O Insurgente

Junho 9, 2009

A ideologia do ovinho kinder sistematicamente sem brinquedo

Filed under: Diversos — Rodrigo Adão da Fonseca @ 18:30

Socialismo sem capitalismo, sem riqueza, em tempos de crise, é como um gelado, só que sem o gelado, vende aos clientes o gelado, mas só tem para oferecer o pauzinho.

*****

Em tempos de crise, os partidos à esquerda vendem o medo, a insegurança, exploram a inveja social, tentando projectar a sensação que, se lhes entregues os votos, nascerá uma sociedade mais perfeita, com menos corrupção, menores desigualdades, maior prosperidade, sem necessidade além disso de pagar a factura, pois essa será suportada pelos ”outros”, capitalistas, “neoliberais”, ”ricos” e “gananciosos”.

Ocorre que a maioria do eleitorado europeu, como se viu no domingo, assumiu com o seu voto que as crises não se ultrapassam sem dificuldades, sem realismo, esperando pelo esforço dos outros; em Portugal, começa também a consolidar-se, em parte do eleitorado, a ideia de que a inveja e o ressentimeno não só não resolvem os problemas, como dividem a sociedade, deprimindo-a. Começa a ser evidente para muitos que a Esquerda em Portugal, sob a capa da procura de uma sociedade diferente, espalha, no imediato, a infelicidade, que torna as pessoas menos combativas, menos empenhadas, menos criativas, com maior aversão ao risco.

Acresce que a venda de soluções fáceis, na ausência de recursos, começa a ser, em alguns sectores, ineficiente no plano político. Promete-se o que não há, a redistribuição da riqueza; esta é, porém, uma estratégia de curto prazo, condenada, mais cedo ou mais tarde, ao insucesso: se derem a uma criança um kinder-surpresa sem brinquedo, funciona nas primeiras vezes; mas esta abordagem, a prazo, será viável? Não haverá uma tendência para que a criança, à medida que cresce, perceba que está a ser aldrabada?

*****

A solução para as crises não está nos outros, mas em cada um, e no modo como, pela positiva, possamos encontrar formas virtuosas de cooperação, em benefício mútuo. O espírito de iniciativa, génese do individualismo, a libertação das formas de cooperação, sem subjugação a entidades burocráticas – enfim, os mecanismos dos mercados livres – com os defeitos próprios das sociedades humanas, continuam a ser a receita mais adequada para ultrapassar os tempos menos bons.

No fundo, as crises só se superam na inovação, na produtividade e na criatividade, e estas características não estão no ADN das instâncias burocráticas estatais, mas das pessoas, pelo que a solução, a existir, terá de ser construída nos mercados, na iniciativa, na inovação.

*****

Portugal é um dos poucos países da Europa onde boa parte do eleitorado ainda acredita que o ovinho da Kinder da esquerda radical tem, dentro de si, um brinquedo.

10 Comentários »

  1. Existe hoje, e não apenas em Portugal, a maior das mistificações acerca dos conceitos – direita e esquerda.
    Sem praticas politicas que os diferenciem, os partidos da área do poder europeus reclamam-se: uns tantos da esquerda, outros tantos da direita.
    Não se distinguindo ideologicamente, vão alternando-se no poder com politicas em tudo idênticas. O que os distingue será, tão somente, a eficácia com que colocam em pratica tais politicas.
    Longe vão os tempos em que na realidade existia diferenças de conteúdo ideológico entre eles. No confronto capital-trabalho, os de direita tomavam partido pelo capital e os de esquerda assumiam-se defensores do trabalho. De forma democrática e formal os socialistas, de forma radical e revolucionária a extrema-esquerda (comunistas, trotskistas e anarquistas).

    Comentário por ruy — Junho 9, 2009 @ 19:18

  2. Para mim não há nada a fazer, o sistema está totalmente controlado, dentro de uma redoma blindada, constituída pelos senhores do sistema financeiro que já tomaram posse dos jornais, televisões, rádios e do financiamento dos partidos. Não há porta de fuga. Os centros de decisão não estão em Portugal. Os actores da Comunicação Social e da Política são simples agentes que executam ordens imanadas de algures.

    A crise foi provocada, portanto na realidade nunca existiu. O Sistema Bancário Mundial encerrou um ciclo para fazer mais-valias e, como sempre, quem se lixa é o mexilhão. O futuro vai ser igual ao passado recente, a menos que se acabem com as regras de gestão do mercado de capitais que favorecem a concentração do Capital em grandes conglomerados como tem acontecido desde a 1ª Guerra mundial (Holdings grandes pequenas e médias, Holdings de holdings) tudo a especular para controlar as economias e através delas a soberania dos países. Quem tem poder para mudar este “satus” é quem mais beneficia dele. Quem parte e reparte e não guarda para si a melhor parte, ou é parvo ou não sabe da arte (de repartir), não tenhamos ilusões. De vez em quando é necessário que algo mude, para que depois tudo fique na mesma.
    Isto não é nenhuma teoria da conspiração, é a pura da realidade. Quando olho para os políticos em campanha (ou a fazer política noutro contexto) só vejo moços-de-recados executando as manobras que os Senhores Seus Patrões mandaram.

    Comentário por Manolo Heredia — Junho 9, 2009 @ 20:06

  3. “Quem parte e reparte e não guarda para si a melhor parte, ou é parvo ou não sabe da arte (de repartir), não tenhamos ilusões.”

    Isso também vale para o Estado.

    Comentário por Carlos — Junho 9, 2009 @ 21:06

  4. Excelente post.

    Comentário por André Azevedo Alves — Junho 10, 2009 @ 00:50

  5. “Socialismo sem capitalismo, sem riqueza, em tempos de crise, é como um gelado, só que sem o gelado, vende aos clientes o gelado, mas só tem para oferecer o pauzinho.”

    O capitalismo porém, especula sobre a venda futura de gelados, espera com isso ganhar mais dinheiro do que a vender os gelados, e quando não é tão rentável como deveria ser… bem, socializamos as perdas!

    “Em tempos de crise, os partidos à esquerda vendem o medo, a insegurança, exploram a inveja social (…)”

    Os partidos à direita, porém não o fazem. Bem me parecia ser ideias de esquerda todo esse movimento que grassa pela Europa contra os imigrantes/turcos/muçulmanos! É por isso que devemos temer as vitórias históricas de partidos de extrema esquerda como a liga norte, a FPÖ ou os comunistas de Geert de Wilders!

    “Se derem a uma criança um kinder-surpresa sem brinquedo, funciona nas primeiras vezes; mas esta abordagem, a prazo, será viável? Não haverá uma tendência para que a criança, à medida que cresce, perceba que está a ser aldrabada?”
    :) smiley!

    “O espírito de iniciativa, génese do individualismo, a libertação das formas de cooperação, sem subjugação a entidades burocráticas – enfim, os mecanismos dos mercados livres – com os defeitos próprios das sociedades humanas, continuam a ser a receita mais adequada para ultrapassar os tempos menos bons.”

    Ora nem mais! A crise tem a génese toda numa cambada de preguiçosos que não se quer mexer e fazer algo na vida. É preciso fazer empresas, estimular o consumo privado, inovar, concorrer… enfim… capitalizar.
    A crise, a existir, é da culpa de todas essas pessoas que se encontram nos centros de emprego, ou à porta das fábricas que fecharam. Se globalizarmos o conceito, a culpa estará em todos esses milhões de pessoas que subsistem abaixo do limiar de pobreza. Precisamente porque não inovam, não produzem, não se mexem.

    “Portugal é um dos poucos países da Europa onde boa parte do eleitorado ainda acredita que o ovinho da Kinder da esquerda radical tem, dentro de si, um brinquedo.”

    Somos ingénuos portanto. Talvez quando tiananmen se transladar para o terreiro do paço é que seremos iluminados ao ponto de optarmos por fazermos o palácio de são bento num palacio de la moneda.

    Por fim:

    Será que as únicas alternativas serão optar por um ovo de chocolate sem prenda lá dentro ou por um iluminado que nos dá uma enxada para a mão e nos diz para plantar uma data de palmeiras com a promessa que quando elas florescerem vão dar ovinhos de chocolate com prenda lá dentro?

    Comentário por J.Rocha — Junho 10, 2009 @ 03:23

  6. Rodrigo Adão da Fonseca, essa da “inveja social” é algo de maravilhoso…
    Desde meados dos anos 70 que tem sido retirado progressivamente valor ao trabalho, cuidados de saúde são tornados mais caros e colocados fora do alcance da maioria da população, os estados são cada vez depauperados não havendo dinheiro para os serviços públicos mais básicos (é só ver como andam as estradas nesse eldorado que são os USA), é retirada (suprema ironia) a liberdade aos mais fracos de se unirem através do ataque aos sindicatos, que a educação pública é arrasada por falta de fundos enquanto que as “boas escolas” são subsidiadas (…). Podia continuar mas estes exemplos já chega para achar estranho o seguinte reparo: as elites abastadas em meados dos 70 para esta parte, quadruplicaram (em média…) as fortunas.
    Por isso já sabemos para onde foi o dinheiro. O que eu acho graça é que a “inveja social” que levou as “elites” ao ataque à social-democracia e ao estado providência nunca é mencionado.
    Liberais de pacotilha é o que os senhores são. Como se pode ser liberal quando todas as opiniões proferidas são ecos do neoliberalismo que os high and mighty usa têm vindo a vender no mundo?

    Comentário por Sérgio — Junho 10, 2009 @ 14:23

  7. A esquerda “radical” (outro termo idiota) não tem um ovo Kinder. E a direita rentista/corrupta tem o quê? Uma mão cheia de miséria e outra de pancada. Vai lá perguntar ao povo chileno o que pensam do neoliberalismo. Mas sim, devem ser todos uma cambada de invejosos e preguiçosos…

    Comentário por Sérgio — Junho 10, 2009 @ 14:47

  8. “Desde meados dos anos 70 que tem sido retirado progressivamente valor ao trabalho, cuidados de saúde são tornados mais caros e colocados fora do alcance da maioria da população, os estados são cada vez depauperados não havendo dinheiro para os serviços públicos mais básicos (é só ver como andam as estradas nesse eldorado que são os USA), é retirada (suprema ironia) a liberdade aos mais fracos de se unirem através do ataque aos sindicatos, que a educação pública é arrasada por falta de fundos enquanto que as “boas escolas” são subsidiadas”

    Caro Sérgio

    Ligue-se ao Youtube e procure por um programa chamado “20/20 Stupid in America.”

    Pode ser que fique com uma ideia diferente das “maravilhas” da educação pública e centralizada.

    Comentário por Carlos — Junho 10, 2009 @ 18:00

  9. Caro Carlos,

    Obrigado. Agrada-me sempre ver a propaganda neoliberal. Primeiro arrasam com o ensino publico, depois denunciam o estado das coisas como se não fosse nada com eles. Brilhante.

    Comentário por — Junho 10, 2009 @ 19:41

  10. Os liberais arrasaram com o ensino público?? Como é que isso é possivél se o ensino é “público”?? Cada vez se gasta mais dinheiro em educação e os resultados são piores. Por cá ainda continuamos a achar que um modelo de avaliação estandardizado e centralizado é que vai resolver os problemas e para disfarçar, fazem-se exames nacionais (mais um elemento de centralização) demasiado fáceis para dar a ideia que está tudo na maior.

    Não sei se viu o programa que está a criticar, se não o fez devia fazer.

    A parte que mais gosto é quando o entrevistador pergunta a uma das directoras de uma escola pública quanto dinheiro seria necessário para melhorar o sistema. A resposta da senhora foi esta: (letra a letra) ” How much… uhhh.. millions and we could really make it right”

    E depois aparecem professores em protesto que só sabem dizer “there is nothing that more moeny can´t fix”, como se atirar dinheiro para o problemas resolve-se alguma coisa.

    Comentário por Carlos — Junho 10, 2009 @ 20:00


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