Um artigo no New York Times dá conta da intenção de vários bancos emericanos, que receberam ajudas do Tesouro, em acelerar o calendário de devoluções. As interferências na gestão e os conflitos entre objectivos públicos e privados são cada vez maiores. Temem que o seu destino seja o mesmo do Freddie Mac e Fannie Mae. (mais…)
Março 12, 2009
Leais, Imparciais & Liberais – apresentação no Porto

“Leais, Imparciais & Liberais – Crónicas a Três Andamentos” de José Manuel Moreira
Mais uma falta notória de regulação, mais consequências do neoliberalismo
Via Rui Carmo, um excelente artigo de Carlo Longino que narra o bravos esforços anunciados da União Europeia para, regulando mais, resolver os problemas criados pela sua própria regulação (com negritos meus):
The European Union has been interfering in the market for international mobile-phone roaming rates for some, taking the populist position that the charges were too high, and forcing caps on the wholesale rates operators charge each other, hoping to drag down retail prices. But the effect was, as we predicted, baloon squeezing: while intra-Europe roaming rates fell, operators looked to boost rates paid by people from outside Europe and their domestic rates. What makes this situation particularly ridiculous is that it was one manufactured by the EU itself. When Vodafone expanded across the continent by buying German operator Mannesmann in 2000, it was essentially prevented by EU regulators from introducing any roaming products that utilized its competitive advantage. The regulators said that if Vodafone cut any of its international roaming prices, it would have to offer the same price to its rivals — removing any motivation for the operator to cut prices and introduce new services.
The EU continues to try to regulate itself out of this self-created mess, the latest move being that a European Parliament committee has voted to further cap roaming charges on text messages and mobile data.
Acerca do “consenso keynesiano”
No início do ano ainda antes de iniciar funções, Barack Obama declarava
There is no disagreement that we need action by our government, a recovery plan that will help to jumpstart the economy.
Várias dezenas de economistas reagiram publicando um manifesto que contrariava a ideia da existência de um consenso em torno das soluções keynesianas para a actual crise (“With all due respect Mr.President,that is not true”) [*].
Decorridos cerca de dois meses, a Economist organiza um debate entre Brad DeLong e Luigi Zingales acerca da validade da afirmação de Obama.
Apesar de ser favorável ao estímulo governamental, mesmo DeLong recusa a existência de um suposto consenso (o que não supreende dado que a defesa da primeira posição não implica que necessariamente se concorde com a segunda) e cita vários exemplos. Dado que Zingales representa[ria] a posição contrária é provável que este debate se centre mais na validade da(s) teoria(s) que sustenta(m) o plano do que na preposição de Obama (que – à partida – se encontra desacreditada). (mais…)
Obama demasiado cansado para cumprir as suas obrigações de Estado (2)
Comentário do leitor Luís Cardoso ao post Obama demasiado cansado para cumprir as suas obrigações de Estado:
Apesar do cansaço alegadamente acumulado devido a uma dedicação frenética à resolução dos problemas económicos e financeiros do USA, uma dos funções da competência directa e exclusiva da presidência, a constituição da equipa do Tesouro, parece estar a ser negligenciada. A esmagadora maioria dos lugares de topo no Tesouro americano estão por ocupar, após 4 meses de transição e mês e meio de exercício de funções: Why has Obama neglected Treasury?
E, ao que parece, não são apenas os cargos de topo que estão por preencher: o de secretária/o recepcionista/a também está vago: Anyone answering the phone at Treasury?
A desculpa, para além do mais, é idiota: o protocolo serve para isso mesmo, para uma pessoa não ter que se preocupar com a maneira de tratar outra: basta seguir o protocolo. Sem protocolo, temos que questionar todos os nossos passos antes de dá-los, o que limita os nossos movimentos. O protocolo é uma construção social, por depuração dos melhores movimentos passados e eliminação dos piores.
Só um idiota despreza o protocolo como algo que escraviza. Se o protocolo for demasiado pesado, pode e deve ser ajustado, mas rejeitá-lo liminarmente só pode dar sarilhos, como se vê.
Março 11, 2009
Hoots, man!

Os laddies na SIC Notícias dizem que o estádio do Dragão está cheio de “stewarts”. O jogo não era contra o Atlético de Madrid?
Entre os 8 melhores da Europa
Um jogo sofrido (com Helton a dar por vezes calafrios) mas em que o principal objectivo foi justamente atingido: Liga dos Campeões: FC Porto nem precisou de golos para se apurar
O FC Porto apurou-se para os quartos-de-final da Liga dos Campeões após empatar a zero, no Estádio do Dragão, contra o Atlético de Madrid. O nulo foi suficiente para os portistas que, no encontro da primeira mão, tinham ido ao Vicente Calderón empatar a dois golos.
Three stooges

Estão neste exacto momento em directo na SIC Notícias a perorar sobre a falta de regulação. Estão todos de acordo. Nada como a diversidade de ideias para formar a opinião pública.
Obama, Bush e a Europa
Missing Bush yet? Por Luciano Amaral.
Por comparação com a administração Obama, a administração Bush foi de um eurofilismo que agora até parece comovente e mesmo um bocadinho antiquado. Eu lembro-me dos esforços (bem sucedidos) para construir a coligação para o Afeganistão. E dos esforços (mal sucedidos) para construir a coligação do Iraque. Seja como for, Rumsfeld passava a vida cá, negociando com parceiros europeus. Lembro-me mesmo de o ver insultado em público por um histérico Joschka Fischer, não um cidadão qualquer, mas salvo erro então ministro dos Negócios Estrangeiros.
Com o seu anti-bushismo e pró-obamismo incondicionais, os europeus fizeram uma caricatura de si próprios que ainda lhes pode sair cara se não começarem já a falar um pouco mais grosso para o outro lado do mar.
Como decretar a criação de emprego qualificado
Dado o decretado hoje pelo Conselho de Ministros “passa a ser proibido fazer o consumidor esperar em linha mais de 60 segundos” nas chamadas que efectuar para um “call center”.
É sem dúvida uma bem preparada e estudada medida para aumentar o emprego qualificado (por redistribuição forçada/decretada do stock de trabalho existente nos call centers), algo que é acarinhado pelo Primeiro Ministro como se viu no Verão passado, em Santo Tirso.
Alvíssaras

Nós, aqui pel’O Insurgente, estamos solidários com as dificuldades impostas pela Crise.
Os próprios insurgentes convivem diariamente com estas, e como tal são mais do que compreensivos para com as estratégias empregues para lhe dar a volta, mesmo com as que envolvem a venda de papel ao quilo.
Como tal, e como mostra de solidariedade, fica a oferta de alvíssaras (que tanto jeito dão por esta altura) para aqueles que ultrapassem algumas pequenas tarefas.
A primeira é a de encontrar na generalidade nos comentários seguintes (dos muitos mais ainda disponíveis, e lamentando a perda dos 5 ou 10 do género que foram apagados depois do seu autor optar por olimpicamente ignorar os nossos avisos), mais concretamente nos links que propõem, alguma proximidade com os artigos do nosso blog onde foram colocados:
- http://oinsurgente.org/2009/02/07/o-ambiente-como-pretexto/#comment-43136
- http://oinsurgente.org/2009/02/06/dna/#comment-43119
- http://oinsurgente.org/2009/02/05/banking-and-the-unholy-alliance-between-big-business-and-big-government/#comment-43071
- http://oinsurgente.org/2009/02/04/joao-miranda-o-diario-de-noticias-e-a-imprensa-portuguesa/#comment-42864
- http://oinsurgente.org/2009/02/03/neve-em-londres-e-calor-na-australia/#comment-42787
- http://oinsurgente.org/2009/02/02/estimulos-arriscados/#comment-42748
- http://oinsurgente.org/2009/02/01/freeport-no-pais-dos-rodinhas/#comment-42640
- http://oinsurgente.org/2009/01/22/o-fracasso-das-politicas-socialistas/#comment-41639
- http://oinsurgente.org/2009/01/20/coisa-que-interessam/#comment-41510
- http://oinsurgente.org/2009/01/19/the-lincoln-myth-2-2/#comment-41369 (o link sugerido tem um carácter ‘.’ a mais)
A segunda, restrita aos dois últimos comentários da lista anterior – e fácil (porque também não queremos estafar os nossos leitores), é descobrir onde é feita a promoção a um determinado livro, qual o seu nome, editora, data de lançamento, autor – e já agora – que tópicos versa e a que presidente dos EUA se refere.
Finalmente, e para não dizerem que também embarcamos e promovemos facilidades, uma última tarefa: encontrar por aí dois dedos de testa que, pelos vistos, andam por aí a fazer muita falta.
Só não percebi bem o objectivo desta medida
O Governo aprovou hoje algumas medidas que visam proteger os utilizadores de crédito ao consumo. Em causa estão regras de maior transparência, e de mais informação; limites para as comissões no caso de amortizações antecipadas e limites máximos, que serão traçados, para as taxas de juro praticadas neste sector.
Sempre foi um bom cliente e tinha direito a uma taxa preferêncial? Provavelmente o seu banco vai aumentar-lhe a taxa para compensar o que vai perder em comissões.
Teve um problemazito ou outro com o seu banco, saldos modestos ou pouco ou nenhum historico? No intuito de o proteger, o governo acaba de aprovar uma lei que desincentiva o seu banco a conceder-lhe crédito.
A Síria
“The Syria Temptation” de Bret Stephens
Um elucidativo artigo sobre a política externa síria (que para alguns efeitos é considerada pelo regime sírio como “política interna”) desde o final do “reinando” de Hafez al-Assad até ao presente (já com os seu filho Bashar). Um sério aviso sobre das consequência de uma eventual política de “apaziguamento” da administração Obama.
No “process” between Syria and Israel under U.S. auspices is currently worth having. The regime in Damascus has offered no indication that it is prepared to accept Israel’s right to exist, or respect Lebanon’s sovereignty, or abandon its links to terrorism or to Iran. Instead, for nearly two decades, Syria has offered only indications to the contrary, indications that have multiplied since Bashar Assad came to power almost nine years ago. For Israel to engage in such a process risks its status as a sovereign, self-respecting nation, one that is nobody’s fool. And for the United States to do so risks the diminishment of its status as a serious power and a reliable ally.
À marretada

É um facto bem conhecido que alguns tanques russos da IIª Guerra Mundial, com destaque para o KV1 e para as primeiras gerações do famoso T34, apresentavam problemas graves de fiabilidade ao nível, nomeadamente, das transmissões (que partilhavam).
A tentação de desenvolver tanques pesados, como foi o caso dos KV1, com pesos crescentes motivados por blindagens cada vez mais substanciais e peças de artilharia mais capazes, colocou um fardo sobre motores e transmissões que claramente não estava ao seu alcance ultrapassar. Acabaram portanto por ser relativos fracassos em termos de utilização no terreno, uma vez que eram muito significativas as avarias destes equipamentos devidas a essas fragilidades. Tal facto motivou algumas acções desesperadas, que passaram até por transportar transmissões inteiras no exterior dos tanques, antevendo a necessidade da sua substituição.
As equipas dos referidos tanques adoptaram uma solução mais prosaica: ao equipamento standard transportado nestes, passou a ser acrescentada, progressivamente (em baixo de um dos bancos), uma marreta que permitia acrescentar alguma capacidade de persuasão aos esforços da equipa quando a transmissão emperrava entre velocidades.
Naturalmente, no caso concreto do T34, o caso acabou por ser resolvido como deveria ser, reformulando a sua transmissão e abdicando da marreta. Contudo, a lição parece que não fez história. Ainda hoje alguns persistem em acreditar que a escolha de uma marreta maior é a solução para os problemas de encravamento das transmissões – diga-se, em grande parte fatigadas por intervenções anteriores.
Entramos já no domínio dos pensamentos mágicos, e das convicções inabaláveis de que não se sabe muito bem “como vai funcionar”, mas que sim, “vai funcionar”.
Um pouco como um corolário da tese de que para quem usa sistematicamente martelos para resolver problemas, todos os novos que se lhe apresentam começam a parecer pregos.
E mais uma canção de amor – sem pretensões
Elis Regina e Adoniran Barbosa: Tiro ao Álvaro
De tanto levá frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furá
Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver
Outras aqui.
A política externa de Obama
“O Príncipe” de Fernando Gabriel (Diário Económico)
Das brumas de Foggy Bottom emerge a nova política externa norte-americana e embora os seus contornos ainda não sejam perfeitamente discerníveis, daquilo que se vislumbra uma coisa é certa: no consulado de Obama a topologia das relações externas e o correlativo acesso aos favores de Washington são determinados exclusivamente pelo princípio fundamental do imperativo da necessidade.
E o imperativo da necessidade não é compatível com distinções conceptuais simples, como a diferença entre amigos e inimigos, ou entre aliados e adversários
Fim
Hoje (ontem) gastei o último euro que prevejo gastar com a minha leitura diária dos últimos dez a doze anos. Antes disso já era leitor d’O Público mas, especialmente nos últimos dez anos não devo ter perdido mais de uma dúzia de edições. Mesmo quando estava fora acumulava Públicos em casa. Chega.
Já há algum tempo que para mim a leitura do jornal era cada vez mais irritante, rápida e na diagonal, um molho de papel cheio de opiniões e com muito, muito pouca informação. Há muito que passava à frente da abordagem que o jornal faz de certos temas: o aquecimento global, as questões de género, a economia (excepção ao suplemento), os blogues, a última página, as notícias sobre o Porto cidade, etc. Se quiser doutrina leio os originais, se quiser opinião, mesmo n’O Público, há páginas onde isso é assumido e para ignorância basto-me eu próprio. Compro o Jornal de Negócios, o DE, assino a Economist, a FP, o WSJ e o Motley Fool, tenho no feed mais de 100 blogues, mais o Twitter, o Facebook, o Star Tracker e o Linkedin, contactos em meio mundo civilizado. Para que preciso de me chatear todos os dias logo às oito horas com a ignorância doutrinária daquela gente? O Público que se mantém como o melhor jornal generalista português, pouco passa de um boletim doutrinário do espírito do tempo. Dá guarida, voz e um saco de moedas a gente que à primeira oportunidade o silenciaria, publica opinião como notícia e dá à ignorância um significado novo. Não pago para isso e tenho pena, muita pena que uma coisa que podia ter sido, nunca o venha a ser. Vão dar sangue.
Censura
É possível falar de censura em espaço privados? Se eu quiser neste post bloquear todos os comentário de homens, ou de nomes começados por ‘Q’, ou comentários que me fossem desconfortáveis, seria um censor?
Partindo do princípio que o blogue, ou os meus posts, são minha propriedade, dificilmente a ideia de censura pega.
A liberdade de expressão tem como base um direito negativo. Eu tenho o direito a que ninguém me venha proibir de dizer o que quero. (A origem desse direito dá ricas discussões com o JLP, e fica para outra altura) Mas isso não é o mesmo que dizer que tenho o direito a que alguém me garanta um determinado suporte privado para eu exprimir a minha opinião. Não tenho por exemplo o direito a publicar a minha opinião no Público.
Posto isto, se eu anunciar aqui as regras para os comentários aos meus posts, os leitores ficam a saber quais elas são e concordando, ou não, terão que viver com isso. Por acaso, por mim, podem publicar e vir dizer o que quiserem, desde que não andem a insultar terceiros. Mas não vejo mal nenhum em adoptar critérios como o de apagar comentários de má qualidade (critério Seufertiano, claro), ou comentários off-topic ou outros que haja. Desde que anunciados e explicados, os critérios permitem aos leitores saber com o que contam. Podem estes depois retirar as suas conclusões sobre se querem ou não ler e ou comentar textos em que o autor siga esses critérios…
Curiosamente há a ideia de que os liberais têm uma espécie de obrigação moral a seguirem, privadamente, as condutas de liberdade, que defendem no espaço público, mas isso não é verdade. Eu acho que o liberalismo não aponta nenhuma moral para as condutas privadas. Um liberal pode ser masoquista, apesar de ser contra a violência imposta. A haver racistas que sejam contra um sistema estatal de discriminação, um liberal pode até ser racista, e discriminar na sua vida e no seu dia-a-dia. Tal como em todo lado há pessoas odiáveis e pessoas amáveis entre os liberais. Claro que exisitirá uma boa probabilidade que quem alguém que acredite na liberdade como motor de progresso, acabe por praticar essa liberdade no seu dia-a-dia. Mas essa relação não é inequívoca.
As condutas más devem ser criticadas independentemente de quem as pratica. Agora dizer “Olha, este é liberal, mas acha-se com o direito a apagar comentários aos seus posts” não tem sentido nenhum. Ou bem que se compreende essa atitude ou bem que não. (E repito, já agora: num espaço privado, a moderação de comentários é perfeitamente normal)
Seja como for, ser liberal não é sinónimo de ser pessoa de bem, lamento. Felizmente n’O Insurgente, quanto posso ver, até é.
Março 10, 2009
A garantia dos depósitos e os bailouts
Corrida aos Bancos e a “garantia” de 100% dos depósitos. Por Carlos Novais.
Com calma e trabalho, chega lá
EUA dizem que o Irão ainda não tem urânio enriquecido
E quando tiver?
A festa dos tolos
Em Angola, no século XXI as liberdades (política, económica e intelectual) são valorizadas. O comércio livre, essencial ao sistema capitalista e a uma sociedade civil forte andam de mãos dadas. Os governos são competentes, o sistema jurídico é eficaz: não há imposição de nenhuma ditadura, pois as legislativas foram uma festa para a democracia: o bem-estar das pessoas salta à vista. Assim como a cólera ou a raiva, na capital.
Viva o socialismo esquemático.
Como criar um mercado paralelo
Ukraine Orders Lenders to Keep Hryvnia at Central Bank’s Rate
Ukraine told 17 banks not to buy or sell the currency at a weaker level than the exchange rate set by the central bank in a bid to help stabilize the hryvnia.
De gatas
Parece que hoje vai estar por cá o rei de Angola a visitar o caseiro.
Entretanto, parece que os angolanos vão continuar a ter aquilo que merecem e por que lutaram. Infelizmente, ao que parece, nós também.
Fica o conselho aos participantes nas cerimónias: cuidado com as carteiras.
Casamento gay e os meus direitos
A minha única objecção ao casamento gay resume-se à possibilidade de adopção por estes casais em igualdade de circunstâncias com os casais heterossexuais. Mesmo naquele maravilhosamente ilustrativo Prós&Contras, em que os defensores do CPMS (já tem sigla!) quiseram fugir ao assunto – que se estava a tratar de uma coisa de cada vez, quase dizendo que uma não implicava a outra (a capacidade de mentir de certas pessoas não tem fim) – lá foram obrigados a reconhecer que sim, a adopção também estava no pacote – como é evidente, se não for criado um contrato específico. Deixando por agora os “benefícios” da adopção por casais homossexuais – o post não é sobre isto – relembremos as frases que têm sido repetidas por aí afiançando que o casamento de homossexuais não retira direitos a ninguém. Esta ideia é muito bonita. Só é mesmo pena ser falsa. O casamento entre homossexuais e a subsequente possibilidade de adopção trariam, como sucedeu por exemplo em Espanha, consequências nos direitos dos heterossexuais. Até porque se se decidir que é inconstitucional a discriminação de duas pessoas do mesmo sexo não poderem casar (uma coisa importante), inconstitucional será também a discriminação em coisas aparentemente pequenas como os registos civis.
Em Espanha, na sequência da legalização do casamento entre homossexuais, os registos de nascimento deixaram de conter as palavras “mãe” e “pai” (sim, fiz a difícil tradução do castelhano) para passar a conter as designações “progenitor A” (nos casos heterossexuais, para o pai) e “progenitor B” (idem, para a mãe). Deixando agora também de lado o insultuoso que é para uma mãe ser o progenitor “B”, como se houvesse ordem na importância dos progenitores (o machismo não incomoda tanto como “a homofobia”, pelos vistos), interessa-me repudiar a minha perda de direitos por uma situação semelhante que inevitavelmente seguiria a legalização de casamento entre pessoas do mesmo sexo, em Portugal, nos mesmos moldes do casamento actual. Não aceito que para dois gays poderem casar eu tenha que passar a ser vista perante o Estado e, logo, toda a sociedade, como o progenitor A ou o progenitor B dos meus filhos, em vez de ser vista como aquilo que sempre fui, sou e serei: a sua Mãe. E espero que não sejam os que tanto clamam pelo simbolismo do casamento e da palavra “casamento” que tenham a lata de considerarem pouco importante o simbolismo de poder continuar a ser Mãe.
A Flat Tax e a política fiscal da administração Obama
“Favoring A Flat Tax” de Richard Epstein (Forbes)
Libertarians are in general less than enamored with taxation on the simple but sensible ground that most people can make better use of their own money than the government can.
But by the same token, sensible libertarians are not anarchists, and thus, in funding public projects, have to choose that form of taxation that is least intrusive on individual liberty. Their uniform answer: the flat tax.
On the private side, a flat tax reduces the distortions that otherwise arise when two individuals receive different after-tax returns on their labor or investment. The flat tax also eliminates private incentives to concoct wasteful schemes to shift their income onto the ledger of their poorer relatives.
On the public side, the flat tax limits political discretion by making it harder for the government to single out “the rich” for special treatment. It also crimps government spending by denying any group the luxury of supporting government expenditures entirely at someone else’s expense.
Unfortunately, Obama’s team cares not for these salutary understandings. The centerpiece of its tax policy combines bad economics with dangerous majoritarian politics
Burn, baby, burn
Ainda no rescaldo do repasto e convívio insurgente do fim-de-semana que passou, ficam lançadas as seguintes perguntas:
- Quanta energia é necessária para fabricar uma nota de Euro ou de Dólar, e quanta energia é libertada quando a respectiva é queimada?
- Quanto é que custa a mesma quantidade de energia quando adquirida no respectivo mercado?
- Será que já atingimos a paridade? Em caso negativo, quanto tempo falta?
constitucionalismo liberal – 2

Em 1767, no seu livro chamado An Essay on the History of Civil Society, Adam Ferguson escrevia: “A autoridade das leis, quando tem um efeito real sobre a salvaguarda da liberdade, não consiste em nenhum poder mágico derivado das estantes carregadas de livros, mas, ao contrário, consiste na autoridade real de homens decididos a serem livres, de homens que, após terem posto por escrito os termos nos quais eles devem viver com o Estado e com os seus concidadãos, estão determinados a fazer observar esses termos com a própria vigilância e o próprio espírito”.
Esta passagem da obra de Ferguson encerra o essencial do constitucionalismo liberal: a Constituição vista como um pacto acordado entre a sociedade civil e a sociedade política, pelo qual a primeira delega poderes taxativamente elencados na lei à segunda; a emanação do poder político do Estado de Direito como uma delegação de poderes avocável e sindicável a todo o instante pela autoridade originária; a Constituição como o documento que estatuí as regras entre o poder civil e o poder político, tendo em vista a limitação objectiva do segundo; a necessidade de fiscalização permanente da constitucionalidade material, por parte dos cidadãos e da força das suas instituições.
Nada disto pertence à tradição constitucional portuguesa.
Para nós, a Constituição é uma benesse do poder político. Uma espécie de carta de privilégio medieval, uma carta de foral concedida unilateralmente pelo monarca, ou por um senhor laico ou eclesiástico. A Constituição de 1822 foi resultado de um entendimento entre as forças jacobinas saídas de 1820, completamente alheio à tradição e aos costumes de Portugal. Por isso, provocou as reacções que provocou, e teve uma vida breve, apesar dos seus dois períodos de vigência. A Constituição de 1838 não passou de um arranjo mal sucedido e efémero entre os partidos do regime saído de 34 e em conflito permanente. Foi um documento completamente alheio ao essencial do constitucionalismo liberal, que é refrear o poder político e dar-lhe racionalidade. A Carta Constitucional, apesar de ser dos três documentos o mais equilibrado, foi a expressão máxima dessa prerrogativa régia, senhorial e soberana de nos dizer como seremos governados e por conta de quem. É, por excelência, uma Constituição outorgada unilateralmente ao povo pelo seu soberano, pelo que não integra a noção necessária de pacto e de delegação de poderes que deve caracterizar o constitucionalismo liberal. As Constituições de 1911 e de 1976 foram expressões de jacobinismo revolucionário, tentando, mais a segunda do que a primeira, impor um modelo social que era completamente alheio à realidade do país. A Constituição de 1933 não é uma Constituição democrática e interpreta a tradição portuguesa de forma estamental.
Deste modo, toda a nossa tradição constitucional foi determinada por princípios iluministas e racionalistas, orientados num constitucionalismo vertical, onde o direito e as normas jurídicas fundamentais instituidoras do nosso Estado de Direito são, na melhor das hipóteses, declaradas pelo poder soberano.
Por outro lado, a sociedade portuguesa viveu sempre completamente divorciada da realidade constitucional, o mesmo é dizer que lhe é indiferente o controlo do poder político. Essas coisas não são para os “homens comuns”, como costuma dizer e pensar o cidadão médio português, mas para “eles”. E “eles”, essa espécie de classe social do nosso marxismo saloio, são os políticos, que continuamos a ver como seres alados tocados pelos deuses, dotados dos “poderes mágicos” a que Ferguson aludia, e a quem foi dada a ingrata missão (o “fardo” do Doutor Salazar) de nos governar.
A mentalidade portuguesa vê o Estado de Direito como Napoleão Bonaparte o concebeu, e é completamente avessa a qualquer espírito liberal impresso na Constituição.
Março 9, 2009
Interesse nacional
Não tenho memória da última vez que algum responsável governativo português ameaçou bloquear uma decisão europeia. Nem é preciso relembrar, por exemplo, a total docilidade que acompanhou a negociação portuguesa da Constituição Europeia e da sua reciclagem em Tratado de Lisboa.
Foi preciso colocar-se em cima da mesa os interesses da Lusoponte e o desígnio nacional de os habitantes da zona metropolitana de Lisboa terem portagens mais baratas, para colocar Teixeira dos Santos a falar grosso.
Seria talvez conveniente aos responsáveis da indústria hoteleira, que seriam os beneficiados pela proposta francesa em cima da mesa (e que Teixeira dos Santos se propõe vetar) da passar a IVA da restauração para a taxa reduzida, perguntar em que qualidade está Teixeira dos Santos presente na negociação: como Ministro das Finanças, ou como lobbista-proto-futuro-eventual presidente do conselho da administração da Lusoponte?
Ainda a gaffe russa de Hillary Clinton (2)
How Do You Say ‘Hillary’s Gaffe’ in Russian?
The confusion could also be avoided if, instead of Hillary Clinton, the job of Secretary of State was performed by a professional — like Condoleezza Rice, who speaks fluent Russian, and who wouldn’t have opted for the lame plastic button because this joke doesn’t work in Russian to begin with.
Russian is a rich and flexible language with versatile descriptive means, but it just doesn’t have a short universal word that embraces all the meanings of the allusive English “reset.”(…)
Other reports indicate that “Hillary Clinton raised eyebrows on her first visit to Europe as secretary of state when she mispronounced her EU counterparts’ names and claimed U.S. democracy was older than Europe’s.” In one particular case, she kept referring to European Commission External Relations Commissioner Benita Ferrero-Waldner as “Benito,” invoking the memories of Mussolini.
This looks rather ironic, considering that the current leaders in Washington had come to power by accusing their conservative predecessors of being pig-headed and deaf to other cultures and nuances. Turns out, they were merely projecting their own image on their opponents, given that they themselves can’t even distribute party favors to foreigners without a screw-up.
But let’s not be too hard on Hillary — according to her, the button was also a gift of friendship from President Obama and Vice President Biden. All things considered, the gaffe was the result either A or B:
A) The Obama administration is made of pig-headed, tone-deaf people, who don’t expect other cultures to have nuances — and so they don’t bother to consult with experts.
B) Experts chosen by the Obama administration are incompetent sycophants who got hired because they were political hacks, or as a result of favoritism, nepotism, or affirmative action — and they will uncritically ramrod their bosses’ ideas even if it’s contrary to reality and common sense.Either way we’re screwed.
(agradeço ao leitor Luís Cardoso a indicação do link)
Bloqueio aos desafios
Na semana passada, teve início o ciclo de conferências Portugal 2009: Bloqueios e Desafios, organizado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, a propósito dos três actos eleitorais que terão lugar este ano e de quais os problemas que o país tem de enfrentar. Até agora (convenhamos que ainda só houve um palestrante), ainda não foi notado algo que me parece bastante evidente: que a própria realização desses três actos eleitorais constitui um bloqueio aos desafios que Portugal tem de ultrapassar.
A longo prazo, Portugal é um país condenado à falência: deve mais do que aquilo que tem, tem um sistema de Segurança Social que não poderá durar muito mais tempo, tem um Estado que suga tanta riqueza em impostos que torna impossível o desenvolvimento do país. O que um bom Governo deveria fazer seria, em primeiro lugar, dizer isto aos cidadãos, e de seguida, promover as reformas necessárias para que o país só peça emprestado o que pode pagar, e para que os portugueses não sejam forçados a desperdiçar metade do que ganham em actividades ineficientes. No entanto, não só o actual Governo não parece reconhecer esta realidade, como não tem qualquer incentivo para fazer o que deveria: com três actos eleitorais, o que o Governo quer fazer é garantir um bom resultado para o PS, e para isso está disposto a fazer de tudo para que o máximo de dinheiro possa ser gasto no maior número de coisas possíveis, por muito inúteis que sejam.
Por sua vez, a oposição, em especial um PSD cuja máquina eleitoral é muito dependente de um poder autárquico que vive das benesses que os cofres públicos lhes permite distribuir pelos eleitores, tem pouca margem de manobra para dizer que esses velhos hábitos precisam de ser corrigidos. E mesmo que algum político tenha a vontade de dizer a verdade aos portugueses (como me parece que a actual líder do PSD tem), nada garante que os portugueses a queiram ouvir: é bastante plausível que prefiram comer as poucas maçãs que ainda lhes restam antes que apodreçam, em vez de plantarem outra macieira para passarem a ter mais para comer, e que votem de acordo com essa preferência. Assim, umas eleições que deveriam ser uma oportunidade para Portugal corrigir o rumo que tem seguido nos últimos anos, acabarão provavelmente por ser mais um passo na progressiva degradação das nossas condições de vida.



