O Insurgente

Julho 8, 2009

A Lei de Say e o erro central do keynesianismo

Filed under: Economia,Política,Teoria — André Azevedo Alves @ 21:39

Lord Keynes e a Lei de Say. Por Ludwig von Mises.

A principal contribuição de Lord Keynes não esteve no desenvolvimento de novas ideias, mas, sim, “em fugir das antigas”, como ele mesmo declarou no fim do prefácio de sua Teoria geral. Os keynesianos dizem-nos que seu feito imortal consiste na refutação cabal do que veio a ser conhecido como Lei dos Mercados ou Lei de Say. A negação dessa lei, afirmam, é a essência de todas as lições de Keynes; todas as outras proposições de sua doutrina derivam, por necessidade lógica, desse insight fundamental e têm de ruir se o fracasso desse ataque na Lei de Say puder ser demonstrado.

É importante compreender agora que aquilo que é chamado de Lei de Say foi, num primeiro momento, proposto como refutação de doutrinas popularmente aceitas nos tempos anteriores ao desenvolvimento da economia como um ramo do conhecimento humano. Ela não era uma parte integrante da nova ciência econômica conforme ensinada pelos economistas clássicos; era, antes, um preâmbulo — a revelação e a eliminação de ideias deturpadas e insustentáveis que turvavam a mente das pessoas e eram um sério obstáculo à analise racional das circunstâncias.

(…)

Bens, diz Say, são pagos, em última análise, não com dinheiro, mas com outros bens. O dinheiro é simplesmente o meio de troca mais comumente utilizado; ele desempenha apenas um papel intermediário. O que o vendedor quer receber em troca pelos bens vendidos são, em última análise, outros bens. Cada bem produzido é, por conseguinte, um preço, digamos assim, por outro bem produzido. Qualquer aumento na produção de um bem melhora a situação do produtor de qualquer outro bem. O que pode prejudicar os interesses do produtor de um bem determinado é não antecipar corretamente o estado do mercado. Ele superestimou a demanda dos consumidores por seu bem e subestimou sua demanda por outros bens.

(…)

Os embates entre os defensores da moeda estável e os inflacionistas perpetuaram-se por muitas décadas. Mas não eram mais considerados uma controvérsia entre várias escolas econômicas. Eram vistos como um conflito entre economistas e anti-economistas, entre homens racionais e fanáticos ignorantes.

(…)

Tudo foi diferente com a “nova economia” de Lord Keynes. As políticas que ele defendia eram exatamente aquelas que quase todos os governos, inclusive o inglês, já haviam adotado muitos anos antes de sua Teoria geral ser publicada. Keynes não foi um inovador e defensor de novos métodos de gerir assuntos econômicos. Sua contribuição consistiu, na verdade, em oferecer uma justificação visível às políticas que eram populares entre aqueles no poder apesar do fato de todos os economistas verem-nas como desastrosas. Seu feito foi racionalizar as políticas já praticadas. Ele não foi um “revolucionário”, como alguns de seus adeptos chamavam-no. A “revolução keynesiana” ocorreu antes de Keynes aprová-la e fabricar uma justificação pseudo-científica para ela. O que ele de fato fez foi escrever uma defesa das políticas prevalentes dos governos.

16 Comentários »

  1. Diga-se que, nas passagens citadas, Mises acaba por não provar que a “Lei de Say” está correcta (limita-se a “transcrever” o que Say dizia), logo não demonstra o tal “erro central do keynesianismo”.

    Mas, de qualquer forma, uma sugestão aos leitores: se tiverem uma conta com acesso electrónico, abram outra janela/separador do browser e vejam quanto dinheiro têm na conta à ordem. Se for maior que zero (ou pelo menos, maior que as vossas despesas para um dia), porquê?

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 8, 2009 @ 23:03

  2. MM, fizeste alguma aposta com alguém que ias levar o sistema bancário nacional à falência antes do fim de semana? :P

    Comentário por Nuno Branco — Julho 8, 2009 @ 23:13

  3. Se pensarmos em longo prazo: a muito maior produção hoje em dia do que há 100 anos “criou” a sua própria procura.

    E explicação é a chave para compreender o crescimento económico.

    A produção total só pode subir quando o mesmo consegue ser produzido com menos recursos, deixando recursos libertos par produzirem acréscimos (novos produtos ou mais do mesmo).

    E isso só com acumulação de capital e inovação (poupança e investimento).

    Comentário por CN — Julho 8, 2009 @ 23:19

  4. Excelente e muito pertinente.

    Seria importante que se desmistificasse o “name dropping” da esquerda no tocante às respostas socialistas à presente crise. É um combate por fazer e no qual a direita está a ser derrotada. Porque não tem contraposto nada – ou, pelo menos, não o tem feito de forma audível e ressonante – à ideia de que, em tempos de crise, a única receita é a do investimento público.

    Comentário por José Barros — Julho 9, 2009 @ 00:04

  5. “Seria importante que se desmistificasse o “name dropping” da esquerda no tocante às respostas socialistas à presente crise. É um combate por fazer e no qual a direita está a ser derrotada. Porque não tem contraposto nada – ou, pelo menos, não o tem feito de forma audível e ressonante – à ideia de que, em tempos de crise, a única receita é a do investimento público.”

    É verdade. Mas falta formação, falta espaço nos media, falta tempo a quem poderia contribuir: falta quase tudo…

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 9, 2009 @ 00:20

  6. O que é um economista inflacionista?

    Comentário por Luís Oliveira — Julho 9, 2009 @ 08:43

  7. “Bens, diz Say, são pagos, em última análise, não com dinheiro, mas com outros bens.”

    Isto pode ser verdade a muito longo prazo, e ser completamente falso a curto e médio prazo.

    Eu, por exemplo, tenciono agora vender uma propriedade que possuo, e vou receber em troca dinheiro que vou colocar no banco, sem qualquer intenção de o gastar nos tempos mais próximos ou, sequer, previsivelmente. A minha propriedade (um bem) não vai ser paga com bens, vai ser paga com dinheiro que eu não tenciono gastar, nem agora nem no futuro previsível.

    O problema é que há muitas pessoas que vivem no curto prazo. Precisam de ter um emprego e de receber um salário todos os meses. Precisam de adquirir bens todos os dias. Para essas pessoas que precisam de um emprego e de um salário a curto prazo, o facto de pessoas como eu deixarem o seu dinheiro ficar no banco é mortífero. Para elas não basta que a lei de Say se realize, é necessário também que ela se efetue rapidamente.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 9, 2009 @ 09:44

  8. “O que é um economista inflacionista?”

    Quase todos.

    - Todos os que acham que existe um bem social no crescimento contínuo da massa monetária para crescimento de crédito
    - Todos os que acham que descida de preços é mau em si mesmo
    - Todos os que acham que em crise é preciso injectar moeda para pro mais crédito a “circular”
    - Todos com o “mind set” que o crédito é uma função autónoma em sim mesmo, desligada da poupança prévia
    - Todos os que acham que o actual sistema quer permite aos bancos, conceder crédito por pura criação de moeda, em vez de pura intermediação entre poupança prévia e investimento
    - Todos os que acham bem que “Depositos à Ordem” constituam na verdade Crédito Concedido aos Bancos
    - Todos os que acham bem mais monetização (criação de moeda para comprar Dìvida Pública) para financiar déficits públicos: basta olhar para os balanços dos Bancos Centrais.

    Na verdade todos os que têm constribuído para a existência desde sempre de bolhas e crises económicas, mas agora globais em todos o sistema monetário internacional (quando antes ao menos eram mais localizadas, embora as causas fossem as mesmas: expansão de crédito por criação de moeda)

    Podemos agradecer as crises a toda a doutrina económica dominante.

    Comentário por CN — Julho 9, 2009 @ 10:28

  9. Eu creio que Keynes era tudo menos um economista inflacionista. Ele escreveu parágrafos muito claros contra a inflação. Ainda há pouco tempo transcrevi um no meu blogue.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 9, 2009 @ 10:35

  10. Luis Lavoura : “A minha propriedade (um bem) não vai ser paga com bens, vai ser paga com dinheiro …”

    O que Say queria dizer é que quem vai comprar a propriedade do Luis Lavoura tem de o fazer a partir de um rendimento (na forma de dinheiro, naturalmente) que por sua vez resultou da venda de bens ou serviços.

    O que Keynes se propoe fazer é criar rendimento monetario que não resulta directamente de uma actividade produtiva mas sim de despesas publicas financiadas através da simples criação de moeda (o “dinheiro” de Say).

    Luis Lavoura : “… Keynes era tudo menos um economista inflacionista.”

    Pelo menos numa fase inicial há mais moeda em circulação para uma produção ainda limitada.
    Por isso os preços sobem, ha inflacção. A receita de Keynes é inflacionista.

    Também é verdade que Keynes considerava que o surto inflacionista seria de curto prazo e seria absorvido posteriormente, na fase de expansão, pelo aumento da produção e pela passagem do déficit ao excedente no orçamento publico.
    Aspecto que os “neokeynesianos” posteriores, ao defenderem politicas expansionistas permanentes e de longo prazo, descuraram.

    O problema com a politica expansionista e inflacionista de Keynes é que nada garantia à partida que o estimulo da procura seria necessariamente e rapidamente seguido de um aumento de produção e emprego.
    Até porque Keynes, concentrando-se na procura global, descurava outras condições microeconomicas necessarias ao investimento, ao emprego, à actividade, em particular das empresas (o “lado da oferta”) : carga fiscal, mercado de trabalho, estabilidade na evolução dos preços relativos, etc.

    Comentário por Fernando S — Julho 9, 2009 @ 12:06

  11. “Keynes era tudo menos um economista inflacionista.”

    Sim, existe uma uma citação que diz qualquer coisa como ser a inflação o meio mais directo de destruir uma economia.

    Mas nem Keynes se mostra muito consistente quer nunca se refere à componente inflacionsta via expansão de crédito.

    Assim, quer Keynesianos quer Monetaristas são ou podem ser sensíveis à inflação na sua forma mais visível de financiar directamente a despesa do Estado.

    Já quanto à expansão do crédito (necessáriamente por expansão/inflação quantitativa de moeda) para investimento e taxas de juro baixas é tudo facilidades.

    Keynes: The right remedy…is not to be found in abolishing booms…but in abolishing slumps and thus keeping us permanently in a quasi-boom

    Krugman 2002: Low interest rates, which promote spending on housing and other durable goods, are the main answer.

    Krugman 2009: To be honest, a new bubble now would help us out a lot even if we paid for it later. This is a really good time for a bubble…

    Comentário por CN — Julho 9, 2009 @ 12:06

  12. “O problema é que há muitas pessoas que vivem no curto prazo. ”

    Mas desde quando é que a “Lei de Say” quer dizer que se eu me puser a produzir qualquer coisa sem pensar nisso, vai ter procura?

    Nunca quis dizer isso.

    No entanto, qualquer um que sai do curso de eocnomia, acha por primeira missão negar e ridicularizar a “Lei de Say” que na verdade é a mais pequena explicação para o crescimento eocnómico que conheço.

    O capitalismo não é uma “sistema de lucros”, Seria mais correcto dizer que é um de “prejuízos”, onde os sistemáticos são eliminados.

    Por este processo, só os novos investuimentos que conseguem realmente baixar custos sobrevivem.

    E assim, nova produção pode ser realizada.

    Comentário por CN — Julho 9, 2009 @ 12:13

  13. [...] Leitura complementar: A Lei de Say e o erro central do keynesianismo. [...]

    Pingback por Keynesianismo Clássico vs. Keynesianismo Popular Português « O Insurgente — Julho 9, 2009 @ 12:17

  14. O Luis Lavoura também fala de outro fenómeno mal compreendido:

    O do guardar o dinheiro no Banco. Seria mais correcto falar de “quardar dinheiro na almofada” para ficar bem claro, dada a confusão entre DO e crédito ao Banco.

    Quando alguém vende alguma coisa (activo ou força de trabalho) e recebe dinheiro e o guarda:

    - está a retirar dinheiro de circulação e aumentado o seu saldo de moeda, e isso afecta em baixa o nível geral de preços, aumentando o poder de compra de todos saldos monetários o que aumenta a tendência a diminuir o valro absoluto dos saldos monetários

    - por outro lado, quando alguém aumenta saldos de moeda é para ter a capacidade de os utilizar do futuro

    - mas mesmo que toda a vida a produzir mas A acumular toda a moeda recebida sem nada consumir, apenas significa que essa pessoa andou a trabalhar para todos sem nada custar à sociedade…os restantes membros só ficam a ganhar. No final se quando morresse as moedas fossem destruída, em nada a economia ficava a perder, a não ser uma espécie de escravo que desaparecia.

    Comentário por CN — Julho 9, 2009 @ 14:00

  15. ““O que é um economista inflacionista?”

    Quase todos.”

    LOL!

    Comentário por Luís Oliveira — Julho 9, 2009 @ 16:33

  16. uem tem “razão” no que diz respeito O.A (oferta agregada) e D.A (demanda agregada)?
    Esta é a chave central das duas teorias…

    Comentário por ED — Junho 14, 2010 @ 03:15


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