Primeiro foi o orçamento rectificativo expresso que tiveram de apresentar posteriormente a terem apresentado o inicial depois de sabe-se lá que noitadas de copos ou ansiolíticos (ou ambos) que prepararam um orçamento para Agosto de 2008 em vez de outro pós-hecatombe financeira de Setembro passado. Em vez de lhe chamarem orçamento rectificativo, inventaram o sinónimo subtil de orçamento suplementar (diziam eles que as condições se haviam alterado, e eu acredito: talvez tenham, por fim, lido um ou outro jornal e vislumbrado esta ou aquela estatística mais recente – em todo o caso, a causa não altera o nome objectivo das coisas).
Agora, depois de clamarem contra o enriquecimento ilícito – que sempre tinha o benefício de implicar algo ilegal (para além de, claro, a ilegal – e imoral – inversão do ónus da prova) – vêm taxar o enriquecimento injustificado, que só o nome leva à desconfiança das maiores arbitrariedades. Injustificado como? Injustificado porque não se justifica? E se se justificar, todas as justificações serão aceites? E se alguém apanha um burocrata bloquista, para quem a dádiva de cento e cinquenta mil euros de um pais a um filho pode ser enriquecimento injustificado? E se esse pai morre e a viúva, que nunca gostou dos filhos do primeiro casamento do marido e até se regozija com a sua má sorte, recusa mostrar extractos bancários para confirmar a dádiva?
O curioso é a forma carneirista como a comunicação social de imediato adopta os nomes inventados pelo governo. Se não se importarem, eu vou continuar a chamar as coisas pelos nomes: no primeiro caso, orçamento rectificativo; no segundo, roubalheira estatal.