O polvo

Durante três dias, estive imerso no Curso de Verão do IEP-UCP. Exactamente, caro leitor, não se enganou: isso quer dizer que passei três dias em intensos contactos (pouco ou nada frutíferos) com jovens estudantes com idade pouco mais que legal, e também que passei três dias quase completamente alheado do “mundo real”. Ontem, pondo a informação em dia, descobri que o tal “mundo” mais parecia “surreal” do que real: nos Estados Unidos, um doente mental morreu, e não se falou de outra coisa um pouco por todo o lado; em Portugal, soube-se que a Portugal Telecom queria comprar a Media Capital (dona da TVI), que o Primeiro-Ministro, tal como nós, também não sabia de nada (e segundo ele, nem tinha de saber), e que, depois de “saber” (ou seja, depois de nós sabermos que ele sabia), achou que seria melhor “vetar” o negócio. Achei melhor ler os jornais mais uma vez para ter a certeza que não tinha percebido mal. Não. Tinha lido bem. Não fiquei mais descansado.

Não havia como ficar, e parece que foi uma reacção partilhada pela generalidade das pessoas. Mas, como de costume, o que realmente era relevante na questão passou quase completamente ao lado da discussão. A crer no que li, toda a “inteligência” pátria se preocupou em saber se Sócrates sabia ou não do negócio, ou seja, se o negócio visava “silenciar” a informação da TVI. Não que isso não seja importante, e que não fosse profundamente negativo e censurável que o Primeiro-Ministro tivesse dado ordens para a PT comprar parte da Media Capital com o objectivo de se proteger politicamente. Mas a questão vai muito para além deste caso concreto e do pouco apreço que Sócrates tem por tudo aquilo que não esteja de cócoras perante a sua excelsa pessoa.

Estando Sócrates informado ou não do negócio, pretendendo ou não “silenciar” a TVI, a compra da Media Capital pela PT seria algo de extremamente grave para o panorama mediático português: visto que o Estado detém a famosa golden share da PT, caso esta adquirisse a empresa que detém a TVI, o Estado passaria a ter o controlo de mais um canal de televisão. Independentemente de quem detenha o poder, seria uma tragédia (meço bem as palavras que estou a usar) se o Estado pudesse ter a última palavra a dizer acerca dos assuntos de mais um canal de televisão: para além dos dois canais da RTP, passaria a controlar também a TVI, a televisão de maior audiência em Portugal. E como quem não quer a coisa, juntaria à RTP N (que mais não é que uma RTP3) a TVI 24, ou seja, deixaria apenas um canal generalista e um canal de informação no Cabo fora das mãos do poder político. Muito preocupados com as idiossincracias pouco democráticas de Sócrates, a maior parte dos comentadores não se conseguiram aperceber que o “autoritarismo” da coisa vai para além das intenções conjunturais do “animal feroz”.

Por muito que este pormenor lhes tenha escapado, o que é verdade é que a barulheira crítica do negócio levou o Primeiro-Ministro a vetá-lo. A “inteligência” pátria, claro, rejubilou com a sua “vitória”. Como de costume, não se apercebeu do facto de não ter tido vitória nenhuma. Pois até o desfecho aparentemente positivo do “caso” PT/TVI mostra como o “polvo” estatal não tem fim, como aliás só dificilmente terão fim as consequências que daí advêm.

O que faltou à maior parte dos que festejaram o “recuo” de Sócrates foi perceber que o negócio talvez pudesse realmente ser um bom negócio para ambas as partes, e que, só porque Sócrates se apercebeu de que a sua confirmação seria negativa, do ponto de vista eleitoral, para o PS (por “parecer” ser uma tentativa de silenciar a TVI), ele foi “vetado”. O que todo este caso mostrou foi, não apenas que o “polvo estatal” tem a possibilidade de passar a controlar tudo aquilo que ainda não controla, mas também que esse mesmo “polvo” pode interferir com tudo e mais alguma coisa, desde que não seja conveniente para as perspectivas eleitorais ou políticas de quem controla o dito “polvo”. Pessoalmente, não vejo aqui qualquer razão para festejar.

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4 thoughts on “O polvo

  1. Abençoado o País em que um Presidente da República tem tempo e disponibilidade institucional para fazer de analista político. Seja comentando sondagens ainda mais fictícias que as do costume, seja os malabarismos circenses dos domingos à noite.

  2. Li o post e pensei que o “essencial” a que o Bruno Gonçalves se referiria era a existência da própria golden share que permite todo o tipo de abusos, a começar por este. Era essa a discussão que, em qualquer país, teria de imediato lugar, depois do veto de Sócrates. Ainda tive esperanças que Manuela Ferreira Leite se pronunciasse sobre o assunto e se comprometesse a extinguir as acções douradas do Estado. Felizmente, esperei sentado. Quanto à Sócrates, evidentemente já não espero nada. A questão é apenas a de, utilizando a escala de Chavez, que grau de populismo autoritário atingirá o governo nos próximos meses (e anos, se a tragédia da reeleição acontecer).

  3. Caro José,

    primeiro, o “Bruno Gonçalves” não escreveu nada. O Bruno Alves (embora não o do FC Porto), esse sim, é que escreveu. E o “essencial” a que me referi é precisamente esse. Daí ter tido que o Estado tem a capacidade de interferir com tudo e mais alguma coisa. Achei que era óbvio que, neste caso, me estava a referir à golden share. Mas pelo vistos, a coisa era complicada. Um bocadinho como o meu nome…

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