O Insurgente

Julho 3, 2009

Memória curta

Arquivado em: Comentário, Economia, Política, Portugal — João Luís Pinto @ 14:31

Espanta-me alguma simpatia presente nos comentários dos mais diversos comentadores em relação ao mandato do ministro Manuel Pinho.

Só pode ser com certeza memória curta em relação a um ministro que, desde a sua tomada de posse, se afigurou como uma das maiores tragicomédias a que tivemos a infelicidade de assistir neste governo. Não por falta de performances à altura, mas pelo particular brilhantismo da mesma.

Falamos afinal do ministro que foi vender salários baixos para a China, sapatos italianos em Itália, dos excessos de velocidade, das centrais solares com garantia de pagamento de energia a quatro vezes o valor da tarifa por muitos e bons anos, dos aerogeradores a outro tanto que tal, do déficit tarifário na electricidade, das centrais de ondas, dos postos de abastecimento de carros eléctricos inexistentes alimentados por baterias que gostaria que pudessem vir porventura a ser cá feitas, responsável institucional pelos desvarios e arbitrariedades da ASAE, das nomeações duvidosas, do “Allgarve”, do provincianismo com Michael Phelps, das sucessivas corridas com dinheiro dos contribuintes para acudir a empresas falidas (muitas delas instaladas elas próprias com principescas contribuições negociadas pelo mesmo Manuel Pinho), da Quimonda, da Opel de Azambuja, da Citröen de Mangualde, da AutoEuropa, da Bordallo Pinheiro, de Aljustrel, da “West Coast”, da Maizena.

Em suma, de um dos principais portadores da caderneta de cheques do dinheiro dos contribuintes que foi aqui e ali semeando o chequezinho da ordem para o projecto amigo ou que pudesse encher uns minutos de telejornal ou do discurso do patrão. Foi particularmente hilariante, aliás, o momento em que Manuel Pinho disse ontem em entrevista à SicN que era sempre “bem recebido” pelos empresários. Pudera. É de desconfiar de gregos com presentes, mas a cavalo dado não se olha o dente, e convém ser simpático a quem geralmente paga tempo de antena com dinheiro vivo.

Não existe falta de razões há muito tempo para demitir Manuel Pinho. Só a obstinação de Sócrates e a sua vontade de controlo sobre a Economia permitiu a permanência de alguém com tantos traços de inimputabilidade durante tanto tempo no governo. É em parte pena que, com essa abundância de razões, tenha sido uma palhaçada infantil de quem bem demonstrou que tem a boca (e as mãos) mais rápidos que o pensamento que tenha merecido o destino que há muito se pedia.

Fica a memória de um raro momento de clarividência como conselho para o novo titular da pasta. Dizia Manuel Pinho à TSF em 2006:

Não se decreta o fim de uma crise, isso é algo infantil e de quem não percebe nada de economia.

2 Comentários »

  1. É assim o País, ninguém vai fazer contas do que foi o Ministério Pinho. Quanto se gastou, resultados nada.

    Comentário por lucklucky — Julho 3, 2009 @ 17:32

  2. Quem defende a existência de um ministério da economia tem como pressuposto de base a bondade de uma economia dirigida pelo Estado. Isto posto, pondo de lado tal objecção de base, há duas lógicas de actuação de um tal ministério:

    a) os benefícios que o ministério atribui às empresas são gerais e abstractos, no sentido de que abrangem – efectiva ou, pelo menos, potencialmente – todas as empresas.

    b) os benefícios que o ministério atribui são atribuídos segundo uma estratégia comercial ou política desenvolvida pelo respectivo ministro que selecciona de entre as empresas existentes no mercado aquelas que devem ser protegidas.

    Manuel Pinho seguiu sistematicamente a estratégia b), transformando-se numa espécie de especulador bolsista com o dinheiro dos contribuintes, passando cheques de acordo com as suas simpatias políticas ou comerciais. Com isso, não só aumentou os níveis de promiscuidade e tráfico de influências existente entre a classe política e a classe empresarial, como, sobretudo, fomentou a concorrência desleal e a cultura do encosto ao Estado. É por isso que o “obviamente demitido” do Público de hoje devia respeitar o mandato de Pinho no seu todo e não o fait-divers de ontem.

    Comentário por José Barros — Julho 3, 2009 @ 18:58


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