O recente caso da vitória de Caster Semenya nos 800m femininos do Campeonato do Mundo de Atletismo em Berlim, e a subsequente polémica sobre se a atleta é afinal mesmo uma mulher ou um homem é tão somente o prenúncio dos muitos imbróglios que prevejo hão-de sobrevir a médio prazo em torno da questão do género no desporto, bem como da questão dos enhancements e deficiências físicas. Imbróglios estes que a tenciono assistir de bancada no que toca à posição dos actuais defensores da igualdade e do direito à não-discriminação privada.
A crescente diluição do conceito de género, transitando de um cenário em que era algo definido fisicamente pelo nascimento para o domínio da escolha livre de um indivíduo e da “identidade de género”, conjugada com o conceito positivo de não descriminação e da igualdade de género que conquista cada vez mais território nos ordenamentos que nos rodeiam, fazem antever tempos curiosos.
Estou pronto a assistir com todo o interesse ao caso que vai ser originado quando, mais cedo ou mais tarde, o primeiro transsexual (provavelmente homem->mulher), num país dos vários que conferirem a possibilidade de mudar o género em termos civis, se decidir apresentar para participar nas provas femininas de uma determinada modalidade. E a assistir à espectável recusa do organismo organizador e à previsível tentativa de impugnar os seus estatutos e a sua decisão invocando preceitos constitucionais.
Ou a assistir a quando o primeiro atleta portador de uma deficiência que seja (extremamente) coadjuvante (e não detrimental como de costume) para a prática de um determinado desporto quiser correr nas categorias “normais” desportivas e não em categorias específicas de deficientes (como os paraolímpicos), com desfecho previsível semelhante.
Vão ser sem dúvida discussões interessantes, e um teste interessante à turma das “igualdades”.
Agosto 24, 2009
Ver de bancada
19 Comentários »
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Assunto que me vale sempre boas gargalhadas. A luta louca contra o “preconceito”. Até me espanta que não exijam o fim da separação de homens e mulheres no desporto. Lá chegaremos.
Comentário por Filipe Abrantes — Agosto 24, 2009 @ 16:37
“Ou a assistir a quando o primeiro atleta portador de uma deficiência que seja (extremamente) coadjuvante (e não detrimental como de costume) para a prática de um determinado desporto quiser correr nas categorias “normais” desportivas e não em categorias específicas de deficientes (como os paraolímpicos), com desfecho previsível semelhante.”
Se estou a interpretar bem o que disse incluíndo membros artificiais já aconteceu: http://en.wikipedia.org/wiki/Oscar_Pistorius
Comentário por lucklucky — Agosto 24, 2009 @ 16:39
Acho que vai ser inevitável. Aliás, espanta-me que presentemente ainda ninguém tenha tentado avançar por aí. Era ver o nosso Tribunal Constitucional a dar umas voltas engraçadas…
Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 16:42
Eu conhecia o caso, mas ai a coisa pode limitar-se por via da artificialidade das melhorias (apesar de já estar a ser complicado no caso da natação com os fatos – ainda vamos ter provas obrigatórias de ser corridas sem roupa!). Eu referia-me mais a deficiências do género de membranas interdigitais (por exemplo na natação), deficiências hormonais (por exemplo nas disciplinas de tiro), gigantismo (basketball), …
Já para não falar em crianças manipuladas geneticamente.
Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 16:47
Não era melhor atribuir medalhas segundo o esforço em vez de segundo os resultados? Ou dar medalhas a todos? Ou melhor, segundo a necessidade dos atletas?
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Agosto 24, 2009 @ 16:58
Acho que o melhor era mesmo mexer nos blocos de partida para garantir a igualdade de oportunidades…
Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 17:02
“Não era melhor atribuir medalhas segundo o esforço em vez de segundo os resultados?”
Isso ocorria-me quando o Benfica não marcava após 37 ataques com perigo e 3 bolas ao poste. Ganharia aos pontos.
Comentário por Filipe Abrantes — Agosto 24, 2009 @ 17:03
Contaram-me que o comentador português da Eurosport disse que uma corrida qualquer no dia a seguir aos 800m da vitória d@ Caster seria “uma corrida contra o preconceito”.
Comentário por Filipe Abrantes — Agosto 24, 2009 @ 17:06
“Ou a assistir a quando o primeiro atleta portador de uma deficiência que seja (extremamente) coadjuvante (e não detrimental como de costume) para a prática de um determinado desporto quiser correr nas categorias “normais” desportivas”
Eu penso que isso já existe para todos os efeitos. Creio que o único desporto em que alguêm fisicamente superior não pode concorrer com os “normais” é o boxe (isto é, um pesp pesado não pode concorrer no campeonato dos pesos pluma mesmo que queira).
A respeito da “não-discriminação privada” – duvido que a maior parte da chamada “alta competição” possa ser chamada “privada” (mas também é verdade que, mesmo que o fosse, isso nada alteraria a opinião da maior parte dos “anti-discriminadores”).
Comentário por Miguel Madeira — Agosto 24, 2009 @ 17:08
“Eu penso que isso já existe para todos os efeitos. Creio que o único desporto em que alguêm fisicamente superior não pode concorrer com os “normais” é o boxe (isto é, um pesp pesado não pode concorrer no campeonato dos pesos pluma mesmo que queira).”
A discriminação em função do peso não é proibida (por enquanto)
De resto, as outras limitações (idades, por exemplo) também o não são.
“duvido que a maior parte da chamada “alta competição” possa ser chamada “privada””
As associações do ramo são geralmente lestas a reclamar do estatuto. Nomeadamente para reclamar os respectivos privilégios. Só se esquecem quando é preciso pagar as contas.
Comentário por João Luís Pinto — Agosto 24, 2009 @ 17:19
As federações desportivas são “de utilidade pública” mas não são públicas. São instituições privadas mas de utilidade pública.
É claro que, por via da concessão desse estatuto, o Estado pode influenciar as suas políticas.
De resto, é bem sabido que o desporto está cheio de discriminações. Entre homens e mulheres (inclusivé num desporto “intelectual” como o xadrez!), entre deficientes e normais, e, em todos os desportos de combate (incluindo não só boxe mas também judo e taekwondo), entre pesos.
Não penso que alguma vez essas discriminações tenham merecido censura de seja quem fôr. São objeto de debate, como é normal, mas toda a gente aceita que elas são necessárias.
Comentário por Luís Lavoura — Agosto 24, 2009 @ 17:39
O gigantismo no basqueteball poderia ser combatido, se se quisesse, fazendo campeonatos de basketball separados consoante a altura dos jogadores. Da mesma forma que no judo os atletas combatem por categoria de peso.
Comentário por Luís Lavoura — Agosto 24, 2009 @ 17:41
E campeonatos com jogadores na mesma gama de outras capacidades atléticas tipo percentagem de tiros certeiros ao cesto, assistências, passes completados, e assim por diante.
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Agosto 24, 2009 @ 17:49
««(apesar de já estar a ser complicado no caso da natação com os fatos – ainda vamos ter provas obrigatórias de ser corridas sem roupa!)»»
Um filme espalhado pelo corpo pode ter o mesmo efeito que os fatos. Vai ser necessário raspar a pele.
Comentário por JoaoMiranda — Agosto 24, 2009 @ 18:18
Muito bom texto João. Apesar do teu esforço, pode-se perceber que, como de costume, as pessoas só saber falar através da famosa posta de pescada.
Mas seria curioso, pelo menos, tentar discutir o assunto pela génese do desporto de competição.
Desconfio que se fosse hoje, os atletas de top teriam a mesma receptividade que os belmiros e amorins deste mundo.
O primeiro classificado – 1Ml; o último – no shit. Mas claro, podemos sempre chamar-lhe corrida contra a descriminação…
Comentário por Cirilo Marinho — Agosto 24, 2009 @ 18:43
O primeiro classificado – 1Ml; o último – no shit.
Se o processo fosse concorrencial, o último teria o melhor rendimento de todas as ocupações que poderia desempenhar. O melhor, veja-se Tiger Woods, aquilo que os entusiastas do desport estariam dispostos a pagar para ver jogar.
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Agosto 24, 2009 @ 19:37
Esta maltosa bloquista-liberal é muito retrógrada e, como diria esse intelectual que dá pelo nome de Mário Soares, assaz obscurantista. Género para aqui, género para acolá, ara este gajedo sexo é tabu.
Comentário por hajapachorra — Agosto 24, 2009 @ 22:28
Para este género de gajedo sexo é tabu. E confunde o género humano com o Manuel Hermano.
Comentário por hajapachorra — Agosto 24, 2009 @ 22:30
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