Ontem, o PS reuniu-se, para debater a estratégia eleitoral para as legislativas e ainda sem ter percebido muito bem o que lhe aconteceu nas europeias. Como seria de esperar, e no meio de muita conversa vaga acerca de “pedir maioria” e da necessidade de “estabilidade”, Sócrates e os seus aguadeiros lá vierem falar do “rumo” que, obviamente, é para “manter”. Pode assim o bom povo socialista ficar descansado: pelo menos até Outubro, vão continuar a haver “jobs” para os “boys”, o dinheiro da propaganda vai continuar a jorrar para cima dos “consultores” de “imagem” (e, em período eleitoral, vai jorrar ainda mais), e, não vá o diabo tecê-las e o PS perder o poder em Outubro, muitas benesses vão ser distribuídas à pressa para aproveitar o que poderão ser os últimos meses de acesso à mesa (cada vez mais vazia) do sempre magro (e mesmo assim excessivamente pesado) Orçamento da Nação. O rumo, de facto, é para manter, apenas não levará ninguém a bom porto, nem mesmo o Primeiro-Ministro.
Escusado será dizer que, na cabecinha do Primeiro-Ministro, a parte mais importante do tal “rumo” é precisamente a propaganda. E não é vão. Afinal, e como ele muito sabe, foi a propaganda que o fez, como foi a propaganda que durante muito tempo e apesar da realidade, o foi mantendo nas boas graças dos portugueses. Sócrates não sabe agir senão através das encenações diárias que lhe vão montando, e nas quais ele mostra os seus fatos Armani e proclama estarmos perante um “momento histórico”, mesmo que o dito momento consista de uma instalação de uma retrete na Escola Primária de Alguidares de Baixo, ou, como é bastante mais comum, do anúncio de uma futura instalação de uma retrete na Escola Primária de Alguidares de Baixo. Mas, para mal do Primeiro-Ministro, tenho dúvidas que o método socrático (o outro que me perdoe) funcione por muito mais tempo.
A razão é simples, e se o Primeiro-Ministro soubesse ler, bastaria dar uma olhadela a este artigo de Jackie Ashley no Guardian para a perceber (sendo assim, peço aos aguadeiros para lhe fazerem um resumozinho). Discutindo a recente polémica acerca da necessidade de “cortes” no Orçamento britânico, Ashley diz que o Labour, ao se catalogar como o “partido do investimento” (contra os tories partidários dos abomináveis “cortes”) se está apenas a condenar à irrelevância: segundo Ashley, já toda a gente percebeu que, devido aos níveis colossais da dívida pública contraída por Gordon Brown, os tais “cortes” na despesa pública serão inevitáveis, seja qual for o governo; ao negar a evidência, o Labour transforma uma discussão que poderia ser acerca de escolhas (o que cortar, quais as prioridades da despesa pública, etc.) numa questão de carácter (o partido que fala a verdade, o partido que nega a realidade).
Não é difícil de perceber, até para um aguadeiro socrático, como isto é um aviso ao nosso Primeiro-Ministro. Durante meses, vários inquéritos mostravam como uma larga maioria de pessoas duvidava do carácter de Sócrates. Ao mesmo tempo, o PS continuava a liderar as sondagens. Isto, que chocava algumas almas (incluindo a minha), não deveria ser surpresa (e aqui me penitencio pela ingenuidade): enquanto Sócrates parecia “estar a fazer”, o bom povo não se preocupava com a “engenharia” a que Sócrates recorreu para obter o grau, nem com as confusões do “Freeport”; Sócrates estava a “fazer” (ou pelo menos assim as pessoas pareciam ir acreditando), e mais valia um “espertalhão” que “pusesse as coisas a mexer” do que uns virtuosos sem “genica”.
Até que apareceu a crise. Sócrates, numa daquelas frases de político sem cérebro em que ele se especializou como poucos em Portugal, disse à saída do sarau de ontem que o Governo estava a enfrentar o natural “desgaste” de quem está no poder numa conjuntura destas (Marcelo Rebelo de Sousa, outro especialista neste tipo de raciocínios, deve ter ficado orgulhoso). Não lhe ocorre que, numa conjuntura destas, são os Governos que mais beneficiam, pois só os Governos podem beneficiar: só eles têm o poder, só eles podem demonstrar liderança (mesmo que ilusória), que é o que as pessoas procuram nestas ocasiões de incerteza. Se o Governo socialista não beneficiou deste efeito, foi porque algo mais aconteceu por causa da crise. E o que aconteceu foi precisamente o que aconteceu em Inglaterra: o peso da dívida, e o irrealismo de continuar a gastar dinheiro do orçamento como se não houvesse amanhã, começaram a tornar-se evidentes para as pessoas.
Até aqui, o “carácter” duvidoso de Sócrates interessou pouco ao eleitor comum. Este via Manuela Moura Guedes atirar-se ao pescoço do “engenheiro”, e certamente apreciava o espectáculo. Mas não estava disposto a votar pela virtude contra a carteira. Agora, talvez tenha começado a perceber que a carteira começa a ser esvaziada. Enquanto isso, Sócrates insiste no TGV, no Aeroporto, e no “investimento” em geral. Para aqueles que começam a ver a carteira a esvaziar, e que começam a perceber que a política de Sócrates siginfica que ela ficará ainda mais vazia no futuro, insistir no investimento público como caminho para o paraíso parece uma simples e vergonhosa deturpação da realidade. E aí, como Jackie Ashley diz, a questão passará a ser a do “carácter” dos líderes partidários. Até aqui, a propaganda puxava o debate político português para o campo que mais favorecia o Primeiro-Ministro, o da ilusão e das promessas vazias mas sedutoras. A partir do momento em que a realidade se tornar evidente (e torna-se cada vez mais), a propaganda, por ser irrealista, puxá-lo-á para o que mais o prejudica, o do “carácter”.
Desenganem-se, no entanto, aqueles que possam ver nesse cenário uma boa notícia para o PSD. É certo que Manuela Ferreira Leite parece gozar, junto da “opinião pública” (essa entidade mítica e tão difícil de compreender), de uma imagem de “seriedade” e “verdade”, que ela própria, aliás, não se cansa de exibir (e faz muito bem). Mas um debate centrado no “carácter” (ou falta dele) de um político acabará fatalmente por se transformar num debate sobre o “carácter” dos políticos. E aí, o maior beneficiário será obviamente o populismo do Bloco de Esquerda, não a “seriedade” de Ferreira Leite. Aliás, não me espantaria que o próprio Sócrates fosse insistindo no tema Freeport, para puxar a campanha para o mais perto possível no lamaçal onde ele gosta de chafurdar: ele sabe que, quanto mais suja for a campanha, mais “indecisos” darão o seu voto a partidos histéricos como o CDS/PP e o BE, em vez de o darem a um “partido de Governo” como o PSD. Se a propaganda continuar a ser capaz de enganar uns quantos, e a nojeira empurrar os que nela já não acreditam para os braços de Louçã ou de Portas (Paulo) e não para os do PSD, talvez Sócrates se consiga manter no poder em Outubro. É, no entanto, um destino que não lhe desejo. E não apenas por não querer que o meu país continue a ser governado por ele. Ficar refém de Louçã ou de Portas é um destino que não se deseja a ninguém.