O Insurgente

Julho 3, 2009

Sócrates e a “Fortuna”

Filed under: Comentário,Livros,Política,Portugal,Teoria — Bruno Alves @ 17:38

(também publicado aqui)

Ontem, na Quadratura do Círculo (Flashback, para os saudosistas, e Tempo de Antena, para António Costa), o Presidente da Câmara de Lisboa, num daqueles momentos de falta de vergonha que, quando se trata da personagem, nunca escasseiam, disse que “a única” (imagine-se, a única) coisa que “correu mal” ao Governo foi “a sorte” (por, claro, não ter tido). Pacheco Pereira, que leu uns livros, logo exclamou: “a Fortuna”. António Costa, que leu menos (para ser simpático) não percebeu. E Pacheco Pereira, infelizmente, não explicou. Assim, o autarca lisboeta ficou sem saber que a “Fortuna” é um elemento que Niccolo Machiavelli, esse senhor que todos conhecem (mal), tratou no seu famoso O Princípe.

Se tivesse lido o livro (e compreende-se que tenha ficado pelos resumos, porque O Princípe não é das leituras mais agradáveis), António Costa saberia que, se há coisa com a qual um político não deve desculpar o seu fracasso, é com a “Fortuna”. Para Machiavelli (perdoem-me se não “traduzo” o nome do senhor), a “Fortuna” era “como um daqueles rios” que “se encolerizam e inundam as planícies em redor, destroem árvores e casas, tiram de um lado da terra para dar de outro”, e “diante” dos quais “todos fogem” e “cedem”, “sem nada poder fazer para os conter”. No entanto, ela é também como uma “mulher”, que, para se “conservar submissa”, é necessário “espancar” e “violar” (o homem não estava, de facto, em sintonia com as agudas sensibilidades dos nossos tempos). Ou seja, vendo a “Fortuna” como algo difícil de enfrentar, Machiavelli achava que, em certa medida, ela poderia ser “controlada”. Se é verdade que uma vez “encolerizado”, o rio da “Fortuna” não vê obstáculo ao seu “furor”, é também verdade que, “quando o tempo está calmo”, “os homens não deixam de ter a liberdade de construir muralhas e diques”, para lhe “conter o furor” e permitir que os estragos “não sejam tão ruinosos”. A Itália, pensava Machiavelli, havia sido “a sede das revoluções” por ser “um campo sem diques nem muralhas”, e assim sem meios para fazer frente à “cheia”.

António Costa acha que o Governo teve o azar de apanhar pela frente a “cheia” da crise internacional, que terá impedido Sócrates de colher os frutos das suas “reformas”. O problema é que essas “reformas” não foram reformas nenhumas: Sócrates sofreu o “furor” da “cheia” porque não se preparou para ela nos “tempos calmos”. De facto, não controlou o défice: mascarou uma despesa cada vez maior com uma carga fiscal ainda mais pesada. Não mudou nada na Segurança Social: adiou o rebentar do balão das pensões. Não mudou nada na forma como o Estado se relaciona com os cidadãos: berrou contra os “interesses” ao mesmo tempo que tudo fazia para não os ofender. O resultado final foi apenas o empobrecimento relativo dos portugueses no presente, sem lhes dar condições para que no futuro possam vir a alterar essa condição.

Quando chegou a crise, o país estava ainda mais frágil (e não “melhor preparado”, como pretendiam Sócrates e os seus aguadeiros) do que os outros para a enfrentar. Em vez de construir diques, deixou os campos abertos e destruíu as poucas muralhas que ainda tínhamos. Quando veio a “cheia”, Portugal estava vulnerável ao seu “furor”. António Costa pode achar que a “única” coisa que correu mal ao Governo foi a “sorte” que não teve. O facto de não ter conseguido lidar com essa falta de sorte é a prova de que tudo correu mal, pois nada do que o Governo fez nos “tempos calmos” foi capaz de nos proteger da “cheia”. Sócrates e o PS não se podem queixar dessa caprichosa senhora que é a “Fortuna”, pois o mero facto de se queixarem mostram que fracassaram, que foram incapazes de “a conservar submissa”. Por causa desse fracasso, vamos ter agora de lhe bater com ainda mais força. Não será agradável, especialmente para nós.

1 Comentário »

  1. Bom

    A história de um empreendedor:

    http://www.ethicsandentrepreneurship.org/20081208/interview-with-ed-snider/

    Comentário por lucklucky — Julho 3, 2009 @ 19:07


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