O Insurgente

Setembro 28, 2009

O que aí vem

O Paulo Pinto Mascarenhas, no seu blog, diz que “Sócrates e o PS são reféns do parlamento”. Compreende-se o regozijo (tudo o que pareça uma diminuição de poder de Sócrates provoca a alegria de uma pessoa de bem), mas não me parece que o Paulo tenha razão. Como bem diz o Miguel Morgado, o resultado de ontem conduzirá, não tanto a uma maior actividade parlamentar, mas “mais comunicação e negociação entre as direcções dos partidos políticos.” Aquilo a que se vai assistir nos próximos anos (resta saber quantos) não será uma “parlamentarização do regime. Teremos, isso sim, muitas reuniões de vão de escada (um local desaparecido desde a campanha do referendo sobre o aborto) e de sótão (há muitos socialistas com saudades), a muitos “acordos secretos” que, longe de fortalecerem o parlamento e a representação dos cidadãos, apenas contribuirão para o crescente nojo que os portugueses sentem em relação à actividade política. O frágil equilíbrio parlamentar presta-se a golpes baixos, a jogos de “posicionamento” enfim, a “politiquice”.

E nessa “politiquice”, tenho as maiores dúvidas de que os “reféns” acabem por ser o PS e Sócrates. Por estranho que pareça, serão os partidos minoritários a estarem numa posição mais complicada. É verdade que o PS “precisa” deles para ver aprovadas as medidas que quiser implementar. Mas também é verdade que o PS, tal como o PSD em 1985/87, poderá pôr os outros partidos entre a espada e a parede: se apoiarem, mesmo que pontualmente, o PS e o Governo, arriscam-se a trair um eleitorado que votou neles por serem diferentes do PS; se votarem contra o PS, arriscam-se a que Sócrates use a “postura obstacularizadora” (habitue-se a este jargão, caro leitor) dos partidos da oposição para se vitimizar e apresentar-se a umas eleições antecipadas como alguém a quem “não deixaram salvar o país”. Esperam-nos anos de muita actividade para os “abrantes”, de muita baixeza, de muita lama. Precisamente aquilo em que, como se viu nestes últimos anos, o actual primeiro-Minitro se sente à vontade.

5 Comentários »

  1. Bruno
    Completamente de acordo. Acho que vai ser mesmo essa a estratégia: “… muita actividade para os “abrantes”, de muita baixeza, de muita lama.” E os tais acordos secretos, traiçõezinhas, etc. e tal. Lembremo-nos que têm tudo na mão, o sistema, o estado, as empresas públicas, a comunicação social. Têm também na expectativa os grandes interesses económicos. Muita coisa estava em jogo e continua em jogo.
    Mas entretanto continuamos a ouvir na televisão o jornalismo caseiro e o comentário doméstico a dizer disparates, a projectar cenários possíveis, blá-blá-blá. Qualquer dia a nossa televisão assemelha-se à da Coreia do Norte, em que só há um canal, o oficial. Já falta pouco…
    Andam todos a subestimar a infinita capacidade de adaptação das estruturas flexíveis, tipo plasticina, que se mantêm no poder. E a subestimar também o seu enorme poder actual.
    Mesmo “minoritário”, o PS já manda instruções à esquerda e à direita e até ao próprio Presidente. A arrogância mantém-se intacta, o poder também, a estratégia é que vai ser bastante diferente e “criativa”…

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Setembro 28, 2009 @ 20:44

  2. O CDS que não pense em apoiar o governo socialista. Caso haja coerência e lealdade para com os seus eleitores a única coisa que o CDS poderá e deverá apoiar é aquilo em que defende: a redução do peso do estado na economia, na educação, a redução dos impostos, dos apoios de vão de escada às empresas. Caso contrário correm o risco de ficarem associados ao descalabro que virá nos próximos anos (aumento necessário de impostos, buraco da seg. social cada vez maior , crescimento económico, a acontecer, bastante abaixo da média da UE, OCDE e quase todas as instituições com que nos possamos comparar, mas nesse caso haverá regozijo e se agora a culpa é da crise internacional, quando se verificar algum crescimento será mérito do governo e nunca da recuperação económica europeia ou mundial). O PS que colha os louros da desgraça que andou a semear nestes últimos 4 anos, e de preferência que os partilhe com a maioria de esquerda no parlamento. O CDS tem que ser coerente, é a única coisa que os seus eleitores pedem (eu p.ex.), que não se deixe deslumbrar pela tentação de poder e daqui a 4 anos as contas serão outras.

    Comentário por Alexandre Gonçalves — Setembro 28, 2009 @ 21:43

  3. Bruno
    E agora ali está na Sic Notícias o “norte coresno” Pedro Silva Pereira a desvalorizar os resultados do PSD, que 29,1% são um resultado medíocre. A campanha eleitoral já acabou, mas agora o alvo é o PSD.
    Sinais e sintomas da “doença nacional”.
    Sou um dos eleitores do PSD e 29,1% é uma fatia muito significativa do eleitorado. Mas eis que o “minoritário” PS quer neutralizar a oposição, o Presidente, e nem sei que mais!

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Setembro 28, 2009 @ 22:17

  4. Concordo.
    Mas penso que a pressão estará mais do lado da esquerda da esquerda (lol)
    Por 2 razões major:
    - Simpatia de boa parte da elite do PS pela esquerda da esquerda.
    - Considerando-se o PS a sí mesmo como partido de esquerda com valores de esquerda poderá mais facilmente encurralar o BE + PCP + PEV e eventualmente o PSD do que o CDS

    Comentário por hotboot — Setembro 28, 2009 @ 22:31

  5. O que mais me custa engolir é o facto deste discurso nojento do Silva Pereira ser papel químico das intervenções dos arrivistas-oportunistas dentro do próprio PSD, que ainda ontem vieram erguer o gargalo!
    Espero que o PSD saiba avaliar os estragos que esses irreponsáveis provocaram na própria campanha eleitoral, e a ajudinha inestimável que deram ao PS.

    (Porque é que a Ana Lourenço não equilibra os tempos de antena? É coisa que não percebo. Quando um dos entrevistados não se cala nem deixa falar o outro, a jornalista deve moderar, ou não?)

    Pronto, acho que já assimilei os resultados das eleições e os efeitos que vão provocar nos próximos tempos.

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Setembro 28, 2009 @ 22:49


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