O Insurgente

Julho 2, 2009

O Governo e a realidade

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 17:40

(também publicado aqui)

O senhor meu pai costuma dizer que não é difícil deixar de fumar: ele próprio o fez várias vezes. A crer nas declarações de vários dos nossos Ministros ao longo dos últimos anos, também não é difícil sair da crise que nos tem afectado desde (pelo menos) 2001: pelos vistos, já conseguímos sair dela várias vezes. O último a anunciá-lo foi o actual Ministro das Finanças Teixeira dos Santos. Aparentemente, terá havido um “aumento da confiança” dos “agentes económicos” (peço desculpa pela linguagem), que mostra como o pior já esteja para trás. Não ocorre ao senhor Ministro que esse “aumento de confiança” possa ser injustificado, que não passe de uma avaliação errada da parte dos tais “agentes”, e que como tal, não é, só por si, “sinal” do que quer que seja. E se houve coisa que a “crise internacional” mostrou foi como nós, seres humanos, somos por natureza cegos a grande parte da realidade, e temos “confiança” em muita coisa que não a merece.

Para algumas cabecinhas pouco ajuízadas, como a do Carlos Abreu Amorim, ficaram espantadas com o facto de tais declarações virem de um “bom ministro” (uma espécie análoga ao “bom alemão” do tempo da II Guerra) como supostamente será o das Finanças. Só espanta como alguém pode ficar espantado por Teixeira dos Santos. dizer o que disse. Pois foi este mesmo “bom ministro” que, há mais de um ano, disse que Portugal ia passar ao lado da crise internacional. Aliás, estas declarações mais recentes de Teixeira dos Santos não mostram apenas um “optimismo” insuficientemente justificado: são, isso sim, mais um sinal de como, pelo menos desde 2008, a conduta do Governo se pautou, a todos os níveis, pela mais compelta insensatez, e entrou no domínio do patológico. É que, bem vistas as coisas, estas declarações mostram o nível de demência que parece ter assaltado os membros do Governo. De facto, já nem para si próprios conseguem ser bons.

Desde o seu início que este Governo, representada na figura viscosa do seu Primeiro-Ministro, não passou de um anúncio publicitário. Durante anos, quis convencer as pessoas de que estava a fazer tudo, sem, na realidade, fazer nada. Quis fazer crer as pessoas de que Portugal estava a sair da “crise”, e com muita manipulação, lá conseguiu iludir os mais crédulos (que, a crer nas sondagens, eram abundantes). Como vária gente sensata disse, a crise internacional veio desfazer o encatamento, e mostrar às pessoas o que o Governo escondia por trás do véu que deitou sobre a realidade.

Quando a crise internacional se abateu sobre o país, ou melhor, quando ela ainda apenas ameaça abater-se, o Governo reagiu perante ela da única forma que conhece: com propaganda, procurando manipular as pessoas. E começaram a dizer que as políticas dos últimos anos nos preparavam como nenhum outro país estava preparado para enfrentar a crise. Como era evidente, independentemente dos méritos (poucos) das políticas governamentais, independentemente de terem ou não preparado o país para semelhante crise (não prepararam), uma crise internacional a economia dos nossos parceiros europeus, o que por sua vez afectaria as nossas exportações, sobre as quais assentavam as previsões (já de si muito optimistas) do Governo. Ou seja, era evidente que, por muito bem preparado que o país estivesse (e não estava, como se viu), a pobreza congénita do país o tornaria mais frágil que a maioriza dos nossos vizinhos.

O governo não podia acreditar no que dizia. E portanto, tais declarações só podiam ser compreendidas como exercício de propaganda. O que, no entanto, não as torna mais compreensíveis. Perante dificuldades como as que os portugueses sentem todos os dias, risonhas declarações como as de Teixeira dos Santos encontram uma audiência pouco receptiva: as pessoas, se pararem dois minutos para pensar e olharem para a realidade, não acreditarão no que o Ministro lhes diz. E mesmo que acreditem, não se percebe o que leva o Governo a dizer coisas dessas a seguir. Pois os seus Ministros certamente percebem que o que dizem não é verdade, e que quando a realidade bater à porta (se é que não já entrou pelas nossas casas), à medida que as delirantes previsões do Governo são constantemente revistas (“em baixa“, obviamente), quando os portugueses perceberem que as “reformas” socráticas não preparam o país para uma situação de crise, o sentimento de ilusão que tais declarações procuram comprar terá de ser pago a dobrar. Que, à beira das eleições, a percepção quotidiana da realidade da crise custará ao PS o apoio eleitoral das pessoas que ainda vão acreditando no que Sócrates lhes diz. O Primeiro-Ministro e o Governo não lucram nada em esconder a realidade dos cidadãos. O problema é que Sócrates já está tão habituado a recorrer à propaganda sempre que se vê num aperto, que não só não conhece outra forma de agir, como parece já nem ser capaz de distinguir a realidade da doce fantasia que criou a partir de São Bento. O que as declarações de Teixeira dos Santos mostram, como já haviam demonstrado em 2008, é que, com a sua propaganda, o Governo não só está a tentar enganar os cidadãos, como se está a enganar a si próprio. Mostra como o Governo olha para tudo, menos para a realidade. Pior é impossível.

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