão.

    1. O Governo está fragilizado com a perda da maioria e a precisar de apoios no Parlamento; com o PSD a entrar em fase de luta interna pela liderança, o PR é a face mais visível da oposição ao Governo.

    2. Como economista que é, o PR sabe que os dados económicos do país vão piorar. A dívida pública poderá passar os 80% do PIB e chegar aos 100% em 2010; o défice previsto pelo INE é de 5,9% mas há cálculos que o levam até aos 8-9%. Há já vários sinais de que a crise económica vai entrar numa segunda fase, o que vai agravar a situação económica de Portugal e deixar o Governo em maus lençóis. Nestas circunstâncias, torna-se impossível ao PM convocar novas eleições sob pena de pesada derrota. Para quem quiser ler:

    http://www.telegraph.co.uk/finance/comment/ambroseevans_pritchard/6234939/Money-figures-show-theres-trouble-ahead.html

    http://www.telegraph.co.uk/finance/comment/ambroseevans_pritchard/6241036/Merkel-warns-on-spending-cuts-fearing-Depression-era.html

    3. A questão das buscas de ontem sobre a compra dos submarinos vai atingir, cedo ou tarde, Paulo Portas e pode funcionar como arma do Governo para suavizar o CDS-PP e levá-lo a colaborar mais facilmente com um Governo em dificuldades. Se isto acontecer, torna-se mais difícil para o BE e o PCP juntarem-se ao PS no apoio presidencial a Manuel Alegre, o que não deixará de beneficiar Cavaco Silva para ganhar o segundo mandato, especialmente com a situação económica a piorar e o Governo a sofrer o descontentamente da população e sendo ele o rosto da oposição ao governo.

    4. A conquista do segundo mandato nestas circunstâncias e a fragmentação do espectro político nacional, depois de uma guerra com o PS, a permitir-lhe mostrar-se como o único garante de estabilidade praticamente o tornam na única figura que pode salvar o país e colocam-lhe o poder no colo.

    Não digo que seja este o plano do PR, mas ao adiar a declaração para depois das eleições, o PR destruiu o PSD, que se vai entreter em querelas internas durante mais uns tempos. Quanto ao PS, será a minoria no Parlamento e o agravar da economia que o vão destruir. Com os dois principais partidos nessa situação, para quem é que as pessoas se vão voltar? Não será com certeza para um BE radicalizado e estridente com a perspectiva de poder chegar ao poder. Isso poderá mesmo ser o factor que lança o país inteiro para os braços do PR.

    São apenas alguns pontos para discussão. Agradeço as vossas opiniões sobre isto.

  12. Pingback: Leituras sobre a actuação recente de Cavaco Silva « O Insurgente

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