
Ninguém tem a ilusão ou ingenuidade de conceber um Partido Social Democrata liberal. Tão pouco imaginar que é possível, em Portugal, um governo verdadeiramente liberalizador da sociedade, da economia e da política em geral. O liberalismo, como reiteradamente tem sido dito e escrito, não é um programa de governo e não serve de ideário partidário. É mais uma pedagogia social do que política. Serve mais para tornar os cidadãos conscientes dos seus direitos perante a política e o estado do que para operar o milagre do estado e do governo lhos reconhecerem unilateralmente.
Posto isto, entre o socialismo e a economia de mercado existe um espaço muito razoável. Aquilo em que temos vivido é, de há trinta anos para cá, socialismo mais ou menos soft, mais ou menos hard, conforme quem governa e as circunstâncias da época. O que se esperaria, neste momento, do PSD não era a sua transformação num partido defensor de um estado mínimo, tão pouco um feroz inimigo do estado. Mas também não era de esperar que viesse dizer que o estado actual é para manter, com diferenças de pura metodologia governativa.
Mesmo para um partido social-democrata é possível reduzir os impostos, aumentar a participação da sociedade na vida civil, devolver a esta funções que abusivamente o estado lhe foi retirando ou impondo, como a educação e a segurança social, privatizar mostrengos e prostíbulos do regime como a CGD ou a RTP, limitar os abusos do poder, tornar clara e eficaz a justiça, simplificar as leis, impor responsabilidade ao estado e aos seus agentes na relação com os cidadãos, diminuir a capacidade de ingerência dos poderes públicos na vida privada, revogar leis iníquas, fazer findar os métodos medievais de obter “justiça”, como as listas de “criminosos”, etc.
Estranhamente, sobre tudo isto o PSD não se tem pronunciado. E não é necessário produzir um tratado político de governação para dizer a um país o que se pretende fazer destas coisas. Reagan reformou e relançou a América e foi sempre um homem de ideias simples e lineares. E muito claras, acima de tudo. Até ao momento, sabemos duas coisas do PSD de Manuela Ferreira Leite: que se identifica com o Estado Social descrito (mas não cumprido) pelo governo socialista; que não descerá os impostos, porque não lhe será possível fazê-lo. Estamos, assim, em regime de puro rotativismo do bloco central, onde tudo se conserva, nada se transforma e onde as coisas devem permanecer como são, por não haver espaço para outras. O PSD poderá servir para desalojar Sócrates e os seus do governo. Para criar o tradicional estado de graça e a ilusão de que tudo será melhor, por um ano ou dois. Mas não mais do que isto.
E entretanto o número da dívida continua a aumentar…até ao dia em que acontece como na California e se paga com papeís…
Comentário por lucklucky — Julho 9, 2009 @ 21:33
Como sabe o Rui A., porque já foi comentado por mim e por outros nestas caixas, até em discussão consigo, o programa do PSD será apresentado no final do mês. Pelo que estes posts em jeito de “ainda não ouvi nada sobre nada, mas já sei que é péssimo” não fazem grande sentido. Quando muito, seria possível comentar as duas ou três propostas concretas que, segundo os jornais, farão parte do programa (liberalizar a contratação a termo, aumento das taxas moderadoras na saúde). Mas nem isso o post faz.
Comentário por José Barros — Julho 9, 2009 @ 22:06
Manuela Ferreira Leite, por alguma razão convidou os liberais q.b. a coordenadar e a dar contributos para o programa economico do PSD, como Antonio Borges e Alexandre Relvas, por exemplo! julgo que farão o melhor possivel, dentro da conjuntura economica e social que o país atravessa, sem loucuras ideologicas e com bom senso!
Comentário por tric — Julho 9, 2009 @ 23:46
Diz que é uma espécie de lei de Lavoisier invertida.
Comentário por fcr — Julho 10, 2009 @ 00:35
(Recuperando comentários aí abaixo)
José Barros, a desesperança não tem que ver com programas que, como é hábito, não passam de piedosas intenções, o fundo da coisa é que, como diz o Rui, o PSD assume-se como gestor deste decrépito Estado Social, dê-se a volta que se lhe der. Tudo pelo Estado Social nada contra o Estado Social. Pode pedir-se mais, muito mais, sem nos preocuparmos com pureza ideológica, doutrinas mais ou menos liberais ou, sequer, com o desmantelamento da coisa. O “rasgar” era um bom princípio e não é líquido que fizesse perder votos.
Nuno Branco,
quanto a fugir para onde, a Suécia é um refúgio razoável (embora frio e sem ondas decentes) mas Espanha serve.
Comentário por Helder — Julho 10, 2009 @ 00:43
Eu gosto é da imagem do Reagan.
Foi uma pena ele não se ter reproduzido tendo como parceira a Margaret Thatcher!
A falta que nos fazia um Ronald Thatcher ou uma Margaret Reagan… (suspiro)
Comentário por Manuel Andrade — Julho 10, 2009 @ 01:24
Tudo pelo Estado Social nada contra o Estado Social – Helder
É uma visão maniqueísta da política que eu não partilho.
Entre o Estado Social e o Estado Liberal há uma estrada longa a percorrer. O que exijo de um governo do PSD é que inicie o caminho. As medidas que já referi em matéria de arrendamento, contratos de trabalho, saúde (veja-se as propostas do instituto Sá Carneiro relativamente à liberdade de escolha do serviço de saúde por parte do utente ao fim de um curto tempo de espera por atendimento) são passos significativos.
O discurso de que este PSD será mais do mesmo afigura-se-me falso e perigoso, porque contraria o ditado alemão que manda não se ” atirar a criança com a água do banho”. Quanto às promessas eleitorais, terá o Helder de se decidir: se as intenções são apenas piedosas, então também terá que desvalorizar e relativizar as partes do discurso de Derreira Leite que não lhe agradam. Pessoalmente até acredito que, por razões pragmáticas, será mais difícil a Ferreira Leite incumprir as suas promessas. Quando a mesma se apresenta como a candidata do discurso de verdade não pode arriscar tal incumprimento, sob pena de perder o seu maior trunfo eleitoral.
Sócrates não tem isso problema: ele sabe que as pessoas não votam nele por confiarem na sua palavra, mas talvez porque o vejam como um homem determinado, “de acção”, segundo uma concepção levemente autoritária que cai bem em parte significativa do eleitorado.
A
Comentário por José Barros — Julho 10, 2009 @ 02:00
Conto-lhe só um caso na minha cidade. tínhamos uma bela forma de conseguir dar a volta à crise. temos umas termas , as únicas do estado , e cobiçadas por empresas privadas , estamos a 5 minutos de óbidos , uns 30 de fátima , 50 de lisboa , 25 da nazaré , tudo destinos conhecidos no estranja ( fátima , olala ), muitas praias , campo , golf , o que quiser. não saímos da cepa torta porque é o estado que tem a palavra final e parece que não abdica de uma tal fundação público privada de modo a manter uns tantos assessores tipo Luis Patrão nos cargos de administração . ou seja , a expectativa de lugares de nomeação política entrava muita coisa e lixa muitas pessoas que querem apenas trabalhar.
quando fala de estado é bom que tenha na mente uns tantos que apenas querem usufruir dos recursos do estado. e limitam as hipoteses de desenvolvimento pensando : quantos dos “nossos” poderemos colocar aqui?.
Fundamental , prioritário , acabar com cargos de nomeação política.
è vergonhoso o que se passa connosco , sério. problemas de centro histórico desertificado , desemprego na cerâmica , etc , tinham uma solução natural dando largas à iniciativa privada que já mostrou que está interessada no caso. mas sózinha , sem “Patrões ” à mistura.
Comentário por mf — Julho 10, 2009 @ 02:01
Caro José Barros,
Em primeiro lugar, é um pouco bizarro que só se possam comentar “duas ou três propostas concretas que, segundo os jornais, farão parte do programa” do PSD, o partido que se perfila para substituir o PS no governo, a menos de três meses das legislativas. O resto parece ser um segredo oculto a profanos, apenas ao acesso de iniciados nos sagrados mistérios do laranjal, na hipótese mais benevolente, ou pura e simplesmente não existe, por ninguém ter pensado no assunto até às eleições europeias, numa hipótese talvez mais realista mas bem menos tranquilizadora.
De todo em todo, parece-lhe inútil comentar as últimas afirmações da líder do partido sobre o Estado Social e as políticas sociais de Sócrates, as tais que, segundo ela, só são de penar por terem ficado aquém do que deveriam ter ido? Acha que um monte de folhas escritas, sabe-se lá por quem, pode ser mais revelador do que fará um governo chefiado por Manuela Ferreira Leite, do que as opiniões da líder e eventual futura primeiro-ministro?
Comentário por ruialbuquerque — Julho 10, 2009 @ 02:26
Caro Rui A.,
Já reconheci “n” vezes que Ferreira Leite tem dificuldades de expressão que resultam em “gaffes” mais ou menos graves. Esta última em particular é grave. Porque exibe uma contradição flagrante com declarações anteriores. E isso não me sossega, porque tenho receio de que o próximo governo do PSD se assemelhe em trapalhadas discursivas a este governo ou ao de Santana Lopes. Por isso, reconhecço que, de facto, há um problema de comunicação que tem de ser resolvido.
Dito isto, o Rui A. interpreta estas declarações – e não as outras anteriores ou as propostas já conhecidas do PSD – como a verdadeira marca de um futuro governo do PSD. E nisso estamos em desacordo. Para mim, do que se tratou foi de um desatino, resultante do facto de, da primeira vez, se tratar de um discurso “para as hostes” e no segundo de corrigir declarações em resposta às críticas do governo e dos comentadores em geral. Ou seja, em termos de substância estas e as anteriores declarações não me dizem nada, para além da questão problemática da incoerência discursiva. O que me dirá mais em termos – repito – de substância é o programa eleitoral do PSD. E isto porque a candidata se assumiu como portadora de um discurso “de verdade”, pelo que não terá condições de renunciar às promessas que constarem desse programa. Sob pena de total descredibilidade. Como já referi, Sócrates não tem esse problema, porque já não conta que as pessoas votem nele por confiarem no seu discurso. Daí as promessas de 5000 estágios não o incomodarem minimamente, nem mesmo o facto de já ninguém acreditar nelas. Para Sócrates o que interessa é descredibilizar MFL e aparecer como o “homem ao leme”, o “homem de acção” contra o bota-baixismo da oposição. É essa a razão pragmática que me leva a acreditar nas promessas do PSD e não nas do PS. E por isso considero que o momento decisivo para avaliar as ideias de Ferreira Leite acontecerá quando o programa eleitoral for conhecido. Pouco importa que o seja a dois meses das eleições. O meu entendimento da política é o de que a alternativa deve precisamente surgir aí e não antes, porque “antes” significaria que o programa fosse alvo da campanha rasteira do PS com prejuízos para o esclarecimento dos eleitores.
Um abraço,
Comentário por José Barros — Julho 10, 2009 @ 03:06
porque “antes” significaria que o programa fosse alvo da campanha rasteira do PS com prejuízos para o esclarecimento dos eleitores – Eu
Em jeito de esclarecimento, hoje tivémos um bom exemplo do que aconteceria se o programa do PSD fosse apresentado mais cedo. Saíram nos jornais as propostas do PSD para o sector da saúde: aumentar as taxas moderadoras e conferir liberdade de escolha do estabelecimento de saúde por parte dos utentes em listas de espera para intervenções cirúrgicas. O PS convocou uma conferência de imprensa para acusar o PSD de desmantelar o SNS, agitando o papão neoliberal, sendo certo que o fantasma consegue ser efectivo numa população de 9 milhões que ainda não aprendeu a viver sem Estado e sistemas de serviços universais e tendencialmente gratuitos. Percebe-se por que razão é que o PSD tem de ser cuidadoso nos timings e na forma que escolhe para a apresentação das suas propostas…
Comentário por José Barros — Julho 10, 2009 @ 03:13
por isso votarei no cds
Comentário por Ana — Julho 10, 2009 @ 05:01
“devolver [à Sociedade Civil] funções que abusivamente o estado lhe foi retirando ou impondo, como a educação e a segurança social”
E a saúde, não?
Por que não? Porque é que alguns liberais falam sempre de privatizar a educação e a segurança social, mas têm medo de propôr a privatização da saúde?
Comentário por Luís Lavoura — Julho 10, 2009 @ 09:54
José Barros,
“as propostas do instituto Sá Carneiro relativamente à liberdade de escolha do serviço de saúde por parte do utente”
não conheço essas propostas, mas não considero isso verdadeira liberalização da saúde.
Liberalização da saúde é cada um poder comprar os cuidados de saúde que quiser, com o seu próprio dinheiro poupado para esse fim.
Não é as pessoas escolherem o serviço que quiserem mas ser o Estado a pagar. Isso não é liberalização, isso é os privados a chularem o Estado.
Comentário por Luís Lavoura — Julho 10, 2009 @ 09:59
mf,
“umas termas , as únicas do estado”
Não são as únicas do Estado. As termas de São Pedro do Sul (as maiores do país!) pertencem ao município, as termas de Manteigas pertencem ao INATEL, etc.
Comentário por Luís Lavoura — Julho 10, 2009 @ 10:01
Causa-me estranheza ver o José Barros a olhar para este PSD de uma forma, digamos, tão ingénua.
O PSD desperdiçou uma grande oportunidade de deixar a sua marca em 2002. Agora teria que, além de fazer aquilo que não fez quando lá esteve, fazer melhor e sobretudo mais do que fez este PS no seu período inicial.
E quanto ao programa eleitoral,( vai, com certeza, estar muito bonitinho tanto para liberal ver como para o eleitor mais ao centro) chego a duvidar da sua importância.A retórica pré-eleitoral, por vezes, é só isso mesmo.Mais uma vez ver 2002.
Comentário por Plus — Julho 10, 2009 @ 15:54
E quanto ao programa eleitoral,( vai, com certeza, estar muito bonitinho tanto para liberal ver como para o eleitor mais ao centro) chego a duvidar da sua importância.A retórica pré-eleitoral, por vezes, é só isso mesmo.Mais uma vez ver 2002. – Plus
Caro Plus,
Para votar no PSD não preciso de ser ingénuo. Basta-me a constatação de que este governo foi miserável, não só porque todos os indicadores económicos o comprovam, mas porque aumentou o autoritarismo, o clientelismo do Estado e as possibilidades de corrupção e tráfico de influências (vide, medidas como o ajuste directo para obras de valor superior a 5 milhões de Euros). O voto útil é claramente no PSD, porque, podendo ser mau, não será tão mau quanto a este governo.
Mas dito isto: há diferenças entre os partidos que não são tão microscópicas como se pretende fazer crer. Desde logo, nas medidas para as PME`s e na questão das obras públicas. E nisso não creio que seja ingenuidade pretender que Ferreira Leite não tem margem de manobra para trair o seu eleitorado. Até porque – tudo o indica – não terá maioria absoluta.
Comentário por José Barros — Julho 10, 2009 @ 16:06
Abortar os serviços prestados pelo estado para irem para o privado. Resolve parte do problema, principalmente daqueles que querem garantias à brava de negócio e rendimentos. De outra forma e com o mesmo objectivo temos os “ocupas” de lugares na hierarquia do estado, com que conseguem manter e arejar, aqueles que desse ar querem respirar, a lógica do partido único do rotativismo, onde os lucros são deles, as obras são deles, e quem paga é o povo que paga impostos.
Comentário por Dedal — Julho 12, 2009 @ 22:15