1. Quem viu ontem as performances respectivas de Paulo Rangel e Manuela Ferreira Leite na sequência da vitória percebeu qual é o grande problema do PSD daqui até às legislativas. Enquanto Rangel agarrou logo a vitória com uma agressividade completamente apropriada à ocasião, dando ainda mais ar ao balão, Manuela Ferreira Leite desinchou-o logo a seguir. Quem quer ver o PSD ganhar as legislativas (o que não inclui muitas daquelas facções internas que estão sobretudo preocupadas em ganhar às outras facções dentro do PSD, mesmo que isso signifique perder fora) certamente pensou: que pena Paulo Rangel não ser o líder do PSD. Mal Manuela começou a falar, viu-se logo a continuidade das vitórias comprometida. Já tinha falado sobre isto aqui.
2. Não foi apenas Rangel a comprovar a importância dos aspectos individuais dos candidatos. Vital Moreira (meu Deus) também o fez, embora pela negativa. Viu-se ontem, com o evidente decoroçoamento no momento da derrota, que só então percebeu o desastre que vinha sendo construído desde o início da campanha. Ontem, caiu-lhe tudo aos pés. Depois de anos e anos no papel discreto de ex-comunista (nunca muito arrependido), no papel ainda mais discreto de académico “reputado” e, mais recentmente, de assistente submisso de José Sócrates, puseram-lhe enfim nas mãos a máquina do PS, o dinheiro e as agências de comunicação. Vital andou, de forma parola, visivelmente deslumbrado com a coisa. Ontem não sei o que terá percebido, mas certamente percebeu que não bastou para ganhar. Resta-lhe o belo ordenado de Bruxelas, que apesar de tudo compensa muita coisa.
3. A derrota do PS é muito maior do que se esperaria. Parece-me que bem podem dizer adeus à maioria absoluta, embora não necessariamente a uma vitória nas legislativas.
4. Ligado com isto, parece-me que começou ontem o esvaziamento da votação do BE. O PS e o BE funcionam em vasos comunicantes, do lado esquerdo do PS e do direito do BE. Com o reforço do PSD, muita gente no BE regressará à velha casa do PS na altura das legislativas. Afinal, estas foram mesmo eleições de protesto. Parece-me aliás que as votações relativas do PS e do BE nas legislativas vão depender da capacidade do PSD para se recompor. Não digo que o BE não se tenha afirmado mais consistentemente no panorama eleitoral, mas parece-me que não vale 11%. Terá talvez ganho de forma consistente alguns descontentes que fazem parte da tradicional clientela do PS – alguns professores e respectivas famílias, por exemplo, cujo destino natural fora do PS é o BE. Mas não sei se terá sido em número suficiente. Enfim, veremos.
5. A grande arma do PS vai continuar a ser o PSD. Melhor, as facções dentro do PSD. Muita gente diz que agora o partido vai ficar disciplinado atrás de Manuela. Não sei. O PS vai tentar tudo para alimentar algumas facções (como há tempos fazia com Pedro Passos Coelho) e elas provavelmente não se vão importar. Tudo depende de como avaliarem as reais possibilidades de o PSD ganhar aslegislativas. Se acharem que são altas, provavelmente não seguirão o canto da sereia. Se acharem que são baixas, vão continuar no seu frenesim. E convém não esquecer: Santana arrisca-se a ganhar Lisboa, o que lhe dará um grande palco para tentar a sua sorte.
6.Em suma: fun times ahead!
“Enquanto Rangel agarrou logo a vitória com uma agressividade completamente apropriada à ocasião, dando ainda mais ar ao balão, Manuela Ferreira Leite desinchou-o logo a seguir. Quem quer ver o PSD ganhar as legislativas (o que não inclui muitas daquelas facções internas que estão sobretudo preocupadas em ganhar às outras facções dentro do PSD, mesmo que isso signifique perder fora) certamente pensou: que pena Paulo Rangel não ser o líder do PSD.”
Sim. E especial os adversários internos da Ferreira Leite. Que mesmo com a pesada derrota pessoal do Passos Coelho (um flop), agora alimentam-se com a figura do… Rangel. lololol
A Ferreira Leite foi tão inteligente, que acabou com qualquer onda de entusiasmo interno, no sentido que seriam favas contadas a vitória nas Legislativas. E acabou com veleidades arrogantes, que a vitória estaria garantida.
Acho que a generalidade dos comentadores, incluindo aqui o autor, ainda não percebem muito bem como a Ferreira Leite funciona. Acho que os comentadores deveriam ser um bocadinho mais humildes, pois não pescam nada do que escrevem, na generalidade das vezes. E fazem avaliações erradas. E por isso ficam surpreendidos com esta vitória pessoal da Ferreira Leite.
Mas até às Legislativas ainda irão a tempo de perceber que a Ferreira Leite sabe mais de política que muitos pseudo-politólogos de algibeira. Alguns, os mesmos que elogiavam o Pinócrates nos primeiros dois anos. Os mesmo que elogiaram a escolha do Soares para as Presidenciais. Os mesmos que elogiaram a escolha do VM, por ser de “Coimbra”. E os mesmos que agora menosprezam as virtudes políticas de Ferreira Leite.
Comentário por anti-comuna — Junho 8, 2009 @ 11:48
E convém não esquecer que o Paulo Rangel não se “auto-escolheu” para o lugar. Foi-lhe confiado, por alguém que confia no seu trabalho.
Comentário por Carlos Duarte — Junho 8, 2009 @ 12:39
“Com o reforço do PSD, muita gente no BE regressará à velha casa do PS na altura das legislativas”
É provável tal como pode existir alguma migração do PS para o PSD de gente preocupada com a votação da extrema-esquerda e com a possibilidade de o PS se pode aliar a estes. Com ou sem Sócrates.
Comentário por Miguel — Junho 8, 2009 @ 12:42
O PS tem de ganhar as legislativas pois só com José Sócrates no poder é que Portugal pode se transformar num país melhor. O PS perdeu as Europeias mas tal aconteceu devido à grande abstenção.
Comentário por SIlou — Junho 8, 2009 @ 12:49
[...] não se poderão repetir, a pior coisa que pode resultar desta vitória é confundir prestações: Rangel não é Manuela Ferreira Leite e Sócrates não é Vital Moreira. Há aqui lições a aprender e isso não deve custar a ninguém, se isto for percebido as [...]
Pingback por Saber vencer e saber perder « — Junho 8, 2009 @ 13:33
Em termos individuais, ontem houve dois vencedores: Rangel e Sócrates.
Rangel, será, a prazo, líder do PSD. Passos Coelho, percebendo-o, colocou desde logo a fasquia a uma altura inultrapassável. Tramou-se. Menezes, que tem sete vidas como Santana, preparou o regresso à ribalta.
Sócrates livrou-se do seu mais difícil oponente e, com a pesada derrota, viu surgir na mente da esquerda que se situa entre o PS e o BE/CDU o fantasma do voto útil. São estes quem pode colocar o PS de novo na fasquia dos 40%.
Comentário por Rui Herbon — Junho 8, 2009 @ 15:52
Concordo com o anti-comuna (seja bem-vindo).
1) Houve quem, à direita, elogiasse o discurso de Paulo Rangel. E foi, de facto, um bom discurso do ponto de vista substantivo, na medida em que cobriu tudo o que seria necessário dizer (a derrota da campanha suja relacionada com o BPN, a necessidade de colocar um fim nos projectos ruinosos que o PS se presta a levar por adiante, a derrota dos partidos socialistas na Europa). Isto posto, para o eleitorado, terá parecido um discurso arrogante de quem, triunfante, amesquinha os derrotados. E isso é perigoso. Nessa medida, Manuela Ferreira Leite esteve bem ao esfriar as expectativas de uma vitória nas legislativas. O PSD terá de parecer humilde se quiser ganhar as próximas eleições. A tarefa que MFL tem agora passa por desenhar um projecto de governo. No fundo, trata-se de dar sentido a um conjunto de propostas que tem vindo a apresentar (pagamento das dívidas do Estado aos particulares, baixa de impostos, etc…). Só assim poderá ganhar as próximas eleições.
2) O voto do BE tenderá a dividir-se entre o partido e o PS, não haja grandes dúvidas sobre isso. Nessa medida, o PSD ainda terá de crescer bastante para estar em condições de ganhar as legislativas. Um sinal positivo vem da análise da votação a nível distrital, visto que ter recuperado o cavaquistão é um bom sintoma paras as próximas eleições. Outro bom sinal é a sobrevivência do CDS. Não só porque muitos desses votos poderão transferir-se para o PSD em caso de a vitória deste nas legislativas se tornar verosímil, como também porque, mesmo não acontecendo tal transferência, poderá permitir uma coligação à direita se, mesmo assim, o PSD conseguir subir nas intenções de voto. Ou seja, está tudo em aberto. Agora sim, pode dizer-se que o vencedor das próximas legislativas é uma incógnita. Mérito evidente de MFL.
Comentário por José Barros — Junho 8, 2009 @ 15:57
“Isto posto, para o eleitorado, terá parecido um discurso arrogante de quem, triunfante, amesquinha os derrotados. E isso é perigoso.”
Caro JB, foi isso mesmo que me disseram sobre o discurso dele. Um velho simpatizante do PSD resumiu-me o discurso do Rangel. (Que não assisti em directo, só mais tarde) ARROGANTE!
Portanto, o discurso do Rangel foi demasiado agressivo para discurso de vitória. Nestas alturas deve-se ser firme mas não arrogante.
Comentário por anti-comuna — Junho 8, 2009 @ 17:50
Excelente análise do Luciano, como habitualmente acontece.
Comentário por André Azevedo Alves — Junho 9, 2009 @ 01:48