
Não há provavelmente atitude política mais avessa ao espírito liberal do que separar os políticos entre os “nossos” e os “deles”, e apoiar entusiástica e acriticamente os primeiros. Trata-se de reduzir a política ao mundo do desporto, onde os “nossos” têm de ser aplaudidos quando entram em campo, apenas por usarem o equipamento do nosso clube e estarem a defrontar-se contra um clube diferente.
O critério liberal face à política deve ser o de separar os políticos dos cidadãos, as estruturas políticas da sociedade civil e das suas instituições, o poder soberano do poder civil, e preocupar-se, obviamente, com a defesa dos segundos face aos primeiros. Por princípio e por método, os liberais desconfiam dos políticos e da política, razão pela qual pugnam por poderes soberanos reduzidos e um estado mínimo. Ainda por cima, em Portugal, os políticos – à esquerda e à direita – não têm sido merecedores da confiança dos cidadãos. Basta olhar para o estado em que o país (de há muito) se encontra, para compreender as razões dessa desconfiança.
Acresce que os “nossos”, isto é, os partidos à direita do socialismo, não são partidos em quem se possa confiar cegamente. Bem pelo contrário. Os momentos em que passaram recentemente pelo governo, não os recomendam. Basta recordar o governo de Durão Barroso, o prometido “choque fiscal”, a “reforma” da administração pública, a relação que estabeleceu entre o estado e os cidadãos (lembram-se do “já cá canta” da Dr.ª Ferreira Leite?), a completa ausência de espírito reformista, o “tachismo” aparelhista que o marcou. Por não se terem comportado com seriedade perante o país e os cidadãos, os partidos da direita perderam a confiança dos eleitores, que, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, estão a migrar da esquerda para a extrema-esquerda, em vez de regressarem ao centro e à direita.
Do que se trata agora é de saber se esta direita, corporizada no PSD de Manuela Ferreira Leite e no CDS de Paulo Portas, está preparada para governar e como o pretende fazer. Em boa verdade, até agora, o mutismo tem sido a tónica dos dois partidos. Nem um nem outro esclareceram, por enquanto, o que pretendem fazer, quando e se chegarem ao governo, sobre as funções do estado, sobre os sectores da governação que o governo “privatizará” ou não, sobre a política fiscal, a política de saúde, a política para o ensino superior, para a justiça, para a administração pública, para a reforma do estado, para as grandes obras públicas prometidas pelo governo PS, etc., etc., etc.. Até agora, que se tenha ouvido, não disseram nada, nem coisa nenhuma.
Eu atrever-me-ia, então, a sugerir que a primeira obrigação desta direita será a de credibilizar a política e a de restituir a dignidade e a honorabilidade às instituições públicas e governativas, e, se possível (eu sei que é pedir muito) aos seus próprios partidos: honrar a palavra dada aos eleitores, cumprir o prometido em campanha, respeitar os mandatos, separar o governo das máfias dos aparelhos partidários, não fazer negociatas à sombra do estado, tratar os cidadãos por igual, não ser prepotente, respeitar as regras do Estado de Direito. Para isso, é obrigatório dizer-se alguma coisa ao país, anunciar ao que se vem, assumir solenemente responsabilidades programáticas, e não começar a violar compromissos eleitorais, na primeira oportunidade. Menos do que isto significa, a meu ver, que é indiferente o país ter um governo de direita, ou manter o actual.
Infelizmente, a “táctica” parece ser a do minimalismo, isto é, a de dizer o mínimo possível aos eleitores antes das eleições, para se estar livre de fazer o que se entender depois. Preparem-se, pois, os entusiastas dos “nossos”, para grandes desilusões.
O RA considera, e muito bem, que “os políticos – à esquerda e à direita – não têm sido merecedores da confiança dos cidadãos”, e que os liberais devem “por princípio e por método, [...] desconfiar dos políticos e da política”.
Por que artes mágicas imagina então que, a partir das próximas eleiões, estes passarão a “honrar a palavra dada aos eleitores, cumprir o prometido em campanha, respeitar os mandatos, separar o governo das máfias dos aparelhos partidários, não fazer negociatas à sombra do estado, tratar os cidadãos por igual, não ser prepotente, respeitar as regras do Estado de Direito”?
Comentário por Luís Oliveira — Junho 19, 2009 @ 15:29
Rui: a sua análise (diagnóstico) está correcta. E o tratamento também: estratégia de responsabilidade e compromisso com os eleitores.
Só não percebo essa insistência em antecipar desilusões à direita. Tem sido a direita a que, apesar de tudo, respeita esses valores, pelo menos, a que menos se afasta do contrato-compromisso eleitoral.
Imagine o BE, por exemplo, a abrir o jogo ANTES das eleições. Não caem nessa! Ou os rosinhas. Nem pensar!
Eu não percebo esta crise existencial da direita. Quem nos colocou nesta triste situação actual foi a esquerda. E a ingenuidade dos eleitores em 2005. E foi a anunciar e a prometer que o PS ganhou as eleições, com a ajuda do President da altura.
Minimalismo? O que é que o PSD pode anunciar ou prometer na actual crise financeira, social, cultural, moral, ética, em que nos encontramos actualmente? Endividados até às próximas gerações? A gastar mais do que podemos gastar? Só pode ser mesmo minimalista!
Agora é pegar em cada área da governação, a meu ver, proceder a avaliações sérias das necessidades e definir prioridades. Investir nos recursos humanos. Optimizar recursos. Fazer muito bem as continhas. Promover a sensatez e a cultura da poupança. O respeito pelo contribuinte. Exigir resultados e eficácia ao estado, que terá de emagrecer, perder peso. E ainda terá de recorrer à criatividade, ao engenho e arte português.
Se quiser ser verdadeiro e responsável com os eleitores, o PSD só pode mesmo ser minimalista, pois isto vai ser mesmo trabalho duro, após 10 anos de “ficção”, publicidade, marketing, megalomania. É que o novo-riquismo sai muito caro.
Comentário por Ana Silva Fernandes — Junho 19, 2009 @ 15:39
“Agora é pegar em cada área da governação, a meu ver, proceder a avaliações sérias das necessidades e definir prioridades. Investir nos recursos humanos. Optimizar recursos. Fazer muito bem as continhas. Promover a sensatez e a cultura da poupança. O respeito pelo contribuinte. Exigir resultados e eficácia ao estado, que terá de emagrecer, perder peso.”
O PSD até podia propor isso, o problema é que perderia as eleicões. Penso que será mais avisado prometer mais socialismo.
Comentário por Luís Oliveira — Junho 19, 2009 @ 15:45
“Por que artes mágicas imagina então que, a partir das próximas eleiões, estes passarão a “honrar a palavra dada aos eleitores, cumprir o prometido em campanha, respeitar os mandatos, separar o governo das máfias dos aparelhos partidários, não fazer negociatas à sombra do estado, tratar os cidadãos por igual, não ser prepotente, respeitar as regras do Estado de Direito”?”
Não imagino, não. Infelizmente, imagino exactamente o oposto.
Comentário por ruialbuquerque — Junho 19, 2009 @ 16:04
Excelente post.
“a completa ausência de espírito reformista”
Pois, eu já me contentaria com um governo que, mesmo não sendo liberal, tivesse pelo menos a clarividência e a coragem para ir fazendo algumas reformazinhas, a ver se isto funcionava menos mal. Coisa que o governo de Sócrates fez, em diversos domínios. Ao contrário de Durão Barroso, que esteve lá dois anos inteirinhos sem ter feito, que eu me lembre, a mínima reformazinha que fosse (a não ser no domínio da rádio e da televisão públicas).
Comentário por Luís Lavoura — Junho 19, 2009 @ 16:27
Caro Luís Lavoura,
Código do Trabalho?
Comentário por Carlos Duarte — Junho 19, 2009 @ 16:30
Espero que o centro-direita, caso vença tenha a coragem de:
- reduzir a despesa na função pública, reduzindo o número de funcionários, por exemplo;
- redesenhar o mapa do poder local fundindo concelhos e freguesias e adequando-o à nova realidade urbana e demográfica do país;
- reintrodução de exames de avaliação na quarta classe, sexto ano e nono ano a português e matemática e das provas globais;
- separação completa entre o ensino profisional e o ensino tendo em vista o ingresso posterior no ensino superior, e neste aumentar consideravelmente a exigência nos programas e na avaliação;
- não avançar com a regionalização;
- assumir um discurso que ponha a tónica do desenvolvimento do país na dinâmica privada e não em obras públicas;
- acabar com o absurdo que é a lei dos PIN;
- reduzir impostos e colocá-los ao nível dos espanhóis tendo em vista a competitividade das nossas empresas do interior.
- separação do poder político do poder económico;
- privatização da TAP;
- etc
Espero que MFL tenha a coragem necessária para avançar com estas medidas e muitas mais.
Comentário por Luis — Junho 19, 2009 @ 21:48
“Só não percebo essa insistência em antecipar desilusões à direita.”
Eu também não.
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Comentário por Mentat — Junho 19, 2009 @ 23:34
Caro Rui Albuquerque
O Luís Lavoura gostou do seu post.
QED
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Comentário por Mentat — Junho 19, 2009 @ 23:37
“…separar os políticos entre os “nossos” e os “deles”, e apoiar entusiástica e acriticamente os primeiros…”
Não se trata de nada disso.
Trata-se que há um tempo para debater e outro para combater.
Veja nos EUA, os Republicanos foram derrotados em toda a linha e não ficaram parados nem um dia a lamber feridas.
Agora estão a disparar em todos os sentidos freneticamente, mas daqui a um ano estão coesos a preparar a próximas intercalares.
E eu, talvez por deformação profissional, acho que há um tempo para debater e planear e um tempo para executar.
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Comentário por Mentat — Junho 19, 2009 @ 23:44
“O Luís Lavoura gostou do seu post.”
Caro Mentat,
O seu argumento é de peso e fez-me meditar. Mas temos de concordar que converter os incréus é uma obrigação dos crentes.
Comentário por ruialbuquerque — Junho 20, 2009 @ 01:33
Eu prefiro dividir a identificação política em dois pares Socialismo-Liberalismo e Esquerda-Direita. É para mim mais útil e parece-me mais correcto.
O PSD e o CDS têm qualquer um deles Social no nome por isso como é que se pode colocá-los á direita do Socialismo, no máximo são a direita do Socialismo. Direita Socialista.
“Código do Trabalho?”
Isso não são reformas. São “medidinhas”. Reformas é modificar a relação das pessoas com o Estado.
“Veja nos EUA, os Republicanos foram derrotados em toda a linha e não ficaram parados nem um dia a lamber feridas.”
Não brinque comigo. É só ler as críticas ao despesismo Social Democrata de Bush. Os Republicanos estão a regressar ao seu “core” diga-se com uma bela ajuda de Obama.
Que o PSD e o CDS não querem mudar coisa alguma é simplesmente o que penso, qualquer deles acha TGV muito boa ideia se tivessemos um endividamente médio. Se não têm convições algumas diferentes do que existe, como as terão quando houver combate político duro para implementar reformas? Nada serão mais um Durão Barroso II ou na menos má das hipóteses um gestão de mercearia apenas desacelerá a queda.
Comentário por lucklucky — Junho 20, 2009 @ 07:41
Caro Rui,
Já tens uma varanda em casa, ou esperas pela saída da lei? O PSD pode ajudar-te, saindo do seu minimalismo, e promovendo uma mega-proposta de segurança infantil.
No final de Julho, o PSD apresenta o seu programa. O grande drama em Portugal é que toda a gente acha que os políticos tem de ter, diariamente, de tirar coelhos da cartola.
Nesta fase, o governo tem de governar, e a oposiçao, de fazer oposiçao. Os projectos e as ideias devem ser apresentadas no momento eleitoral.
Ab
RAF
Comentário por Rodrigo Adão da Fonseca — Junho 20, 2009 @ 11:11
“Mas temos de concordar que converter os incréus é uma obrigação dos crentes.”
“Mas temos de concordar que converter os incréus é uma obrigação dos crentes.”
Caro Rui Albuquerque
No caso em apreço trata-se dum crente de outra “fé”.
Tenha cuidado que ainda pode ser acusado de proselitismo.
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Comentário por Mentat — Junho 20, 2009 @ 17:28
“Não brinque comigo. É só ler as críticas ao despesismo Social Democrata de Bush. Os Republicanos estão a regressar ao seu “core” diga-se com uma bela ajuda de Obama.”
lucklucky
E se você tivesse lido o contexto em que eu escrevi isso, teria percebido que me está a dar razão.
Neste momento os Republicanos estão no auge do debate interno, de onde sairá uma nova liderança ou a consolidação da existente.
Mas em Fevereiro ou Março de 2010 estarão a cerrar fileiras e a preparar-se para as eleições de Novembro.
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Comentário por Mentat — Junho 20, 2009 @ 17:36
Então o que quer dizer com lamber feridas?
Você não pode comparar um Partido Republicano que tem ideologia com o PSD que foge como Diabo da cruz de qualquer coisa semelhante. Para lá das tropelias dos aspectos mais picarescos de Sócrates o PSD no Governo não teria feito nada de muito diferente do que fez o PS.
Não há nada lá.
Por isso quando pede a união está pedir a união sobre nada, os Republicanos unem-se sobre alguma coisa. Ora quando um partido pode variar entre uma Social Democracia despesista ou aquilo que julgam ser um liberalismo é evidente que não haverá músculo mental para manter rumo algum. Será uma gestão casuística como foi a de Durão Barroso.
Comentário por lucklucky — Junho 20, 2009 @ 19:59
“…PSD no Governo não teria feito nada de muito diferente do que fez o PS…”
lucklucky
Neste post, ou no que lhe deu origem, há-de me apontar onde é que eu apelei ao voto no PSD.
Só apelei à contenção às críticas nos não-esquerda e apelei ao apontar de baterias aos de esquerda.
Tão simples como isso.
Porque, ou se é proactivo e se faz alguma coisa, ou então no mínimo não se atrapalhe quem quer fazer.
Discutir o sexo dos anjos com o inimigo dentro da Cidade é atitude que já há milhares de anos foi desconsiderada.
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Comentário por Mentat — Junho 20, 2009 @ 20:26
[...] meu amigo e companheiro de blog Rodrigo deu-me uma notícia esplêndida: o PSD está a preparar um programa eleitoral, que deve apresentar à Nação lá para os fins de Jul…. Presumo que o documento seja magnífico e que venha acompanhado das melhores intenções, tal o [...]
Pingback por o programa excelentíssimo « O Insurgente — Junho 20, 2009 @ 23:56
O governo PSD/CDS governou à Esquerda, protegendo funcionários e subindo impostos.
Precisamos de novo governo CDS/PSD que adopte o cheque ensino, promova a natalidade, reduza a dimensão do Estado para 40% do PIB.
Precisamos de alguém que venda os submarinos!
Com o cheque ensino e a concorrência, a escola do funcionalismo muda ou fecha.
PS. Frasquilho a Ministro da Finanças!
Comentário por libertas — Junho 21, 2009 @ 23:59