No Jugular, o João Galamba recorre à arma argumentativa que há anos anda a passear pela blogosfera para demolir o meu post de ontem: enche o texto de referências eruditas e concepções metafísicas para que, ao transmitir a ilusão de inteligência, consiga desviar os leitores da minha argumentação e da total ausência de argumentos contra o que efectivamente escrevi.
Há uma crítica que o João me faz e que eu aceito plenamente: fui demasiado simplista ao “explicar” a crise. É, admito, o preço da minha ignorância em relação a tais assuntos. No entanto, apesar de simplista, não me parece que a minha “explicação” seja falsa, nem sequer que o simplismo dela seja suficiente para invalidar o argumento geral do texto. E em lado algum do texto digo que a “culpa” é só do Estado, nem que a “solução” é o mercado: não há “solução” para as “crises”, elas continuarão a existir sempre, e o que procurei saber foi qual a melhor forma de lidar com o facto de que, da acção do Estado ou do “mercado”, sairá, muitas vezes, asneira da grossa.
O João diz ainda que o meu argumento é “uma versão do argumento epistemológico de Hayek em favor dos mercados”. Parece que sim. Não sou grande leitor de Hayek (eu é mais Dunst, tendência Kirsten), mas das vagas ideias que tenho da coisa, é mais ou o menos o mesmo, é. Diz depois o João que a minha “versão” do argumento de Hayek até “parece aceitável”, “estatísticamente”. No entanto, diz o João, tudo assenta numa “falácia”. E aqui o João começa a falar de uma série de coisas que nunca me passaram pela cabeça: fala de “liberdade”, “positiva” e “negativa”, e de como eu penso, erradamente (claro), que o Estado, ao agir, tira forçosamente liberdade aos indivíduos (por acaso, o que eu penso, embora nada tenha a ver com o texto em questão, é que certas acções do Estado tirem alguma liberdade, outras dão, embora para darem tenham que tirar alguma), e finalmente, espirra o cânone comunitarista, para destruir de uma só assoadela todo o meu “liberalismo”.
Primeiro, o João comete o erro de pensar, só porque eu escrevo no Insurgente, que só um “liberal” (não sou). E segundo, usa a argumentação comunitarista de crítica ao liberalismo como teoria política assente em “direitos” (se eu fosse como o João, punha aqui uma palavra em alemão) para criticar um post em que não falo, nem sequer penso, em “direitos”. A ideia de que o indivíduo não é pré-existente ao Estado seria relevante, e contrária ao meu argumento, se eu estivesse a falar de “fronteiras” que, por “direito”, o Estado não deve ultrapassar na sua relação com os cidadãos (não digo “indivíduos” para o João não dizer que eles não existem). No entanto, o meu argumento não passa por qualquer consideração “atomista” acerca da natureza do ser (agora até parecia o João, embora em alemão isto ficasse mais bonito). Passava, apenas e só, pela avaliação, meramente probabilística, da forma como as decisões são tomadas, do impacto que elas poderão ter, e a melhor forma de lidar com esse problema.
O meu argumento, que “estatiscamente” até “parece aceitável”, assentava apenas e só no seguinte: 1) vivemos num mundo de imprevisibilidade, no qual as decisões humanas podem ter um impacto significativo da vidas de todos e cada um; 2) precisamente por essa imprevisibilidade e por esse potencial impacto das decisões que todos nós tomamos, todas elas têm um elevado grau de risco; 3) se os riscos são elevados, será apenas e só de bom senso que as “apostas” sejam o menos elevadas possíveis, que eu aposte um bocadinho aqui e outro bocadinho ali; ou seja, tendo em conta que vivemos nesse mundo de imprevisibilidade e risco elevado, os nossos arranjos políticos devem aligeirar os riscos que corremos, disseminando as “apostas” (o que, ao contrário do que o João Galamba diz, não significa apenas mercado livre, mas também descentralização política e “subsidariedade”, em vez de “grandes soluções” como as que os líderes europeus e americanos tanto gostam, e, acima de tudo, prudência na regulação das actividades humanas).
O João pode ou não concordar com este raciocínio, e se não concordar, até gostaria de perceber porquê, para poder corrigir os meus eventuais (e prováveis) erros. Mas escusa de tentar enganar os leitores, procurando fazer-lhes crer que, para discutir uma questão meramente probabilística (qual a melhor forma de lidar com a imprevisibilidade e o risco?), eu preciso de partir de concepções metafísicas acerca da natureza do Estado e do “Sujeito” (o meu argumento é aceitável ou criticável independentemente da minha concepção acerca da natureza do Estado e do “Sujeito”, e se eu tiver que usar esta palavra mais alguma vez, vou ficar enjoado). Até porque com tanto esforço dispendido a enumerar os autores que, com os cantos da folha ainda por desgastar, tem lá na sua estante, o João se esqueceu de comentar o texto que eu realmente escrevi. O que até nem deve ser culpa minha, porque, ao contrário do que é habitual nos textos do João, o meu até parece ser relativamente legível.
Não és liberal mas és – até prova em contrário – bom rapaz.
Assim se prova como O Insurgente é um blogue genuinamente pluralista cuja identidade se constitui no diálogo pelo reconhecimento do Outro…
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 13, 2009 @ 00:25
Isto dito, acho que subvalorizas o papel dos Bancos Centrais nas crises, mas isso seria outra conversa.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 13, 2009 @ 00:26
O mais importante nisto tudo são as bolas de bilhar…
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 13, 2009 @ 00:27
Mais uma vez, André, reconheço que a minha “explicação” da crise é demasiado simplista, em parte porque não era esse o propósito, em parte (a maior) por falta de conhecimentos. no enatnto, acho que há outros posts meus em que faço mais disso, nem que seja só de passagem…
E já agora, uma pergunta, se não há “indivíduo”, se não há um “Eu” isolado, como é que pode haver “Outro” com quem eu dialogue?
Comentário por Bruno Alves — Maio 13, 2009 @ 00:30
Então, se O Insurgente é mesmo pluralista, no final das contas, é o Outro que é O fássista?!
Comentário por ruicarmo — Maio 13, 2009 @ 00:34
A Dunst tem alguns bons atributos e outras tantas boas valências. Mas ó Bruno parece-me que a água suja do imperialismo está marada. Como explicas “se não há “indivíduo”, se não há um “Eu” isolado, como é que pode haver “Outro” com quem eu dialogue?”
Comentário por ruicarmo — Maio 13, 2009 @ 00:37
O fassismo não pode ser compreendido sem tomar em conta o diálogo com as outras ideologias. O fassismo não é uma bola de Berlim…
Comentário por Bruno Alves — Maio 13, 2009 @ 00:38
“E já agora, uma pergunta, se não há “indivíduo”, se não há um “Eu” isolado, como é que pode haver “Outro” com quem eu dialogue?”
Bolas de bilhar, meu caro, bolhas de bilhar…
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 13, 2009 @ 01:06
“Então, se O Insurgente é mesmo pluralista, no final das contas, é o Outro que é O fássista?!”
O diálogo com o fásssismo do Outro é constitutivo do Eu Insurgente.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 13, 2009 @ 01:06
E já agora, uma pergunta, se não há “indivíduo”, se não há um “Eu” isolado, como é que pode haver “Outro” com quem eu dialogue?
Simples. O “eu” e o “outro” não são matéria objectivamente delineada. são relação. abres os olhos de manhã e vês o “quê?” vês o teu ego, o teu eu. não. vês o mundo e os outros no mundo. antes do acto de auto-reflexão, onde o eu se afirma como preponderante, está (no sentido mais profundo de estar) o outro (a Mãe, o Pai, o irmão e a irmã) o outro.
ou seja, não precisas de supor a existência de duas unidades objectivas, com fronteiras claramente definidas (o outro e o o eu) ANTES de ter a relação do eu com o outro. é au contraire. (eu tb gosto de Alemão, mas nestas coisas delicadas prefiro o Francês) . é a relação que antecede o eu-e-o-outro. uma relação que é iniciada antes da consolidação do eu e do outro como alteridade constituida.
será que me faço compreender. resta agora acusarem-me de charlatonice. meus caros, esta noção tem mais do que 3000 anos. não provém dos gregos, certamente. nem dos alemães. mas não surgiu com o pós-modernismo!!
Comentário por ezequiel — Maio 13, 2009 @ 02:29
já estiveste apaixonado, certamente. o que é a paixão senão a rendição (na forma de uma abertura hospitaleira) ao mistério do outro? apenas um exemplo.
Comentário por ezequiel — Maio 13, 2009 @ 02:32
As bolas de Berlim não são fassistas mas nazis. São coisas diferentes. Já dizia o “outro”.
Comentário por Miguel — Maio 13, 2009 @ 08:45
O que o João Galamba esquece não refere no seu texto – pois era capaz de baralhar a sua linha de argumentação sempre tão limpinha e afirmativa – é que o Estado não é um ente autónomo, não tem uma vontade própria, mas age em função da síntese dos interesses dos seus agentes, que são pessoas, de carne e osso, com agendas próprias. A liberdade positiva, vista neste plano, acaba por não ser uma efectiva liberdade, pois é imposta, subordina-se à “vontade geral”, ao “interesse público”, à “razão de Estado”; uma liberdade positiva “a la Rousseau” tem um “pequeno” inconveniente: tantas vezes é a capa para o exercício de poder arbitrário, para a defesa dos interesses individuais dos que exercem a função estatal; por isso é que a defesa de uma liberdade negativa – o dever de não interferência, de neutralidade face à esfera de actuação e direitos dos cidadãos é a forma a meu ver mais adequada de defesa de um conceito de liberdade que salvaguarda a pluralidade e uma noção de liberdade que respeita a verdadeira essência deste valor. “Liberdade positiva”, tal como o João Galamba a apresenta, não é efecivamente “liberdade”, mas uma porta aberta à arbitrariedade.
Comentário por RAF — Maio 13, 2009 @ 11:20
A mim parece-me que há algo de folgeschäden no argumento do João Galamba. Creio que é consequência das suas tendências epistemológicas da escola Betrug. Por outro lado, não estou inteiramente certo se às vezes as suas análises sobre o Outro não têm uma origem sheisskopf.
Comentário por Migas — Maio 13, 2009 @ 12:02
Ó Migas,
as suas piadolas são elevadíssimas. Quer brincar aos conceitos, é?
Comentário por joao galamba — Maio 13, 2009 @ 12:18
fodasse! axo q foi desta q me perdi…;)
Comentário por Pedro — Maio 13, 2009 @ 12:35
Ó João,
Que falta de sinn für Humor, pá.
Os conceitos existem, é? Pensei que fossem um produto reflexivo do soziale gefüge.
Comentário por Migas — Maio 13, 2009 @ 13:33
será que aqui consigo comentar?
Comentário por Cam — Maio 13, 2009 @ 13:41
Não percebo porque cita o Galamba em alemão. Ele não sabe alemão, não estudou alemão, não leu nada no original!
Comentário por nome obrigatório — Maio 13, 2009 @ 14:18
“o Estado não é um ente autónomo, não tem uma vontade própria, mas age em função da síntese dos interesses dos seus agentes, que são pessoas, de carne e osso, com agendas próprias.”
Muito bem…
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 13, 2009 @ 14:48
http://intransmissivel.wordpress.com/2008/10/07/circunstancias-circunstanciais-do-homem/
embora tenha escrito isto com outro sentido, parece-me que se aplica ao objectivo do seu “post”.
julgo serem os pressupostos de ambas as ideias que devem ser “revisitados”.
obrigado pela reflexão
P.S. – a título de curiosidade:
http://intransmissivel.wordpress.com/2008/10/14/nostalgias/
Comentário por VFS — Maio 13, 2009 @ 16:11
“o Estado não é um ente autónomo, não tem uma vontade própria, mas age em função da síntese dos interesses dos seus agentes, que são pessoas, de carne e osso, com agendas próprias.”
da síntese??? poderia explicar isto s.f.f.?
Comentário por ezequiel — Maio 13, 2009 @ 17:38
Eu vou aprender japonês, e começar a inserir aleatoriamente (como faz o joão, porque não me parece que este “sinn für” seja impossivel de traduzir para português: sentido de humor, e nem faz referência a um conceito definido de um autor alemão como é o caso de Realpolitik, logo não têm justificação.) no meu discurso, e acusar as pessoas que não percebem de ignorantes… Isto é ostentação da mais elevada superficialidade!
Comentário por Alexandre Oliveira — Maio 13, 2009 @ 17:41
Esquecem la o comentario anterior, enganei me por completo.
Comentário por Alexandre Oliveira — Maio 13, 2009 @ 18:00
Sim, Ezequiel, da síntese; temos vários agentes estatais, cada um com as suas agendas; daquilo que são as diligências que cada um toma para fazer valer o seu interesse, resulta a “vontade estatal”, que basicamente incorpora as vontades individuais dos agentes púbicos em cooperação ou conflito. Por vezes, até acredito, que a vontade do agente esteja alinhada com a defesa do interesse dos cidadãos; outras vezes – vezes demais – é a agenda própria dos agentes estatais que prevalece… O que não há, na minha opinião, obviamente, é uma vontade geral do ente autónomo “Estado”.
Comentário por RAF — Maio 13, 2009 @ 18:04