No suplemento semanal do I, o Nós, esta semana dedicado ao carácter “atrasado” de Portugal, veio uma colecção de fotografias (nada de se deitar fora, diga-se de passagem) legendadas com citações de “clássicos” portugueses apontando os defeitos da espécie indígena: como seria de esperar, podemos ler Eça de Queiroz a dizer que “somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência”, ou como a política, no nosso país, é “dominada” pelas “más paixões” e todos os que nela se envolvem “querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, àvidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis do gozo da vaidade”. Estas citações, claro, servem para ilustrar como a “desconcertante actualidade” dos “autores eternos” mostram como “não mudámos assim tanto”. Esta frase, por sua vez, para além de mostrar a fraqueza de estilo (a expressão “autores eternos” quase causa vómitos) de quem a escreveu, mostra também sua a ignorância ou simples falta de juízo. Pois só um analfabeto ou um demente (convenhamos, dois tipos de pessoas que abundam no jornalismo pátrio) poderiam dizer que “não mudámos assim tanto”.
Na realidade, mudámos, “tanto” ou mais do que podemos por vezes pensar. Comparar o Portugal do século XIX com o Portugal dos dias de hoje é comparar o incomparável. A “estrutura social” é outra, o nível de alfabetismo (apesar de tudo) é outro, os nossos “recursos” são outros, o país é outro. Somos infinitamente mais ricos, mais saudáveis, mais tudo, do que os portugueses de Eça de Queiroz. Se houve fenómeno que marcou a história recente de Portugal, foi precisamente a mudança sem precedentes de que o país foi alvo.
Mais, muitos dos problemas que hoje o país enfrenta devem-se precisamente à escala da mudança na segunda metade do século XX. Ficámos mais ricos, e deixámos de ter a demografia de um país subdesenvolvido (morremos e nascemos menos), e é essa mesma demografia de país civilizado que nos cria um problema de sustentabilidade da segurança social; o país “modernizou-se”, tornando obsoleta uma parte significativa da população, inadaptada ao novo mundo, criando um magote de gente condenada à inactividade para o resto da vida; habituou (mal) os portugueses a níveis de vida “europeus” (ou que eles imaginam “europeus”), que nos convidam ao endividamento em massa e nos deixam os défices orçamentais conhecidos.
Mas se o país mudou assim tanto, porque é que os queixumes dos tais “autores eternos” nos parecem “desconcertantemente actuais”? Por que é que, ao lermos Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão ou Oliveira Martins (o melhor deles todos) a baterem na “piolheira” ou a descreverem o “regabofe” (bonita palavra), achamos vagamente familiar aquilo que eles escrevem? Esta é, aliás, uma pergunta que atormenta muita gente muito louvável, como a dra. Filomena Mónica, que até a coloca a jovens com pretensões a intelectual para os avaliar (a pobreza do que a seguir direi mostra por que razão optei por ser avaliado pela resposta a outra pergunta completamente diferente).
Há uma resposta, ligeiramente prosaica, mas não menos verdadeira por isso: Eça de Queiroz e Oliveira Martins eram muito bons. A simples qualidade dos dois rapazes faz com que aquilo que eles escrevem, embora sobre uma realidade completamente diferente, nos pareça actual. Há depois, claro, uma outra explicação óbvia: a prosa violenta daquela gente fornece-nos um instrumento para criticar os nossos políticos. Ao ler As Farpas ou o Portugal Contemporâneo (mais no Portugal Contemporâneo que n‘As Farpas, um abracinho se a compararmos com o primeiro) é impossível não achar que há ali uma descrição dos políticos que vem matar a nossa sede de maledicência e a nossa vontade de atacar quem nos governa. E há, depois, a explicação mais importante, a de que, por muito que tenhamos mudado, continuamos atrasados em relação “ao estrangeiro”. Uma prosa dedicada à constatação (e lamento) dessa realidade há mais de século, mesmo sendo de há mais de um século, espelha um sentimento (e não uma uma realidade) que ainda hoje perdura.
Existia no séxulo XIX, existe hoje, e existirá no futuro (não digo “sempre”, mas pensei), pela simples razão de que, como em tempos escreveu Vasco Pulido Valente, não estamos atrasados, somos atrasados. O que nos conduz à razão final pela qual a prosa da “Geração de 70″, ou a de todos os que fizeram o nome a queixar-se da pátria, nos parece sempre “actual”: há uma condição “natural” portuguesa que impede o país de a “desactualizar”. De certa forma, Oliveira Martins ou Eça de Queiroz não alcançaram um grande feito ao conseguirem ser “actuais” ao falarem do nosso “atraso”. Portugal é um país “naturalmente” pobre, sem grandes recursos e geograficamente mal colocado (nem toda a gente pode viver no Reno ou na Escandinávia), demasiado afastado do centro da Europa para beneficiar da sua prosperidade mas suficientemente perto para sentir a necessidade de se comparar com ela, Portugal é um país no qual quem lá vive tem ao mesmo tempo consciência da sua pobreza relativa e a expectativa de se aproximar dos “padrões” da vizinhança rica. Uma prosa dedicada à insatisfação com esta condição está condenada a ser “actual”: seremos sempre “pobres” se nos compararmos com as Bélgicas do dia (como hoje tendemos a falar da Finlândia ou da Irlanda, no século XIX era a Bélgica o exemplo predilecto do que “poderíamos ter sido se…”), e continuaremos sempre à espera que o Estado cubra essa diferença que nos atormenta, o que não só fará com que continuemos sempre insatisfeitos com os nossos políticos (por muito que isso nos custe, o Estado não pode mudar a realidade), como assegurará que “o défice” seja, como era no século XIX e ainda hoje é, o grande problema político português.
Ler Eça de Queiroz e Oliveira Martins e dizer que Portugal “não muodu assim tanto” desde o século XIX mostra apenas que o que de facto não mudou foi a imbecilidade de grande parte da nossa “inteligência”. Estes dois autores apenas nos parecem (e sublinho o “parecem”) “actuais”, porque, por muito que o país tenha mudado (e mudou), continua a ser “atrasado”, quando comparado com uma qualquer Bélgica ou Irlanda. E continuarão a parecer “actuais”, pela simples razão de que Portugal, por muito que venha a mudar, não mudará tanto como gostaríamos. Ou talvez porque venha a mudar, para pior, mais do que tememos que mude.