Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico
É difícil compreender o quotidiano britânico d[o final dos anos 70]: os atentados do IRA, a semana de trabalho reduzida a 3 dias pelas sucessivas greves dos mineiros, os cortes quotidianos de energia, a inflação acima dos 14% desde 1972 e os governos fracos que tentavam apagar o fogo com a gasolina neo-keynesiana da despesa pública financiada por emissão monetária. Gerry Healy, líder da Socialist Labour League, que se entretinha a violar subordinadas e a espancar os suspeitos de “revisionismo”, via as suas proezas glorificadas numa peça de teatro pelos acólitos intelectuais trotskistas, com o seu alter-ego representado por Lawrence Olivier. Em 1971 Tariq Ali publicava The Coming British Revolution, anunciando o regresso dos sovietes à Europa: o expoente da tradição constitucional de governo limitado oscilava entre a queda no comunismo e uma ditadura militar inspirada pelo golpe de Pinochet(…)
[A] paranóia gerada pela ressaca do narcisismo ‘soixante-huitard’ produziu uma visão do governo como uma conspiração contra os eleitores. Restituir qualidade à actividade política exige reparar o dano que esta visão, hoje generalizada, causou à autoridade e à legitimidade política. Mesmo países como os EUA e o Reino Unido necessitaram de alguma sorte e de estadistas excepcionais como Reagan e Thatcher para limpar este desastre de auto-complacência.
Recordo-me de um anúncio de página inteira com roupas e adereços da ‘hippie trend’. O anúncio não pretendia publicitar qualquer marca de vestuário revivalista -a frase que rematava a página recomendava os méritos de um autoclismo: ‘because there are some things that nobody wants to see making a comeback’. Alguns países menos afortunados ainda não encontraram o Grande Autoclismo; outros já esqueceram a moral da história.