
O Toneca era um menino muito engraçado. Precoce desde pequenino, respondão e danado para a brincadeira. Era o orgulho dos pais e o terror dos vizinhos. E da avó, cujos santinhos imaculados não tinham descanso de tantos bigodes e barbichas que lhes fazia. O Tareco, o gato do andar de cima, também não tinha sossego. Sempre que o Toneca o apanhava a jeito amarrava-lhe um extenso fio ao rabo, cheio de latas de coca-cola e outros refrigerantes gaseificados, com que o bichano corria rua abaixo num chinfrim infernal. Os pais achavam-lhe muita piada, admiravam-lhe a rebeldia e estimulavam-lhe o génio. Torceram-se a rir quando ele atirou um prato de farinha maizena à cara de um colega da escola, depois de lhe ter dito que ele tinha cara de bolacha. Que coisa engraçada! Que pilhéria! Que talento!
Um dia, o pai levou o Toneca para o emprego. A escola tinha acabado, a mãe estava a fazer as unhas na manicure, a empregada de baixa da caixa, e o rapaz não tinha onde ficar. Ficou sentado a um canto da sala onde o pai escrevia ao computador. Quando o senhor Antunes ia a passar – o Antunes era o genioso dono da empresa -, o Toneca achou-lhe graça à barrigaça protuberante, à careca avançada e ao enorme nariz avermelhado, e não esteve com meias medidas: pôs-lhe a língua de fora e fez-lhe uns corninhos com os dedos, enquanto soltava alguns horríveis e sonoros esgares. O pai ainda o correu à bofetada e ao pontapé, mas já não valeu de nada: estava a recibo verde e, no dia seguinte, já não trabalhava na empresa do impiedoso Antunes.
Moral da estória: de pequenino se torce o pepino.
História típica de uma mal-gerida PME portuguesa, na qual o patrão sr. Antunes, que tem a quarta classe, manda como um tirano, despedindo os colaboradores por estes ou os seus filhos lhe fazerem caretas, em vez de se preocupar com o valor acrescentado que os colaboradores efetivamente trazem – ou poderiam trazer, se a empresa fosse bem gerida e progressiva – à empresa.
É este o tipo de empresas que o PSD tão afanosamente defende, na sua ânsia de preservar emprego a todo o custo.
Comentário por Luís Lavoura — Julho 3, 2009 @ 16:53
Moral da história: os políticos portugueses gerem o país tão mal como os patrões portugueses gerem as suas PMEs. Preocupam-se com as caretas e esgares que lhes fazem em vez de se preocuparem com o progresso do país. Dão importância à forma e não ao conteúdo. Substituem a vacuidade ideológica por um respeitinho excessivo.
Comentário por Luís Lavoura — Julho 3, 2009 @ 16:56
Felizmente, há pessoas que se preocupam com o progresso do país, produzindo riqueza em vez de a consumirem. Como todos sabemos, os que a consomem são os empresários com a 4ª classe, gentinha apoiada pelo PSD…….
Comentário por Filipe Abrantes — Julho 3, 2009 @ 22:24