O Insurgente

Julho 11, 2009

Uma cultura de subsídios

Filed under: Cultura — Carlos Guimarães Pinto @ 19:34

Começo pelo fim então. A dimensão do mercado português não impede empresas portuguesas de produzir o que quer que seja. Hoje não temos mais mercados estanques, e nem a questão da língua serve como desculpa. Artes como a pintura, arquitectura, fotografia, dança não têm o seu sucesso dependente da língua materna dos artistas. Noutras artes, como a música, o exotismo da língua até pode jogar a favor dos artistas. O sucesso de Mariza, Dulce Pontes ou Madredeus fora do país deve-se parcialmente ao facto de cantarem, muito bem, em português.
A extinção dos subsídios levaria ao fim da produção cultural em Portugal? Sim, mas apenas a produção cultural que não interessa. Saramago continuaria a escrever; Mariza, Dulce Pontes, Madredeus, Moonspell e Tony Carreira continuariam a cantar; Paula Rego continuaria a pintar, La Feria a produzir, e sim, Maria João Pires continuaria a tocar. A boa produção artística não precisa de ser subsidiada e, sendo, até corre o risco de deixar de ser boa. Vale a pena pensar no maior exemplo de arte subsidiada: o cinema. Após dezenas de anos de subsídios, o cinema português continua sem produzir obras de destaque e os poucos sucesso que vai tendo de vez em quando devem-se mais à disposição de algumas actrizes para se despirem do que aos méritos dos realizadores. O cinema português não é resultado do génio artístico de niguém, não é pensado para o público, é produzido à medida do burocrata que decide quem subsidiar. É o burocrata que decide o teor da produção cinematográfica em Portugal. Alguém acredita que assim algum dia se produzirá cinema de qualidade? Alguém acredita que um Woddy Allen ou Quentin Tarantino português em princípio de carreira alguma vez passaria o teste do burocrata?
E, sim, também a questão económica, uma questão que vai para além da dicotomia liberalismo/socialismo. Mesmo aceitando como um facto adquirido que o é o estado quem decide como alocar 50% do rendimento dos portuguesas, não se consegue fugir ao facto de que os recursos ao dispor do estado são limitados, e o estado, como qualquer um de nós, tem que fazer escolhas. Subsidiar a cultura significa não subsidiar a saúde, a educação, a justiça e a segurança. Enquanto os portugueses não tiverem acesso a uma saúde, educação, justiça e segurança ao nível dos impostos que pagam, é imoral que se continue a subsidiar produção cultural ou projectos educativos de teor cultural, e é profundamente imoral que artistas fracos ou bons artistas que são terríveis empresários continuem a beneficiar de subsídios para os seus projectos pessoais. Pior ainda quando obtêm ajudas através de cunhas, chantagens e troca de apoios políticos. Aqui nada os diferencia da corja de consultores, empreiteiros, conselheiros, pequenos e grandes empresários e juristas que parasitam o contribuinte português graças à influência que foram ganhando junto dos políticos portugueses.

12 Comentários »

  1. Carlos: No essencial, concordo. Mas a verdade é que a cultura nunca mereceu grandes investimentos. Nunca foi valorizada no nosso país. E isso até pode explicar muitas das falhas noutras áreas.

    Não posso concordar com a subalternização da cultura! A cultura é fundamental, se for abrangente e vista no plano em que deve ser considerada: desenvolver capacidades tão fundamentais como a filosofia, a criatividade, a abertura de horizontes, a análise de realidades, a auto-crítica e a auto-avaliação, etc. É tudo isto que a arte permite, em todas as suas formas e expressões, um exercício mental, psicológico, emocional, afectivo.

    Não somos meros produtores mecânicos de um qualquer produto, há uma necessidade de atribuir um significado mais profundo às nossas vidinhas rotineiras. Daí a importância da música, por exemplo. Se as pessoas não tivessem acesso à sua influência tantas vezes apaziguadora e animadora, eu queria ver onde iríamos parar nesta lufa-lufa histérica ou, pior para alguns, nos labirintos e desertos onde agora se vêem. Continuando na metáfora, a arte como oásis onde as pessoas se passeiam de vez em quando para retomar o caminho com uma novo sentido, uma nova inspiração.

    Contrariamente ao que pensam as nossas elites culturais, as pessoas reagem quando estão perante a arte genuína. (Isto explica o seu distanciamento em relação ao nosso cinema, com uma ou duas excepções). De onde se pode concluir que o problema também está nas nossas elites culturais.

    Não se tem investido assim tanto na cultura, acho eu… E concordo que o pouco que se tem investido tem sido erradamente, na maior parte dos casos.
    Mas a cultura ligada à educação, por exemplo, o ensino da música nas escolas, e também opções como o teatro, o cinema, a fotografia, a pintura, a literatura, etc., aí pode fazer-se imenso… e não serão necessários assim tantos recursos.
    Muitas vezes o problema está na gestão dos recursos financeiros e humanos.

    Quando tivermos responsáveis na gestão cultural com um olhar abrangente e sem preconceitos, proteccionismos ou provincianismos, poderá investir-se na cultura de uma forma inteligente e racional.
    Concordo consigo, gerir dinheiro do contribuinte devia merecer aos responsáveis muito mais respeito do que actualmente merece.

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Julho 11, 2009 @ 20:02

  2. A recuperação/renovação das obras da cultura portuguesa podia criar muitas empresas.
    Exemplo: As esculturas de John Cheere no jardim do Palacio de Queluz.
    Abandonadas e succata em Portugal foram todas para Inglaterra pelo World Monument Fund.
    Felizmente para o patrimonio cultural….
    Ralf

    (Fotografias no link/website)

    Comentário por Ralf — Julho 11, 2009 @ 22:09

  3. Caro Carlos,

    Excelente post.:)

    Comentário por José Barros — Julho 11, 2009 @ 22:24

  4. Mas a cultura ligada à educação, por exemplo, o ensino da música nas escolas, e também opções como o teatro, o cinema, a fotografia, a pintura, a literatura, etc., aí pode fazer-se imenso – Ana Silva Fernandes

    Habitualmente a educação artística é encarada, do ponto de vista do Estado, como pertencendo ao domínio da educação na escola pública. E tem, de facto, sido maltratada, muito pior do que nas escolas privadas. O que “begs the question”: não seria melhor dar autonomia às escolas em termos de disciplinas e programas escolares? Não seria fomentar a concorrência entre escolas, através da concessão de “cheques-ensino” às famílias?

    O grande problema em Portugal é que as pessoas se queixam muito do Estado, mas não conseguem pensar para além do mesmo. E porque as limitações do Estado são imensas, o queixume continuará sem que no essencial se altere seja o que for.

    Comentário por José Barros — Julho 11, 2009 @ 22:29

  5. O Campeonato Nacional de Futebol tem mais Cultura do que tudo o que é subsidiado pelo dito Ministério. Até tem 3 jornais diários.

    Comentário por lucklucky — Julho 11, 2009 @ 23:16

  6. “… não seria melhor dar autonomia às escolas em termos de disciplinas e programas escolares? Não seria fomentar a concorrência entre escolas, através da concessão de “cheques-ensino” às famílias?” – José Barros

    Perfeitamente de acordo. Só estava a defender a importância da cultura e que não devia ser subalternizada. Sou a favor da autonomia escolar. E sou a favor da possibilidade de escolha entre várias opções.

    Quanto “às limitações do estado”, às vezes trata-se mais de uma perspectiva limitada de “cultura” e de má gestão financeira e de recursos humanos, a meu ver.
    Desenvolver ou treinar uma leitura da realidade, um olhar e uma intervenção mais autónoma e responsável é, a meu ver, mais interessante do que perspectivar a cultura apenas em termos museológicos ou de colecções permanentes (que terão mais possibilidades de se auto-financiar).
    Mas esta é uma perspectiva muito pessoal, reconheço.

    Comentário por Ana Silva Fernandes — Julho 12, 2009 @ 00:43

  7. lucklucky,

    Essa cultura não é “elevada”, nem “fina”.

    O post podia ter sido reduzido a uma simples frase: não é justo andarem uns a sustentar outros contra a sua vontade (e isto aplica-se tanto à – dita – cultura como a qualquer outro ramo de actividade). Aliás, dar tantas justificações, caro Carlos, só “dá pontos” àqueles que acham que a cultura é algo “acima” de tudo o resto e que tem uma especial “dignidade”. Não tem.

    Comentário por Filipe Abrantes — Julho 12, 2009 @ 00:49

  8. Já agora, podíamos aproveitar a boleia e exigir a extinção da Cinemateca, casa de tachos e buraco negro de fundos públicos. Mas claro que isso iria desagradar à direita socialista que temos. Tb teríamos as correntes de solidariedade inconfessas dos amigos do Mexia, os raposos, lombas e cia. NÃO PODEMOS PRIVATIZAR INTEIRAMENTE A CULTURA!!!

    Comentário por Filipe Abrantes — Julho 12, 2009 @ 00:53

  9. Touche Filipe.

    Comentário por lucklucky — Julho 12, 2009 @ 08:23

  10. atenção aos “xutos”. afinal a canção já não é uma “arma”.

    Comentário por aristofanes — Julho 12, 2009 @ 12:22

  11. “A extinção dos subsídios levaria ao fim da produção cultural em Portugal? Sim, mas apenas a produção cultural que não interessa.”
    A produção cultural que não interessa??? O burocrata em que V.Exa. zurze mais abaixo não diria melhor. A diferença entre os dois é que um diz o que interessa e o outro- V. Exa.-, confundindo absolutamente a noção de interesse com a de sustentabilidade, decide o que não interessa.

    “A boa produção artística não precisa de ser subsidiada e, sendo, até corre o risco de deixar de ser boa.”
    A boa produção artística??? Ai que ainda um dia alguém há-de macular o seu glorioso pensamento chamando-lhe jdanovista.
    E já agora, essa produção artística seria boa porquê? Por lhe cair no goto?
    Quanto ao facto de a arte subsidiada poder deixar de ser boa por causa disso, não comento.
    Quando trauteio uma música ou tento imitar a deixa de um filme não vou às letras pequeninas ver se por ali andou algum subsídio, não vá o diabo tecê-las e eu, a bem do dinheiro do contribuinte, passar a detestar aqueilo de que tanto tinha gostado.
    Ai o Aniki-Bóbó foi subsidiado??? Na na na na, não estou a ouvir!!!

    “A disposição de algumas actrizes para se despirem”.
    Oh meu bom amigo, partilhe comigo. Enquanto o novo Sexy Hot não emite, sempre podia ir à Cinemateca, à Gulbenkian ou a Serralves ver umas gajas nuas. Calculo que se fosse ao Sá da Bandeira não haveria problemas desses porque o tipo que estivesse a masturbar-se ao meu lado seria o “seu” contribuinte. À Cinemateca, à Gulbenkian e a Serralves é que só vai pessoal fugido ao Fisco.

    Sempre ao dispor, aqui lhe garanto que da próxima vez que a Maria João Pires esgotar a Casa da Música, telefono a dizer que há lá uma bomba. E para a lixar faço sotaque brasileiro.

    Comentário por António Pedro — Julho 13, 2009 @ 18:49

  12. Há formas de cultura que de outra forma não poderiam existir sem o mecenato, como é o caso da música dita erudita, de tal forma que já esta música tem como tradição viver de uma outra instituição com poder financeiro (Igreja, Nobreza, Estado, etc.).

    Parece-me que há actividades em que o Estado tem a obrigação de subsidiar porque doutra forma não poderiam existir, e muitas vezes estas existindo acabam por se tornar fundamentais. Por exemplo, há actividades intelectuais que não produzem nenhum produto imediato visível, mas o seus frutos podem ter o potencial de se tornar bem mais necessários para a nossa melhor vivência, do que mais que auto-estradas, aeroportos gigantes, TGVs ou barragens.

    Quem já viveu de perto uma obra pública de grande dimensão conhece bem os seus imbróglios, a má gestão, a pouca eficiência. Subsidiar a cultura também pode correr mal (mas isso não é novidade nas actividades públicas…), porque quem é subsidiado não tem trabalho / perfil que o mereça, mas certamente poucos vão ficar ricos, burgueses e gordos com os fundos para a cultura, ao contrário da típica figura do empreiteiro / político de obras públicas que enriquecem construindo, muitas vezes, apenas belas coisas para deitar abaixo mas sempre extremamente encarecidas.

    É preciso apoiar algumas actividades ditas culturais, numa perspectiva eficiente na “gestão dos recursos financeiros e humanos”. A questão do subsídio deve-se prender nos critérios da sua atribuição. Critérios que valorizem o trabalho e sua qualidade, independentemente do seu valor comercial. Porque apenas valorizar os “vendedores” e não outros tipos de trabalho (científico / artístico, não há grande razão em os distinguir!), pode ser muito pernicioso.

    Comentário por Bruno — Julho 13, 2009 @ 18:51


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