O Insurgente

Julho 9, 2009

Sobre manifestos, parasitismos culturais e obras públicas

Filed under: Comentário,Cultura,Economia,Livros,Teoria — João Luís Pinto @ 14:09

Katrina, o furação devastador que assolou Nova Orleães em 2005, levou inúmeros políticos à televisão no pleno exercício da política. Estes legisladores, movidos pelas imagens da devastação e das vítimas revoltadas que perderam as suas casas, fizeram promessas de que iriam proceder à “reconstrução”. Foi um gesto de extrema nobreza da parte deles fazer algo de humanitário, erguer-se acima do nosso egoísmo abjecto.
Prometeram fazê-lo com o seu próprio dinheiro? Não. Iriam usar dinheiro público. Tenha em conta que esses fundos seriam retirados de outro lado, como no provérbio: “Tira-se a Pedro para se dar a Paulo”. Esse outro lado será menos mediatizado. Poderá ser a investigação contra o cancro financiada por capitais privados ou os futuros esforços para combater a diabetes. Pouco parecem dar atenção às vítimas do cancro que padecem, sós, num estado de depressão não televisionada. Não só esses pacientes com cancro não votam (estarão mortos por altura do próximo acto eleitoral), como não se manifestam perante o nosso sistema emocional. Morrem mais doentes de cancro todos os dias do que as pessoas vítimas do furacão Katrina; são eles quem mais precisa de nós – não só da nossa ajuda financeira, mas da nossa atenção e da nossa amabilidade. E poderão ser eles a quem o dinheiro será retirado . indirectamente ou, até mesmo, directamente. O desvio de dinheiro (público ou privado) da investigação poderá ser responsável pela morte dessas pessoas – num crime que permanecerá no silêncio.
Uma ramificação desta ideia prende-se com a nossa tomada de decisões sob uma nuvem de possibilidades. Vemos as consequências óbvias e visíveis, não as menos óbvias e visíveis. Contudo, os que não vemos podem ser – não, são geralmente – mais relevantes.

Nassim Nicholas Taleb, O Cisne Negro – o impacto do altamente improvável, 2ª edição, D. Quixote, 2007, pp. 160-161.

6 Comentários »

  1. Excelente citação. Foi um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos, mas algumas das teorias do autor são potencialments perigosas. A defesa dos impostos progressivos baseado na teoria de que o sucesso é resultado do factor sorte e não de esforço e mérito individual é profundamente infeliz. O exemplo de Onassis é confrangedor, típico de uma certa esquerda ressabiada.

    Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Julho 9, 2009 @ 15:03

  2. Estamos muito humanitários.
    Pensei, por momentos, que seria uma apologia ao potencial rendimento de prostituição como financiamento de curas contra o cancro.

    Comentário por stingbite — Julho 9, 2009 @ 15:39

  3. [...] Uma excelente citação retirada do livro O Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb: Sobre manifestos, parasitismos culturais e obras públicas. [...]

    Pingback por O que se vê e o que não se vê | OrdemLivre.org/blog — Julho 9, 2009 @ 15:53

  4. Carlos,

    Ainda não acabei, e estou a chegar exactamente ao ponto do exemplo do Onassis. :-)

    Mas que é extremamente interessante, é.

    Comentário por João Luís Pinto — Julho 9, 2009 @ 18:03

  5. Portanto, o sr. Taleb acha que devemos investir mais nos doentes com cancro, coitadinhos, apesar de ser certo e sabido que eles morrerão, do que nos desalojados do Katrina, os quais permanecerão vivos. O sr. Taleb é muito humano e compassivo e pretende dar atenção e amabilidade aos doentes com cancro. Os quais são, em boa parte, um sorvedouro sem fundo de dinheiro. Mas o sr. Taeb gosta deles, porreiro.

    Já não bastam as pessoas estilo Terri Schiavo que enchem os nossos hospitais, em estado vegetativo irrecuperável mas a gastar dinheiro ao erário público.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 9, 2009 @ 18:15

  6. Lavoura,

    Por falar em riscos para a saúde pública: já mandou fazer obras na tal varanda ou está a ser negligente de propósito à espera que caia alguém para depois culpar o neoliberalismo?

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 9, 2009 @ 18:57


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