O Insurgente

Agosto 24, 2009

Ver de bancada

Filed under: Comentário,Internacional,Teoria — João Luís Pinto @ 16:13

O recente caso da vitória de Caster Semenya nos 800m femininos do Campeonato do Mundo de Atletismo em Berlim, e a subsequente polémica sobre se a atleta é afinal mesmo uma mulher ou um homem é tão somente o prenúncio dos muitos imbróglios que prevejo hão-de sobrevir a médio prazo em torno da questão do género no desporto, bem como da questão dos enhancements e deficiências físicas. Imbróglios estes que a tenciono assistir de bancada no que toca à posição dos actuais defensores da igualdade e do direito à não-discriminação privada.
A crescente diluição do conceito de género, transitando de um cenário em que era algo definido fisicamente pelo nascimento para o domínio da escolha livre de um indivíduo e da “identidade de género”, conjugada com o conceito positivo de não descriminação e da igualdade de género que conquista cada vez mais território nos ordenamentos que nos rodeiam, fazem antever tempos curiosos.
Estou pronto a assistir com todo o interesse ao caso que vai ser originado quando, mais cedo ou mais tarde, o primeiro transsexual (provavelmente homem->mulher), num país dos vários que conferirem a possibilidade de mudar o género em termos civis, se decidir apresentar para participar nas provas femininas de uma determinada modalidade. E a assistir à espectável recusa do organismo organizador e à previsível tentativa de impugnar os seus estatutos e a sua decisão invocando preceitos constitucionais.
Ou a assistir a quando o primeiro atleta portador de uma deficiência que seja (extremamente) coadjuvante (e não detrimental como de costume) para a prática de um determinado desporto quiser correr nas categorias “normais” desportivas e não em categorias específicas de deficientes (como os paraolímpicos), com desfecho previsível semelhante.
Vão ser sem dúvida discussões interessantes, e um teste interessante à turma das “igualdades”.

19 Comentários »

  1. Assunto que me vale sempre boas gargalhadas. A luta louca contra o “preconceito”. Até me espanta que não exijam o fim da separação de homens e mulheres no desporto. Lá chegaremos.

    Comentário por Filipe Abrantes — Agosto 24, 2009 @ 16:37

  2. “Ou a assistir a quando o primeiro atleta portador de uma deficiência que seja (extremamente) coadjuvante (e não detrimental como de costume) para a prática de um determinado desporto quiser correr nas categorias “normais” desportivas e não em categorias específicas de deficientes (como os paraolímpicos), com desfecho previsível semelhante.”

    Se estou a interpretar bem o que disse incluíndo membros artificiais já aconteceu: http://en.wikipedia.org/wiki/Oscar_Pistorius

    Comentário por lucklucky — Agosto 24, 2009 @ 16:39

  3. Acho que vai ser inevitável. Aliás, espanta-me que presentemente ainda ninguém tenha tentado avançar por aí. Era ver o nosso Tribunal Constitucional a dar umas voltas engraçadas… :-)

    Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 16:42

  4. Eu conhecia o caso, mas ai a coisa pode limitar-se por via da artificialidade das melhorias (apesar de já estar a ser complicado no caso da natação com os fatos – ainda vamos ter provas obrigatórias de ser corridas sem roupa!). Eu referia-me mais a deficiências do género de membranas interdigitais (por exemplo na natação), deficiências hormonais (por exemplo nas disciplinas de tiro), gigantismo (basketball), …
    Já para não falar em crianças manipuladas geneticamente.

    Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 16:47

  5. Não era melhor atribuir medalhas segundo o esforço em vez de segundo os resultados? Ou dar medalhas a todos? Ou melhor, segundo a necessidade dos atletas? :D

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Agosto 24, 2009 @ 16:58

  6. :-)

    Acho que o melhor era mesmo mexer nos blocos de partida para garantir a igualdade de oportunidades… :-)

    Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 17:02

  7. “Não era melhor atribuir medalhas segundo o esforço em vez de segundo os resultados?”

    Isso ocorria-me quando o Benfica não marcava após 37 ataques com perigo e 3 bolas ao poste. Ganharia aos pontos.

    Comentário por Filipe Abrantes — Agosto 24, 2009 @ 17:03

  8. Contaram-me que o comentador português da Eurosport disse que uma corrida qualquer no dia a seguir aos 800m da vitória d@ Caster seria “uma corrida contra o preconceito”.

    Comentário por Filipe Abrantes — Agosto 24, 2009 @ 17:06

  9. “Ou a assistir a quando o primeiro atleta portador de uma deficiência que seja (extremamente) coadjuvante (e não detrimental como de costume) para a prática de um determinado desporto quiser correr nas categorias “normais” desportivas”

    Eu penso que isso já existe para todos os efeitos. Creio que o único desporto em que alguêm fisicamente superior não pode concorrer com os “normais” é o boxe (isto é, um pesp pesado não pode concorrer no campeonato dos pesos pluma mesmo que queira).

    A respeito da “não-discriminação privada” – duvido que a maior parte da chamada “alta competição” possa ser chamada “privada” (mas também é verdade que, mesmo que o fosse, isso nada alteraria a opinião da maior parte dos “anti-discriminadores”).

    Comentário por Miguel Madeira — Agosto 24, 2009 @ 17:08

  10. “Eu penso que isso já existe para todos os efeitos. Creio que o único desporto em que alguêm fisicamente superior não pode concorrer com os “normais” é o boxe (isto é, um pesp pesado não pode concorrer no campeonato dos pesos pluma mesmo que queira).”

    A discriminação em função do peso não é proibida (por enquanto) ;-)

    De resto, as outras limitações (idades, por exemplo) também o não são.

    “duvido que a maior parte da chamada “alta competição” possa ser chamada “privada””

    As associações do ramo são geralmente lestas a reclamar do estatuto. Nomeadamente para reclamar os respectivos privilégios. Só se esquecem quando é preciso pagar as contas.

    Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 17:19

  11. As federações desportivas são “de utilidade pública” mas não são públicas. São instituições privadas mas de utilidade pública.

    É claro que, por via da concessão desse estatuto, o Estado pode influenciar as suas políticas.

    De resto, é bem sabido que o desporto está cheio de discriminações. Entre homens e mulheres (inclusivé num desporto “intelectual” como o xadrez!), entre deficientes e normais, e, em todos os desportos de combate (incluindo não só boxe mas também judo e taekwondo), entre pesos.

    Não penso que alguma vez essas discriminações tenham merecido censura de seja quem fôr. São objeto de debate, como é normal, mas toda a gente aceita que elas são necessárias.

    Comentário por Luís Lavoura — Agosto 24, 2009 @ 17:39

  12. O gigantismo no basqueteball poderia ser combatido, se se quisesse, fazendo campeonatos de basketball separados consoante a altura dos jogadores. Da mesma forma que no judo os atletas combatem por categoria de peso.

    Comentário por Luís Lavoura — Agosto 24, 2009 @ 17:41

  13. E campeonatos com jogadores na mesma gama de outras capacidades atléticas tipo percentagem de tiros certeiros ao cesto, assistências, passes completados, e assim por diante.

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Agosto 24, 2009 @ 17:49

  14. ««(apesar de já estar a ser complicado no caso da natação com os fatos – ainda vamos ter provas obrigatórias de ser corridas sem roupa!)»»

    Um filme espalhado pelo corpo pode ter o mesmo efeito que os fatos. Vai ser necessário raspar a pele.

    Comentário por JoaoMiranda — Agosto 24, 2009 @ 18:18

  15. Muito bom texto João. Apesar do teu esforço, pode-se perceber que, como de costume, as pessoas só saber falar através da famosa posta de pescada.

    Mas seria curioso, pelo menos, tentar discutir o assunto pela génese do desporto de competição.

    Desconfio que se fosse hoje, os atletas de top teriam a mesma receptividade que os belmiros e amorins deste mundo.

    O primeiro classificado – 1Ml; o último – no shit. Mas claro, podemos sempre chamar-lhe corrida contra a descriminação…

    Comentário por Cirilo Marinho — Agosto 24, 2009 @ 18:43

  16. O primeiro classificado – 1Ml; o último – no shit.

    Se o processo fosse concorrencial, o último teria o melhor rendimento de todas as ocupações que poderia desempenhar. O melhor, veja-se Tiger Woods, aquilo que os entusiastas do desport estariam dispostos a pagar para ver jogar.

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Agosto 24, 2009 @ 19:37

  17. Esta maltosa bloquista-liberal é muito retrógrada e, como diria esse intelectual que dá pelo nome de Mário Soares, assaz obscurantista. Género para aqui, género para acolá, ara este gajedo sexo é tabu.

    Comentário por hajapachorra — Agosto 24, 2009 @ 22:28

  18. Para este género de gajedo sexo é tabu. E confunde o género humano com o Manuel Hermano.

    Comentário por hajapachorra — Agosto 24, 2009 @ 22:30

  19. [...] adicional: Ver de bancada Deixe um [...]

    Pingback por Ver de bancada (2) « O Insurgente — Setembro 4, 2009 @ 14:34


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