Era previsível. Escrevi no Jamais – a propósito da vergonha da campanha socialista que não pára de associar Salazar ao PSD (enquanto se queixa da meledicência alheia, pois claro) – um post onde dizia não ter “qualquer sentimento de gratidão pelos políticos e militares que terminaram ou pressionaram a ditadura; sinceramente, não fizeram mais do que a sua obrigação” e que ”Mário Soares é, para mim, uma figura patética, desagradável e apreciador de tiranetes sul-americanos”. Isto, como já se sabe, em Portugal não é permitido. Como é óbvio também não me empenho em desenvolver qualquer agradecimento a Cavaco Silva por ter privatizado a comunicação social, ter posto fim ao disparate da reforma agrária pós-abrilista ou ter privatizado empresas que haviam sido nacionalizadas depois do 25 de Abril e que escaqueiraram para décadas a nossa economia. Também não perco tempo a sentir-me agradecida por Dom Afonso Henriques, por Dom João II ou pelo português que encomendou a capela de São João Baptista para a Igreja de São Roque (bem, neste caso talvez esteja um bocadinho agradecida). Tenho esta mania muito parábola dos talentos de que as pessoas têm a obrigação de contribuir para o bem comum (segundo as convicções de cada um) e, no caso concreto, quem considerou que se devia opor ao Estado Novo e agiu de acordo, não fez mais do que a sua obrigação.
Mas, claro, isto não é permitido no que toca aos primeiros mencionados, e eu fui logo repreendida por pessoas devidamente escandalizadas. Devia glorificar e sentir-me muito grata por aqueles que lutaram contra a ditadura corporativista e, de seguida, permitiram e apoiaram o PREC, as nacionalizações, as prisões e exílio dos ‘reaccionários’, descolonizaram de forma criminosa, perdoaram terroristas domésticos e um largo etc. Não posso apenas simpatizar com o sofrimento causado aos que foram perseguidos pelo Estado Novo (tal como simpatizo com o sofrimento de todos os que lutam pelas suas convicções, desde que pacíficas, mesmo quando as convicções não coincidem com as minhas); não: é necessário estar muuuuuuito grata.
Ora vão plantar umas batatas, se faz favor.
Na realidade este condicionamento imbecil é filho da sobranceria moral da esquerda, que no fundo se considera proprietária da nossa democracia e apenas permite à direita (mesmo quando é muito pouco de direita) marcar presença desde que não ambicione o poder. Sucede que enquanto eu tiver que pagar (muitos) impostos, bem podem pensar-se donos da democracia que me pode impor gratidões e condicionar-me com o Estado Novo e o 25 de Abril, que não têm qualquer sorte. Como disse, dediquem-se às batatas, sff. Eu, neste caso, vou continuar ingrata.
Mais de metade dos comentários (no Jamais e em todo o lado) são de assessores pagos com os nossos impostos. Mais uma herança tão democrática deste governo que, se Deus quiser, no domingo, os portugueses tratarão de asfixiar, ó tão democraticamente.
Comentário por José Barros — Setembro 23, 2009 @ 23:14
Na verdade a chave é mesmo essa. Eles arrogam-se de proprietários e donos, enquanto os outros PAGAM e MANTÊM o burgo.
ISto tem precisamente a ver com a questão da moralidade e bate numa frase da Maria João: “Tenho esta mania muito parábola dos talentos de que as pessoas têm a obrigação de contribuir para o bem comum”
NA verdade, eles não fizeram mais que a sua obrigação, mas não em nome de um bem comum. EM nome do seu interesse individual (de cada um) de viver melhor e com liberdade.
É que depois, com a permissa do bem comum, é onde eles lhe apresentam a factura para pagarmos aquilo do qual se arrogam de possuir.
Rogo que pense nisso só um bocadinho sua… mal agradecida
Comentário por MC — Setembro 23, 2009 @ 23:16
Cara Maria João
D. Afonso Henriques, Mem Martins, a Rainha Santa Isabel, o Santo Condestável Nuno Alvares Pereira, Luís de Camões, e mais um ou dois, merecem um pouquinho da nossa gratidão.
Fizeram um pouco mais do que aquilo que lhes seria exigível.
Quanto ao resto, estou inteiramente de acordo consigo.
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Comentário por Mentat — Setembro 24, 2009 @ 00:01
Plantar batatas é uma honra: já o fiz! Nem é bem plantar: será mais semear.
Eu diria irem apanhar gambozinos pois o agricultor merece alguma atenção.
Agora vá cuidar do bebé para amanhã estar fresca e produzir um novo e excelente post.
Comentário por A. R — Setembro 24, 2009 @ 00:54
Tirando o facto de a MJ escrever no Jamais, que me repugna pela publicidade enganosa a uma não-alternativa, não podia concordar mais com a sua “posta”…
Comentário por caodeguarda — Setembro 24, 2009 @ 08:38
José, sim, há ums estranha praga de comentadores muito enamorados pelo governo que se desconfia trabalharem numa sala de um qualquer ministério.
MC, tem que ver que para certas pessoas, a malta de direita é um subproduto da humanidade e que só é tolerada mesmo porque paga os desvarios da esquerda. Assim uma espécie de judeus na Idade Média, que eram tolerados desde que emprestassem dinheiro ao rei e aos nobres.
Mentat, claro, muitos portugueses, sobretudo os não políticos, merecem a minha gratidão.
AR, é mesmo uma actividade muito digna e semear batatas seria até uma promoção (em dignidade) para certas pessoas.
Caodeguarda, não pode esperar pelas soluções ideais. O PSD, imperfeito e ainda muito estatista, é substancialmente melhor em termos de propostas que o PS. Especialmente desta vez.
Comentário por Maria João Marques — Setembro 24, 2009 @ 14:06
Cara MJM, pessoalmente não vejo diferença…
Comentário por caodeguarda — Setembro 24, 2009 @ 18:02