
O meu amigo e companheiro de blog Rodrigo deu-me uma notícia esplêndida: o PSD está a preparar um programa eleitoral, que deve apresentar à Nação lá para os fins de Julho. Presumo que o documento seja magnífico e que venha acompanhado das melhores intenções, tal o entusiasmo com que o Rodrigo fala dele. Por mim, que não sou de leituras partido-programáticas profundas, a última vez que dediquei algum tempo a esse malfadado exercício foi exactamente com o programa do PSD, nas eleições que fizeram de Durão Barroso primeiro-ministro.
Li e não desgostei. Nessas eleições votei nesse partido, em boa medida por causa do programa apresentado. Dele retenho alguns aspectos, os que talvez me tenham levado a votar, pela primeira vez, no PSD: descida de impostos (o famoso “choque fiscal”), reforma profunda do estado, privatizações do sector público considerado desnecessário, estabilidade governativa, moralização do estado, redução da despesa pública, propondo, entre outras medidas, a extinção das inúmeras fundações criadas pelo governo anterior do PS, onde se alojavam os boys and girls rosa. Também retenho os resultados desse programa. O “choque fiscal” foi, de facto, um choque, não tanto pelas medidas anunciadas, mas por se terem posto em prática exactamente as contrárias. A tarefa de reformar o estado e a administração pública foi atribuída, por puro deleite e gozo, ao Dr. João de Deus Pinheiro, um velho amigo do então primeiro-ministro, conhecido pela sua inesgotável capacidade produtiva. Das privatizações lembro-me do novo logotipo verde da RTP 2, que passou a ser ternurentamente apelidada pela 2. Das fundações rosa, matéria em que não me considero especialista, constou-me que tinha sido extinta uma. Provavelmente por falta de jotas que se encarregassem dela. Jotas que, por sinal, abrilhantaram o novo governo e as instituições públicas com a sagesse, a inteligência e a capacidade de verdadeiros homens de estado que ninguém lhes pode negar. Sobre a estabilidade governativa, viu-se ao fim de dois anos e meio. E quanto à moralização do estado, julgo que foi para isso que a Dr.ª Ferreira Leite contratou o Dr. Paulo Macedo, com os belíssimos resultados que o governo seguinte do PS não deixou de aproveitar (os resultados e o Dr. Macedo, claro).
O resultado deste conjunto de brincadeiras, está aí à vista: o PS, depois de quatro anos de governo impopular e com um primeiro-ministro diariamente massacrado na comunicação social, continua a resistir eleitoralmente; e a extrema-esquerda com mais de 20% dos votos, facto nunca antes visto, nem mesmo nos malfadados tempos do PREC. Por outras palavras: o eleitorado continua a desconfiar da direita, para quem parece não tencionar transferir de ânimo leve o seu voto, preferindo a oposição à esquerda, nomeadamente a do Bloco.
Na altura, quando a coisa acabou, o Dr. António Pires de Lima disse, muito sensatamente, que a direita fora para o governo sem qualquer preparação, e que pagou por isso. Falou-se, também, na necessidade de a refundar, não tanto com novos e surpreendentes protagonistas, nem com ideias geniais (ninguém é ingénuo a esse ponto), mas, pelo menos, vendo-a fazer um esforço sério para entender o que lhe tinha sucedido e emendar a mão, na medida do possível, apresentando-se aos portugueses com a credibilidade de propostas sérias e diferentes das praticadas pelo Partido Socialista.
Ao longo destes quatro anos, não dei conta de que nada disso tenha sucedido. Provavelmente será o programa eleitoral do PSD que me vai fazer mudar de ideias, caro Rodrigo.
[...] por JoaoMiranda em 21 Junho, 2009 O programa excelentíssimo por Rui [...]
Pingback por Leitura recomendada « BLASFÉMIAS — Junho 21, 2009 @ 00:53
Excelente lamento.
Comentário por Valupi — Junho 21, 2009 @ 01:45
Acrescento ainda que a direita foi pouco eficaz na captação do voto dos jovens, e deixou que o bloco de esquerda captasse para si os eleitores das camadas mais jovens. Temos hoje em dia vários jovens adultos de classe média/média alta que votam BE cujos pais e avós votam PSD ou CDS. As jotas deviam fazer um exercício de introspecção e pensar no que correu mal. Talvez um pouco de menos arrogância e mais humildade por parte de alguns dos seus membros fosse um bom começo, bem como um espírito de maior abertura e activismo. É que a «má moeda» está a afastar a «boa moeda»…
Comentário por Luís — Junho 21, 2009 @ 06:31
Rui: Embora tenha lido este post com alguma perplexidade, uma vez que ainda ontem pedia ao PSD para antecipar o seu programa eleitoral (ou percebi mal?), e hoje já o vem minimizar…
Com esta atitude de alguém de direita, como quer que os potenciais eleitores se sintam envolvidos e participem na sua (re)construção ou (re)formulação?
Reconfortante, no entanto, observar como a direita treina este exercício democrático de auto-avaliação.
Se o BE ou o PS fizessem o mesmo, treinar o exercício democrático da auto-avaliação, o Rui acha que conseguiam esta expressão eleitoral? É por isso que não mostram o jogo.
Já reparou que, à semelhança do PS, o BE não tem uma verdadeira cultura democrática de auto-avaliação?
Neste item importante, PS e BE até são muito parecidos: valorizam os seus aspectos positivos, os seus sucessos, e omitem os aspectos negativos, os insucessos. Chama-se a isto marketing político. Publicidade.
Embora a estratégia do BE seja mais inteligente do que o PS, com uma linguagem mais elaborada e adaptada ao séc. XXI, até mesmo pelas suas bases serem muito mais qualificadas (estudantes, técnicos, licenciados, doutorados).
O PS governou estes 4 anos numa cultura publicitária, tal como Salazar o soube fazer no estado novo, para alimentar os fãs, e soube anunciar e inaugurar tudo e mais alguma coisa, em atitude festivaleira, tal como uma banda rock.
Repetindo até à exaustão não haver alternativa ao PS, para reforçar essa atitude passiva e conformada: sem o PS seria o caos. Tal como no estado novo.
A “nova atitude” é igualmente ensaiada ao milímetro, numa continuidade de cultura publicitária, de marketing político, nada mais. O seu único objectivo: vender uma imagem e atrair votos. Manter-se no poder.
Comentário por Ana Silva Fernandes — Junho 21, 2009 @ 10:05
O animal feroz, agora cordeiro manso, deve agradecer penhoradamente este post, que serve à perfeição os seus propósitos…
Por mim, acho que, com “amigos” destes, a direita dispensa bem os “inimigos”.
Comentário por Tiago Lima — Junho 21, 2009 @ 10:28
Parabéns pelo postal,
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Estamos a falar de governar um país não de apoiar uma equipa futebol.
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Posso recusar-me a votar Socrates, e posso, também, recusar-me a votar numa qualquer outra equipa, com outras cores e outros jogadores, mas com o mesmo estilo e filsofia de jogo.
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Se beneficia Sócrates ou não, não interessa. O país é que é prejudicado.
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ccz
Comentário por ccz — Junho 21, 2009 @ 15:44
“Se beneficia Sócrates ou não, não interessa. O país é que é prejudicado.”
Interessa pois.
Se beneficia Sócrates, prejudica o País de certeza.
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Comentário por Mentat — Junho 21, 2009 @ 19:08
“…com um primeiro-ministro diariamente massacrado na comunicação social…”
Massacrado diariamente ?
Quando é que isso aconteceu?
Só se está a falar do Santana Lopes?
Nem o Guterres foi tão aparicado pela comunicação social de como o animal feroz.
Devemos andar a ler e ver coisas diferntes.
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Comentário por Mentat — Junho 21, 2009 @ 19:13
“…com um primeiro-ministro diariamente massacrado na comunicação social…”
Massacrado diariamente?
Quando é que isso aconteceu?
Só se está a falar do Santana Lopes?
Nem o Guterres foi tão paparicado pela comunicação social de como o animal feroz.
Devemos andar a ler e ver coisas diferentes
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Comentário por Mentat — Junho 21, 2009 @ 19:17
Oops!…
Comentário por Mentat — Junho 21, 2009 @ 19:17
Caro Mentat,
Não quer deixar umas palavras no meu último post e, já agora, sobre a passagem da Dr.ª MFL e do D. PM pelo Ministério das Finanças?
Cumprimentos amigos,
Comentário por ruialbuquerque — Junho 21, 2009 @ 19:24
“…o eleitorado continua a desconfiar da direita, para quem parece não tencionar transferir de ânimo leve o seu voto, preferindo a oposição à esquerda, nomeadamente a do Bloco.”
Caro Rui Albuquerque
E depois eu, é que sou optimista?
Eu gostava de saber que pinos em cima duma espada, é que qualquer partido de direita teria de fazer, para que quem opta por votar no Bloco, passasse a votar nesse partido.
Os “putos” que votam no Bloco só vão deixar essa opção quando a “mesada” passar a ser ganha com o seu próprio trabalho.
Enquanto continuarem a pastar à manjedoura dos papás ou do Estado nunca mudarão de opção política.
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Comentário por Mentat — Junho 21, 2009 @ 19:28
“Não quer deixar umas palavras no meu último post e, já agora, sobre a passagem da Dr.ª MFL e do D. PM pelo Ministério das Finanças?”
O seu pedido é uma ordem.
Vou já lá de seguida.
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Comentário por Mentat — Junho 21, 2009 @ 19:31
[...] companheiro de longas jornadas blogosféricas, aqui no Insurgente, e noutros cantinhos virtuais, apresenta-me neste post como estando eu particularmente “entusiasmado” com o “prog…. Desde logo, o Rui, que me conhece bastante bem, nao quer mais do que me provocar, com a sua ironia [...]
Pingback por Será possível convencer Pirro? « O Insurgente — Junho 22, 2009 @ 00:16
o post do insurgente é rigoroso na conclusão mas falha na construção lógica. É que o pacote de medidas Barroso – descida de impostos, reforma profunda do estado, privatizações do sector público, estabilidade governativa, moralização do estado, redução da despesa pública – parecia decalcado dos discursos de Reagan, na reeleição de 1984, medidas que puderam, aliás, ser este ano contempladas pelos nossos alunos no exame de história B do 11/12º ano, o que inaugura uma nova etapa de consciência política no Ministério da Educação – secretários de estado de todo o mundo, uni-vos. O que quer dizer que essa narrativa de libertação económica da sociedade civil pela reconfiguração do peso relativo do estado, que até os liceiais já podem constatar como mistificadora – e não são apenas as leituras de Krugman aquelas que adquirem uma tonalidade capuchinho vermelho – está tão gasta hoje como estava à 6 anos para quem tivesse lido mais qualquer coisa que os manuais de Macroeconomia de Samuelson. Contudo, num ponto estamos de acordo: o governo Durão – uma tragédia a que se seguiu a farsa Santana/Portas – galgou novas fronteiras na capacidade de irritar pessoas que sejam capazes de perceber a genealidade antropológica – sou antireligioso – de um jogador como Nadal.
Comentário por Alf — Junho 22, 2009 @ 21:33
Gostava ainda de referir que esta prosa me parece forjada em cursos nocturnos organizados por José António Saraiva e José Manuel Fernandes, depois de alinhavados os referidos cursos na mesa de um qualquer restaurante lisboeta, sendo que essas ideias virão, por certo, directamente inspiradas pelo espectro de Karl Popper, na medida em que os senhores se encontram na fase pré-histórica do pensamento analítico. Por outras palavras, os senhores ainda comungam da fé religiosa nos processos eleitorais como síntese avaliativa da performance dos governos: como se Darwin não tivesse existido e ainda vivessemos, entre laçarotes e casacas, nos salões da monarquia constitucional. O que nos vale, não sendo possível recorrer a Nossa Senhora, são os sussurros de Ana Lourenço que eu preferiria mil vezes num confronto com o crescimento económico + política de verdade da dupla Rangel/Manuela Ferreira Leite.
Comentário por Alf — Junho 22, 2009 @ 21:41
Caro ALf,
Você sente-se bem?
Comentário por rui a. — Junho 23, 2009 @ 04:29