Paulo Pinto Mascarenhas sobre este – muito pouco feliz (e, não por acaso, aplaudido por João Rodrigues) – artigo de João Cardoso Rosas: Neo?
Escrever que Ronald Reagan ou Margaret Thatcher são neoliberais é dizer que foi o neoliberalismo que conseguiu durante as últimas décadas manter nos EUA e/ou promover na Europa Ocidental democracia e economia de mercado, liberdade e prosperidade, para além da paz possível. Ou que foi o “neoliberalismo” que ajudou a derrubar o Muro de Berlim e a acabar com a União Soviética e o Pacto de Varsóvia. Se é a esse “neoliberalismo” que João Cardoso Rosas se refere, então parece-me que também devo ser “neoliberal”.
Leitura complementar: A crise e o “neoliberalismo”.
João Carlos Rosa considera o « neoliberalismo » como um grande saco onde se pode meter quase tudo … que não seja um “anti-capitalismo” ortodoxo e esquerdista.
Diz que “a direita tradicional” incorporou o “neoliberalismo”.
Diz que a “esquerda democrática” “aderiu, de facto, aos aspectos essenciais do neoliberalismo.”
Ora sabemos que este termo tem sido quase sempre associado (a começar, e sobretudo, pelos principais críticos do “liberalismo” (sem “neo” !), às correntes liberais mais doutrinárias e “radicais”.
Por isso, é algo contraditório e inconsequente querer classificar como “neoliberal” o período histórico das últimas décadas.
Mas se ele pretende com isto sugerir que durante este período as ideias e as práticais liberais ou liberalizantes progrediram e influenciaram as forças de governo … penso que tem razão !
Digo isto, sabendo que muitos “liberais” ou “neoliberais” não concordam com este diagnóstico e preferem vêr a história recente como uma ilustração do “caminho para a servidão”, estatalista e socialista, naturalmente.
Seja como fôr, foi esta “liberalização” que caracterizou e determinou a “face luminosa” a que se refere o articulista : a globalização da economia e da tecnologia, a riqueza de alguns e a prosperidade de muitos, o fim das ditaduras comunistas (e não apenas … igualmente o desaparecimentos de muitas outras, “de direita”), a expansão da economia de mercado, etc.
Assim sendo, o balanço seria largamente positivo, e torna-se difícil perceber porque é que João Carlos Rosa considera não ser “desejável regressar às políticas neoliberais”.
É verdade que ele refere “a crise” e a circunstância de esta ter revelado “a factura negativa do neoliberalismo” : “instabilidade dos mercados, aumento das desigualdades e da insegurança, crise da democracia, degradação ambiental.”
Mas a associação do “neoliberalismo” a estes aspectos é abusiva e contestável.
Desde logo porque não é líquido que o perído anterior à “crise” tenha produzido mais “instabilidade”, “desigualdades”, “insegurança”, “déficits de democracia”, “degradação ambiental”.
Mas sobretudo porque se pode perfeitamente sustentar que alguns dos aspectos negativos referidos não são uma consequência directa de políticas “liberais”, muito menos “neoliberais”.
Há certas evoluções que são o resultado puro e simples do progresso tecnológico, económico e social, da passagem de “pequenas sociedades rurais fechadas” para “grandes sociedades urbanizadas abertas”, das economias administradas em autarcia para a economia de mercado global, das ditaduras para as democracias …
E há muitos disfuncionamentos, desequilíbrios, desigualdades, conflitos, problemas ambientais, etc… incluindo a própria crise financeira em curso, que não são um resultado da maior liberdade económica e social, mas sim uma consequência da permanência de inúmeros entraves a esta mesma liberdade, das velhas estruturas tradicionais, das ideias e práticas burocráticas, estatizantes e socializantes, do “anti-liberalismo”, do “neosocialismo”.
Ou seja, uma consequência da insuficiência de “liberalismo”, da falta de “neoliberalismo” !!
Comentário por Fernando S — Maio 23, 2009 @ 14:25